Kim Jong-il

O audacioso sequestro planejado pelo ditador Kim Jong-il para inserir a Coreia do Norte no cenário cinematográfica mundial

Livro do Mês

O ditador Kim Jong-il | <i>Crédito: Getty
O ditador Kim Jong-il | Crédito: Getty
O cineasta e a atriz norte-coreanos Shin e Choi foram sequestrados em 1978 por funcionários do governo de Kim Jong-il, ditador da Coreia do Norte que amava cinema e desejava uma produção nacional notável em seu país. Neste trecho do livro Uma Produção de Kim Jong-il, de Paul Fischer, vemos a audaciosa reprodução da gravação de conversas entre o ditador e seus “convidados”, que, com as novas atividades, vislumbravam a oportunidade de fugir do país.

VIDA NOVA
Após uma sucessão de festas, Shin e Choi passaram a vê-lo [Kim] com menos frequência. Sem que soubessem, Kim Jong-il, paranoico com satélites espiões americanos, recentemente começara a passar apenas entre 65 e 70 dias por ano em Pyongyang, dividindo o restante do tempo entre suas casas de campo e mansões. 
Enquanto esperavam que ele se sentisse seguro o bastante para retornar à capital, Shin e Choi viam filmes norte-coreanos – 120 em três meses, pelos cálculos de Shin –, habituando-se à idiossincrática cinematografia do país. Os filmes norte-
coreanos, escreveria Shin mais tarde, “não eram feitos para entreter ou com propósitos artísticos, mas sim usados como ferramenta política. Poder político e produção cinematográfica eram inseparáveis”. E, embora os soviéticos tivessem empregado praticamente a mesma abordagem, no processo haviam criado obras imemoriais e inovadoras, ao contrário dos norte-coreanos. Esse, compreendeu Shin, era o problema que havia sido “contratado” para resolver, e ele se dedicou a isso, parcialmente porque amava desafios, mas, principalmente, porque satisfazer Kim Jong-il era a única esperança que ele e Choi tinham de fugir da Coreia do Norte. Shin precisava de uma coleira mais frouxa, mais liberdade de movimentos, e Choi lhe dissera que a única maneira de conseguir isso era participar da farsa, impressionando seu captor e fingindo perseguir os mesmos objetivos. 
Sua rotina era a mesma, dia após dia, confinados em casa e assistindo a cerca de quatro filmes por dia. Os filmes eram escolhidos para eles, sem que fossem consultados, e incluíam títulos da União Soviética e do Leste Europeu, assim como dois americanos, Dr. Jivago e, estranhamente, Papillon. 
Shin solicitou reuniões com Kim várias vezes, em vão, e se preocupou com o fato de estar sendo ignorado e manipulado. Na verdade, Kim estava na China com o pai. Era a primeira vez que o líder em preparação seguia o pai em uma visita de Estado. (...) Então, em 19 de agosto, o telefone finalmente tocou. Como sempre, Kim iniciou a conversa com uma pergunta sobre a saúde de Shin e Choi e disse que aprontara seus escritórios e o trabalho estava prestes a começar. O carro seria enviado imediatamente. 
O carro os levou ao centro de Pyongyang, até um complexo de dois edifícios, um com cinco andares e o outro com três. Embora luxuosamente ornamentado, com tetos altos e o que pareciam ser pisos de mármore com elaborados relevos em granito, ambos os edifícios eram de aço e concreto. Os muros externos tinham um metro de espessura e haviam sido projetados para suportar bombardeio. Supostamente, havia túneis subterrâneos, largos como estradas, levando do edifício a uma das propriedades de Jong-il, caso ele precisasse fugir rapidamente. 

o melhor diretor
Shin e Choi saíram do Mercedes e foram recebidos por vários membros da equipe. O edifício de cinco andares fora a sede do Grupo Criativo Paekdu (a melhor equipe de cinema de Kim), mas o grupo fora retirado para dar espaço aos novos talentos. Shin e Choi passaram os meses seguintes se instalando em seu escritório e, como sempre, esperando por Kim. Ainda não havia uma reunião agendada. E então, finalmente, em 18 de outubro, no dia em que Shin completou 57 anos, Jong-il, que gostava de celebrar essas datas, telefonou para desejar feliz aniversário e convidá-los para jantar. Seria sua primeira reunião formal. 
Shin estava preparado para conversar sobre cinema, mas também pretendia, pela primeira vez, perguntar diretamente por que ele e Choi haviam sido sequestrados. Queria razões, mas também provas, no caso de conseguirem sair da Coreia do Norte, de que não haviam desertado. Ele precisava de provas saídas diretamente da boca de Kim Jong-il. Gravar secretamente qualquer um dos Kim era um crime extremamente grave. Shin já passara tempo em um campo de reeducação e, se fosse pego, após meses de fingida cooperação e comprometimento, todas as suas esperanças estariam perdidas. Ele certamente seria executado. O plano era que o gravador ficasse escondido na bolsa de Choi, que o ligaria e desligaria quando necessário.  
Às 17 horas de 19 de outubro, a limusine pessoal de Kim Jong-il levou Shin e Choi até seu escritório na sede do Comitê Central. Kim Jong-il esperava por eles quando as portas do elevador se abriram. Ele os saudou com um grande sorriso. “Há quanto tempo!”, exclamou. “Estive tão ocupado que não tive tempo para vê-los. Preciso me desculpar por isso.” Fotógrafos estavam com ele para registrar a ocasião. Após algumas fotografias, o Querido Líder dispensou os fotógrafos, disse ao acompanhante de Shin e Choi para aguardar do lado de fora e entrou com eles na sala de recepção. Choi colocou a mão dentro da bolsa e ligou o gravador. 
Kim falou por duas horas, praticamente sem pausas, das quais Choi foi capaz de gravar somente 45 minutos – um lado completo da fita, que não podia virar. (Muito mais tarde, quando a fita chegasse à mídia, seria uma sensação, a primeira vez que o público ouvia Kim Jong-il em franca conversação privada.)
A fita é simplesmente extraordinária – tão extraordinária que, embora tenha sido autenticada tanto pela CIA quanto pela ACIC, autores de teorias da conspiração questionariam sua veracidade. Kim não precisou de encorajamento para explicar, quase se gabando, os sequestros. Ele fora informado, disse a Shin, chamando-o de sunsaeng (professor) e usando tratamento formal e não familiar, “que o senhor é o melhor diretor da Coreia do Sul. Estávamos falando sobre diretores e Choe Ik-gyu disse que o senhor era o melhor. E saber que o senhor havia nascido na Coreia do Norte” – outro bônus de propaganda – “nos ajudou a decidir”. Na fita, pode-se ouvir o Querido Líder rindo, com Shin e Choi se juntando a ele. “Soubemos que sua situação não era muito boa no Sul. O senhor estava tendo problemas com Park Chung-hee e sabíamos que Park tentaria se manter no poder por longo tempo, tornando difícil para o senhor trabalhar no Sul e fazendo com que tentasse trabalhar no exterior. Ouvimos que o senhor queria ir para o exterior, para dirigir filmes.”
“Foi quando minha licença comercial foi cancelada”, esclareceu Shin.
“Sim, isso mesmo”, respondeu Kim. “Então pensei: Preciso trazê-lo para cá. Mas será impossível trazê-
lo, porque ele é um homem. Impossível, então tentamos atraí-lo, seduzi-
lo para que viesse para cá. Então trouxemos a professora Choi, para tentálo.” Novamente Jong-il ri e o casal se junta a ele. “Sendo sincero, eu definitivamente precisava do senhor. Disse a meus camaradas: Se queremos trazer o diretor Shin para cá, precisamos planejar uma operação secreta.”

HÓSPEDES
“[Mas], mesmo depois de trazer o senhor para cá”, continuou Kim sem pausas, “como poderíamos deixá-lo confortável e feliz? Houve aquela situação inevitável – serei muito honesto com o senhor; por favor, não pense mal de mim – o fato de os mantermos separados. Não era minha intenção original. Meus camaradas achavam que, se madame Choi viesse, naturalmente o professor Shin também viria. Mas, como o senhor sabe, nossos oficiais de nível operacional são muito subjetivos e burocráticos e, desse modo, ao lidarem com a questão, não a trataram adequadamente”. Era a tentativa de Kim de se desculpar, culpando os subordinados. Jong-il assegurou a ambos que as pessoas responsáveis haviam sido punidas. 
“Houve muitos problemas. Nossos camaradas, especialmente os que levaram a cabo a operação, caíram no subjetivismo. Passaram por muita autocrítica como resultado. Também conduzi minha própria autocrítica. Porque jamais disse a meus subordinados, detalhadamente, quais eram meus planos, jamais disse como os senhores seriam empregados. Apenas disse ‘Tragam-me essas duas pessoas’ e meus camaradas prosseguiram com a operação. Assim, ao lidar com os senhores, eles os colocaram em casas de hóspedes diferentes e os trataram como prisioneiros, criminosos. Como resultado, houve muitos mal-entendidos.”
Kim os quisera como hóspedes, explicou, e os via como iguais; o desrespeito com que haviam sido tratados não era sua culpa. Ele enfrentara camaradas relutantes, continuou, que não acreditavam que Shin e Choi realmente queriam “ajudar na melhoria da indústria cinematográfica do Norte”, mas estavam ali somente para agradá-lo. 

LIBERDADE CRIATIVA
“Eu me perguntei que pessoas haviam dominado técnicas ocidentais que não possuímos, quem viria até aqui para produzir algo com meu apoio? Estamos em um nível inferior”, acrescentou. “Falando honestamente, os sulcoreanos se esforçam para fazer as coisas... as pessoas aqui são diferentes. As coisas são dadas a elas. É preciso investir em diretores e em nossos atores e atrizes. E essas pessoas devem trabalhar muito, ou não sobreviverão na indústria. Muito trabalho é a chave do sucesso.” “Senti o mesmo”, respondeu Shin. “Eu poderia usar os recursos daqui. Poderia ensinar as técnicas – não apenas copiando filmes sul-coreanos mas também sendo criativo. Acho que é possível, e por isso estive tentando me encontrar com o senhor, Querido Líder.”
Kim pareceu satisfeito. “Eu disse às pessoas: Shin e Choi vieram para cá porque possuímos um sistema superior. Os senhores vieram para cá voluntariamente. Não contei minhas intenções reais. Algumas pessoas têm dúvidas. O fato é que sou um político com desejos e vontades. Os senhores eram necessários a esses desejos e vontades. Assim, estão aqui.”
“É difícil falar sobre isso. Temos de admitir que estamos ficando para trás. Temos de reconhecer que estamos atrasados. Estou em posição de dizer isso. Se outra pessoa dissesse isso, teria problemas por criticar o regime. Sou o único que pode dizer isso. E só posso dizer isso a vocês dois. Por que só produzimos lixo?” Kim prometeu que protegeria Shin e lhe daria qualquer coisa que necessitasse. “Serei seu escudo”, disse. “Minha intenção é que os senhores mostrem como produzem seus filmes e as pessoas daqui seguirão naturalmente por esse caminho. Os senhores são pioneiros.” Ele estava ficando excitado. “Por que os senhores não fazem o seguinte? Os senhores podem dizer, ao conhecer alguém de fora, que não existe liberdade no Sul, não existe democracia. E que há muita interferência na indústria criativa. Há apenas anticomunismo.”  
“O senhor veio para cá para encontrar a verdadeira liberdade, é isso que deve ser dito. Liberdade de expressão. Queremos liderar nossa indústria cinematográfica para que ela se torne mais avançada que a dos países mais avançados. Acho que isso soaria natural”, ele deu uma risadinha, “seria melhor do que dizer que os senhores foram arrastados para cá à força”. “Sinto muito por não termos sido agradáveis até agora”, disse ele a Shin e Choi. 

PROPAGANDA
“Querido Líder, que sorte essas pessoas têm de trabalhar para um fã do cinema como o senhor”, disse Shin. “Elas devem estar felizes”, acrescentou Choi. “Elas deveriam se esforçar mais”, respondeu Kim. “O Estado paga tudo para essas pessoas. Assim, nesse sistema, escrever roteiros se tornou um passatempo para os roteiristas, pois eles não precisam se preocupar com ganhar dinheiro para se alimentar. Eu disse a nossos trabalhadores de propaganda que existe um problema real no socialismo: nenhum incentivo para o sucesso.”
“Os cineastas do Norte estão fazendo um trabalho superficial. Não têm ideias novas. Suas obras usam as mesmas expressões, redundâncias e velhos enredos. Todos os nossos filmes são cheios de lágrimas e soluços. Não ordenei que retratassem esse tipo de coisa”, insistiu Kim, novamente evitando a responsabilidade. “Não sei por que fazem filmes assim.”
Houve um breve silêncio e então ele continuou, mais confiante: “Este é apenas um fenômeno transitório e solucionaremos nosso dilema cinematográfico. Estou determinado a superar todos os obstáculos para que as pessoas abram seus olhos para a mente criativa. [Posso] confessar isso apenas a vocês dois. Agradeceria se fosse um segredo entre nós.” Já era incomum que o confiante, autoritário e insolente jovem Líder se dirigisse formalmente aos mais velhos e os chamasse de professores, quanto mais pedir e seguir o conselho de alguém; contudo, essa era a surreal situação em que Shin e Choi subitamente se encontraram.  
“Com vistas ao desenvolvimento [da] indústria”, disse ele, “o senhor deve servir como modelo que nossos diretores seguirão naturalmente. O senhor desempenhará o papel de pioneiro. Essa era minha intenção quando o trouxe até aqui, mas seu papel é mais extenso que isso. Não é preciso dizer”, acrescentou, “que o senhor precisa dizer que sua deserção para o Norte foi voluntária e que a democracia do Sul é uma farsa. Não há democracia genuína. Há apenas anticomunismo e interferência no trabalho criativo. O senhor precisa dizer que, em função das restrições à arte, o senhor desertou para o Norte, onde pode gozar de liberdade genuína e da garantia de liberdade de criação.”
Assim, Kim não queria apenas que Shin e Choi produzissem filmes para ele. Queria também que fossem um instrumento de propaganda para a Coreia do Norte, personificações de sua superioridade. Eles seriam diretor e atriz durante o trabalho, mas também o casal protagonista da iludida autonarrativa norte-coreana. Kim sabia que a história seria ouvida com ceticismo, especialmente dado que o mundo exterior nada sabia sobre Shin e Choi havia cinco anos. Mas tinha uma solução para esse problema. As pessoas não se apressariam em suas conclusões de que eles estavam presos na Coreia do Norte simplesmente porque não estariam. Ele os enviaria para o exterior.


O texto desta reportagem foi extraído do livro Uma Produção de Kim Jong-il, Paul Fischer, 2016, Editora Record

23/05/2016 - 08:36

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