Arte Degenerada: Por que Hitler tentou dar fim ao modernismo?

Nazistas não apenas censuraram artistas - eles fizeram uma exposição com o que não gostavam

Fabio Marton

Detalhe de 'Crucifixão' de Emil Nolde | <i>Crédito: Wikimedia Commons
Detalhe de 'Crucifixão' de Emil Nolde | Crédito: Wikimedia Commons

Entre as muitas coisas que os nazistas queriam ver varridas do mundo estava o modernismo – para eles, era mais uma das conspirações de judeus e comunistas para acabar com o corpo e espírito dos alemães. Mas esse era um capricho pessoal do ditador. O ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, era um fã de arte moderna. Dizia que o expressionismo era uma expressão feroz e bem germânica. 

Mas Hitler havia sido rejeitado da Escola de Artes de Viena em 1908. Suas pinturas foram consideradas convencionais demais. Faltava a ele o necessário para ser visto como gênio no século 20, a ousadia e distorção dos quadros que acabariam chamados de Entartete Kunst – “arte degenerada”. Com sua ascensão ao poder, em 1933, e a ajuda do ideólogo Alfred Rosenberg, que deu uma explicação ideológica em como o modernismo era "judeu" e não "ariano". Como as obras modernistas, "elitistas", incompreensíveis, contrariavam a didática de passar mensagens edificantes ao povo alemão. Isto é, não era popular, volkisch, legítimo. (Curiosamente, algo com que Stalin concordava - mas o Realismo Socialista é outra história.)

Artistas modernos perderam seus cargos em museus e universidades e foram proibidos de exibir ou vender sua arte – e, às vezes, até mesmo produzi-la privadamente. Em 1937, deu-se o passo adiante e passou-se a confiscar quadros modernistas de coleções públicas e privadas. O butim totalizaria 5 mil obras, e parte disso seria exibida na Die Ausstellung Entartete “Kunst” – “Exposição da ‘Arte’ Degenerada”, com aspas sarcásticas mesmo – de julho a novembro de 1937.

Era uma mostra didática, com três salas dedicadas a “ofensa à religião”, “insulto aos soldados, mulheres e lavradores alemães” e “artistas judeus” (claro). Era uma exibição intencionalmente bagunçada, com quadros expostos da pior forma possível, com iluminação inadequada e cobertos parcialmente por slogans como “o ideal – o cretino e a prostituta”. 

Nazistas eram loucos, mas não rasgavam dinheiro. Após a exposição, os quadros com valor no mercado internacional foram leiloados na Suíça. Alguns foram discretamente confiscados por oficiais nazistas – o líder da aeronáutica Hermann Göring tomou para si 14 deles. As obras que não foram vendidas ou embolsadas acabaram, de fato, queimadas.

Não parou por aí. Em outro prédio, funcionava a Exposição da Grande Arte Alemã, os quadros que Hitler aprovou pessoalmente, todos realistas e acadêmicos, mostrando nus loiros idealizados. A exposição “degenerada” foi um imenso sucesso, atraindo mais de 2 milhões de visitantes. A outra pegou poeira. Ironicamente, muitos artistas alemães só passaram a ser conhecidos no exterior pela infame exibição de 1937. Confira abaixo alguns dos quadros. 


O cartaz 

Wikimedia Commons

O cartaz usou de uma escultura que parecia feita sob encomenda para ser odiada pelos nazistas: O Novo Homem, do judeu Otto Freundlich, que morreria num campo de extermínio. Era inspirada nos moais, mas os nazistas viram ali a apologia das raças inferiores – tanto pior com esse nome. A escultura se perdeu, provavelmente destruída.


O antissemita rejeitado

Os Três Reis Magos, Emil Nolde, 1913 / Wikimedia Commons

Emil Nolde era um ferrenho antissemita e fã do Partido Nazista. 


"Crucifixão", 1912, Emil Nolde

Goebbels apreciava sua obra. Mas Hitler não queria saber de modernismo, viesse de onde visse, e ele foi parar na mostra e perseguido. Além disso, sua obra parecia ofender à religião - e havia uma galeria só para isso. Pura hipocrisia populista: em privado, Hitler e Goebbels várias vezes se manifestaram contra o cristianismo.


Saudades da guerra 

 

 Aleijados da Guerra, Otto Dix, 1920

Poucas coisas poderiam soar tão ofensivas aos nazistas, grupo formado por veteranos da Grande Guerra, quanto este quadro de Otto Dix, no qual viram uma chacota com os feridos. Em verdade, Dix era um herói de guerra e estava retratando seus traumas. Às vezes, de forma bem gráfica:


"Ferido de Guerra", Otto Dix, 1922

Outros quadros de Dix batiam de frente com a moral sexual caseira e utilitária defendida pelos nazistas:

"Casal", Otto Dix, 1926


Alvo óbvio

O Rabino, Marc Chagall, 1926 / Wikimedia Commons

Marc Chagall era russo e vivia na França, enquanto a exposição era dedicada a artistas alemães. Mas os nazistas não puderam resistir a exibir o modernista mais decididamente judeu do mundo. 


Estraga-prazeres 

Casal de Dançarinos, Ernst Ludwig Kirchner, 1914 / Wikimedia Commons

Kirchner era um dos artistas ativos quando Hitler foi barrado na academia. O estilo de vida boêmio dos artistas – e seu estilo musical favorito, o jazz – era tido por antigermânico e ridicularizado. 


O pornógrafo


"Duas Mulheres", 1915, Egon Schiele

O regime nazista mandava homens gays para campos de concentração, mas ignorava as lésbicas. Egon Schiele, porém, o "pintor do sexo", seria condenado pelo conjunto da obra.


Estranho amor


Os Imigrantes, Oskar Kokoschka, 1917 / Wikimedia Commons

Descendente de tchecos, Kokoschka foi um dos primeiros a serem declarados degenerados. As razões eram um outro lado da ideologia nazista: foi considerado insano e dispensado da guerra e fez uma boneca sexual para relembrar uma amante. 


Vingança irônica

"Poder Cego", 1938, Rudolf Schlichter

Rudolf Schlichter foi um expressionista cujas obras foram capturadas e expostas pelos nazistas. Sua resposta começou a vir um ano depois: convertendo-se ao surrealismo, ele pintou um quadro com técnica, proporções classicistas e, de certa forma, até tema classicista, como os nazistas gostavam (um centurião). Mas também é um comentário óbvio sobre a monstruosidade do nazismo, com demônios comendo as entranhas do guerreiro.


Selo de aprovação nazista

Mas então, o que Hitler considerava boa arte? Isto: 

"Os quatro elementos", Adolf Ziegler

O xará Adolf Ziegler era o favorito de Hitler. Pintava de forma realista, desenhando nus "arianos" perfeitos como acima. E foi chamado para colaborar com a perseguição aos modernistas, sendo um dos organizadores da mostra. 

Quanto a Hitler, em pessoa, uma de suas maiores fraquezas sempre foi desenhar a forma humana. Seus quadros eram geralmente vazios ou com bonequinhos inexpressivos. Ele gostava muito de arquitetura e paisagens - e nem de longe atingia o fotorrealismo renascentista de seu xará e ídolo. 


"Velho Casarão", Adolf Hitler, 1914



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