FEB: Rumo ao desconhecido

Pracinhas não faziam ideia de onde iriam desembarcar - nem mesmo se iriam lutar

Márcio Sampaio de Castro

O navio USS M.C. Meigs (AP-116) chegando no Rio de Janeiro | <i>Crédito: Domínio publico
O navio USS M.C. Meigs (AP-116) chegando no Rio de Janeiro | Crédito: Domínio publico

HISTÓRIA MALUCA


Um trem com numerosos vagões acaba de entrar na Vila Militar, no Rio de Janeiro. Soldados e oficiais que acompanham a chegada têm a impressão de que seu avanço pelo interior do quartel jamais terminará. Nesse dia, 29 de junho de 1944, milhares de homens tomarão seus lugares no interior da composição para dar início à viagem que os levará para a guerra. Um ano e meio de treinamentos e preparativos terminava ali.

Ao contrário do que muitos esperavam, o Exército brasileiro havia sido capaz de formar uma divisão para representar o País na guerra mundial contra o nazi-fascismo, que já durava quase cinco anos. Conhecida como Força Expedicionária Brasileira (FEB), a divisão havia sido subdividida em três regimentos de infantaria (o 1º do Rio de Janeiro, o 6º de Caçapava, São Paulo, e o 11º de São João del-Rei, Minas Gerais) e contava também com unidades de artilharia, engenharia, saúde e até com funcionários do Banco do Brasil, responsáveis pelo pagamento dos soldos da tropa em terras estrangeiras. No total, era uma força composta por mais de 25 mil pessoas.

O medo de que submarinos alemães, alertados pelos espiões que acompanhavam o movimento dos navios no porto, pudessem atacar a embarcação que levaria os expedicionários, fez com que diversas medidas fossem tomadas para iludir o inimigo. Durante meses, os homens haviam feito exaustivos exercícios de embarque e desembarque, sem jamais ter a certeza de quando iriam seguir viagem. Para muitos, aquele 29 de junho representava apenas mais um exercício. Dos três regimentos, apenas o 6º cruzaria a cidade do Rio de Janeiro, completamente às escuras em função de um planejado blecaute, em direção ao cais. Os demais regimentos seriam levados para outros locais com o objetivo de confundir os informantes. Também por questões de segurança, o embarque deu-se somente à noite, o que fez com que o processo todo demorasse três dias.

Na manhã de 2 de julho, o navio norte-americano General Mann partia sem que a maioria de seus passageiros soubesse exatamente o que estava acontecendo. “Eu me lembro de que, naquela manhã, estava no refeitório e percebi algo diferente. Quando deram 4 horas da tarde, subimos ao convés e vimos o Cristo Redentor bem pequeno. Aquilo deu um aperto no coração”, conta o veterano Ferdinando Palermo.

Muitos dos pracinhas, como eram conhecidos os soldados brasileiros, apostavam que o destino final seria o norte da África e acreditavam que jamais entrariam em combate. Durante longos 13 dias, eles entregaram-se a uma rotina que consistia em tomar um lugar na fila do refeitório, fazer exercícios de salvamento em caso de ataque e voltar para os dormitórios. Cada compartimento do navio abrigava até 400 homens e sempre havia um oficial armado na entrada. Sua missão era trancar a porta, caso aquela seção fosse torpedeada, não importando quantos homens houvesse ali dentro. O essencial era salvar o navio e o máximo de passageiros possível.

A monotonia da viagem só foi quebrada quando o Monte Vesúvio, dominando a paisagem da Baía de Nápoles, pôde ser avistado pelos integrantes daquele que seria o primeiro dos cinco escalões da FEB. O mistério havia acabado. Os pracinhas estavam na Itália. E para combater num inferno gelado


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