Surf: uma história política

Do Havaí para o mundo, o esporte uniu inimigos e desafiou tiranias

Carin Homonnay Petti | 03/2011

Garota surfando em quadro de 1935 | <i>Crédito: William Fulton Soare
Garota surfando em quadro de 1935 | Crédito: William Fulton Soare

De prancha na mão e mochila nas costas, o californiano Michael Scott Moore correu o mundo. Sua missão: identificar os primeiros surfistas de vários países, numa espécie de expedição em busca das correntes e marés que espalharam o esporte a cantos tão inusitados quanto a Faixa de Gaza, São Tomé e Príncipe e Marrocos. Pegou ondas e conversou com nativos em terras estranhas ao milionário circuito internacional do surf. O relato das andanças está em Sweetness and Blood: How Surfing Spread from Hawaii and California to the Rest of the World, with Some Unexpected Results ("Doçura e Sangue: como o Surfe se espalhou do Havaí e da Califórnia para o Resto do Mundo, com Alguns Resultados Inesperados, sem edição no Brasil". Por incrível que pareça, não entramos na rota do jornalista).



A origem do surf é incerta. Para alguns historiadores, a prática nasceu há cerca de 3 mil anos entre moradores da atual costa do Peru, que, para pescar, deslizavam sobre as ondas em canoas de junco. Moore discorda. Segundo ele, não há provas de que os antigos peruanos ficassem de pé nas embarcações. E menos ainda de que fizessem manobras (uh hu!) por diversão - a alma do esporte.

O certo é que os europeus conheceram o surf durante as expedições do explorador britânico James Cook ao Pacífico. Em 1779, quando o navegador aportou na baía de Kealakekua, testemunhou competições sobre as ondas que faziam parte dos festivais de ano-novo, dedicados a Lono, deus da fertilidade e da fartura, do sol e da chuva. Diferentemente dos campeonatos atuais, não vencia quem surfava com mais estilo. Era uma corrida: ganhava o primeiro a chegar à praia em cima da prancha. Na areia, não faltava quem perdesse tudo o que tinha em apostas no seu surfista favorito. Cook não teve tempo de experimentar tão inusitada prática. Foi morto logo depois, após uma confusão com os nativos por causa de um barco roubado e a infeliz ideia de recuperá-lo sequestrando um chefe local.

Com a chegada de missionários cristãos às ilhas, a partir de 1820, o surf perdeu força. Os religiosos estavam determinados a pôr fim aos costumes pagãos, e enfrentar as ondas de pé e sem roupa estava no topo da lista - além de indecente, minava a produtividade. As pranchas foram transformadas em mesas e cadeiras, usadas nas escolas que ensinariam religião, "bons costumes" e escrita aos "selvagens."

Apesar do esforço dos missionários, o surf sobreviveu. Mais de um século depois, em 1907, um havaiano de ascendência irlandesa, George Freeth, levou o esporte para a Califórnia. Naquele tempo, as pranchas costumavam ser feitas de madeira maciça, tinham 3 m de comprimento, pesavam 45 kg e não possuíam quilha, o que as tornava difíceis de manobrar. (As pranchas atuais têm vários formatos, adequados, por exemplo, para tipos diferentes de onda e modalidades. Podem pesar menos de 3 kg, feitas de poliuretano e fibra de vidro, com cerca de 1,80 m.)

Da Califórnia, a partir dos anos 1950, veio o tsunami. O esporte conquistou o planeta - com o empurrão de Hollywood e filmes como Maldosamente Ingênua (1959), com Sandra Dee. Na tela, corpos bronzeados disseminavam a cultura da praia, associada a hedonismo, diversão e liberdade.

Tio Sam e a tábua

Não só atores, mas também soldados americanos ajudaram a espalhar o surf. Na base militar de Komagawa, no Japão, era o passatempo da hora do almoço. Terminado o intervalo, os recrutas escondiam as pranchas embaixo da areia, sob os olhares disfarçados dos vizinhos japoneses. Nas noites de lua cheia, era a vez de os japoneses se arriscarem. "Pulávamos a cerca, desenterrávamos as pranchas e íamos surfar", conta no livro um dos pioneiros do esporte do país, Kazumi Nakamura, adepto desde 1963.

Na base de Guantánamo, em Cuba, o surf ganhou inclusive apoio oficial. Até os atentados de 11 de setembro, surfistas profissionais volta e meia desembarcavam para dar aulas para soldados e sua família (a base existe desde 1903). A ideia era combater o tédio da vida confinada, naquele enclave cercado de inimigos comunistas. As "clínicas" acabaram depois da transformação da base na prisão para acusados de terrorismo, que Barack Obama agora tenta fechar.

Areia interditada

Falando em Cuba, fora de Guantánamo, nem sempre foi fácil pegar onda na terra dos irmãos Castro. Que o diga o surfista Tito Diaz. Ele fez sua própria prancha com uma mesa escolar e aderiu ao esporte nos anos 1980. Acabou amargando uma semana na prisão: "Não dava para fazer nada no mar porque pensavam que você estava tentando escapar da ilha". Na ex-Alemanha Oriental, a história era parecida. Em várias praias do mar Báltico, windsurfistas viviam às voltas com a polícia, determinada a evitar fugas para o outro lado da Cortina de Ferro - que foi exatamente o que alguns fizeram. Como o eletricista berlinense Karsten Klünder e seu amigo Dick Deckert. Em novembro de 1986, a dupla partiu das águas geladas da ilha de Rügen com pranchas feitas em casa. Quatro horas depois, Klünder chegou à costa da Dinamarca. Só no dia seguinte encontrou o companheiro Deckert, e a dupla seguiu para a Alemanha Ocidental.

O surf desafiava tiranias de esquerda e direita. Na África do Sul, Tony Heard, editor do Cape Times, teve a ideia de libertar Nelson Mandela da prisão de Robben Island usando sua prancha de surf. "Os prisioneiros costumavam apanhar algas marinhas na praia. Eu pensei: ‘Por que não remar devagar, camuflado com as algas, fazê-lo subir na prancha e remar até sermos resgatados por um navio estrangeiro?’" O plano não foi para a frente, mas Mandela tornou-se uma referência para os surfistas da ilha e de toda a região. Dois pontos de arrebentação de ondas foram batizados com seu apelido, o Madiba da Direita e o Madiba da Esquerda.

Nos tempos do apartheid, o surf era um esporte de brancos. Durante um campeonato em Durban, em 1971, o havaiano nativo Eddie Aikau foi barrado num hotel exclusivo para brancos. Em protesto, o organizador da competição hospedou o esportista em seu apartamento. O espírito de resistência cresceu nos anos 1980, com a formação do grupo Surfistas contra o Apartheid.

O Islã entra na onda

Longe dali, em Israel, outro grupo recorreu às pranchas na esperança de aproximar velhos inimigos. Fundado por dois surfistas judeus, o Surfing 4 Peace (Surfando pela Paz), leva pranchas e outros equipamentos a palestinos que praticam o esporte na Faixa de Gaza. Em 2007, o surfista americano Dorian Pascowitz desafiou soldados israelenses e cruzou a fronteira rumo ao território com 14 pranchas. Para seu colega de empreitada, Arthur Rashkovan, eles só não foram detidos a bala por causa da presença da mídia e de brechas na lei de então (depois do episódio, a lei foi alterada e endurecida).

Para outros, porém, os inimigos são justamente os surfistas. Na visão do autor, a cultura do surf estava na mira dos atentados a bomba de 2002 em Bali, que deixaram 202 mortos - a maior parte deles turistas estrangeiros. Afinal, foi com a chegada dos surfistas australianos na década de 1970 que o turismo e os costumes ocidentais avançaram na região - motivo de descontentamento para extremistas islâmicos. A Indonésia é a maior nação muçulmana do mundo. Nesse contexto, ao subir nas pranchas, estudantes e artistas locais não querem só diversão. Buscam também uma forma de se diferenciar do fundamentalismo.
No Marrocos, o rei Mohammed VI pensa parecido. Ele mesmo prefere o jet-ski, mas, com a intenção de combater o radicalismo islâmico, fundou um clube de surf na capital, Rabat. De quebra, o monarca tenta reforçar a imagem de líder amigo do Ocidente, diz Moore. Como vimos aqui, surf, política e religião podem, sim, pegar a mesma onda.


A chegada da "tábua de passar"
No Brasil, o surf começou no improviso 

Praia do Gonzaga, Santos, 1934. Enquanto a garotada se distraía com a pelada na areia, um rapaz de 16 anos queria era saber das ondas. Thomas Rittscher Júnior ia munido de sua "tábua havaiana", que ele mesmo havia feito baseado em um esquema da revista americana Popular Mechanics. A primeira prancha do Brasil pesava entre 50 e 60 kg e tinha quase 4 m de comprimento. A partir dos anos 1940, no Arpoador, Rio de Janeiro, o esporte começou a se popularizar, primeiro entre os praticantes de pesca submarina. Na década seguinte, quando virava moda mundial, aqui, pegou entre garotos da Escola Americana. As pranchas continuavam a ser improvisadas, de madeirite ou isopor revestido de saco de sisal, até a abertura da primeira fábrica, a carioca São Conrado Surfboard, em 1965. Hoje, o surfe no Brasil tem mais de 2 milhões de adeptos (além de praias com ondas elogiadas mundialmente), e alguns deles estão entre os melhores profissionais do mundo.

05/12/2016 - 00:00

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