Histeria coletiva: Os boatos mais malignos da história

Dos bacanais ao jogo da baleia azul, lendas urbanas frequentemente levavam à carnificina

Fabio Marton

Representação de um antigo ritual satânico | <i>Crédito: Wikimedia Commons
Representação de um antigo ritual satânico | Crédito: Wikimedia Commons

A mentira tem pernas longas. Um pânico moral é quando uma narrativa apavorante – uma ameaça ao país, à coletividade, às crianças, à moral pública etc. – se espalha pela sociedade. Na definição popular, é sinônimo de histeria coletiva, ainda que hoje os acadêmicos prefiram usar a segunda apenas para episódios em que um boato ou pânico moral causa sintomas físicos. 

Eles podem surgir como lendas urbanas, espontaneamente, ou intencionalmente, partindo de autoproclamados guardiães da moralidade ou gente tentando acabar com a reputação (ou a vida) de um grupo. Hoje também nascem canais de notícias falsas. São múltiplos os pânicos morais de cada época. Enquanto se perseguia bruxas, também se perseguia judeus. Esta é uma seleção de alguns dos mais significativos.


1. Filosofia (399 a.C)

Pois é, filosofia. Sócrates, o fundador da disciplina, foi condenado a se matar com cicuta por um tribunal popular em Atenas. A acusação era não aceitar os deuses e corromper a juventude, introduzindo novos deuses. A se julgar pelos relatos de Platão e Xenofonte, o filósofo pouco falava sobre os deuses, mas às vezes se referia a um “Deus” no singular. Assim, muitos historiadores entenderam essa parte dos deuses como uma mera desculpa para condená-lo por suas opiniões políticas, simpáticas a Esparta e críticas ao regime democrático. 


2. Bacanais (186 a.C)

No ano acima, o Senado Romano passou uma regulamentação ao culto de Baco, praticamente proibindo-o na forma como existia. As acusações foram documentadas pelo historiador Tito Lívio. Os fiéis de Baco – que preferiam chamá-lo pelo nome grego, Dionísio – fariam não só as manjadas orgias, como nelas se misturariam todas as classes sociais. Os novos conversos teriam de se sujeitar a abusos sexuais e a coisa poderia chegar aos sacrifícios humanos, com falsos testamentos escritos para roubar o dinheiro das vítimas.


3. Cristãos (64)

A perseguição aos cristãos começou com Nero após o grande incêndio que muitos apontaram ter sido causado pelo próprio imperador, mas pelo qual ele acusou os cristãos. Ninguém gostava muito deles, pois se recusavam a participar das festas públicas aos deuses. Boatos já circulavam e continuariam a circular até 313, quando Constantino liberou a religião. Diziam que os cristãos eram canibais, por um entendimento literal da eucaristia – comer a “carne de Cristo”. E também incestuosos, pelo seu hábito de chamar uns aos outros de “irmãos”.



4. Judeus (1348)  

Quando a Peste Negra matou até um em cada três europeus – em algumas cidades, até 80% – os judeus não foram ou ao menos não pareceram a seus vizinhos terem sido atingidos na mesma medida. O resultado foi uma sequência de massacres, em que os judeus eram acusados de causar a peste. Isso se unia a uma longa lista de libelos de sangue – acusações alucinadas como as de que os matzos, os biscoitos rituais, eram feitos de sangue e que judeus praticavam sacrifícios humanos. Se sumia uma criança, era um massacre.


5. Bruxas (1626)

Os julgamentos de Bamberg, começando em 1626, durando cinco anos e terminando em mais de mil execuções, são apenas os maiores de um pânico que durou muitos séculos e ceifou dezenas de milhares. E que atingiu seu auge após a Renascença. A criação da imprensa permitiu a circulação do livro Malleus Maleficarum, de 1487, um manual sobre bruxas que criou uma histeria que duraria até a época do Iluminismo. A Reforma Protestante abraçou a perseguição com o mesmo entusiasmo da Inquisição católica.

6. Masturbação (1878) 


Este só matou a diversão das pessoas, mas merece uma menção honrosa. A data é a da invenção do cereal matinal pelo médico John Harvey Kellogg. Ele achava que alimentos gostosos atiçavam o espírito e causavam a masturbação. Um terrível mal que podia levar ao reumatismo, impotência e demência. Os corn flakes eram uma tentativa de deixar o café da manhã mais sem graça e salvar as pessoas. A “crise” de saúde pública havia começado com o livro L’Onanism, do suíço Samuel-Auguste Tissot, que dizia que perder 1 onça (31,1g) de sêmen equivalia a perder 40 (1240 g) de sangue – hemorragia grave.


7. Comunistas (1950) 


Joseph McCarthy era só um desconhecido senador por Wisconsin, eleito como “herói de guerra” após mentir muito sobre sua carreira na Aeronáutica. Até 6 de fevereiro de 1950, quando proferiu um discurso no Clube das Mulheres Republicanas dizendo que tinha uma lista com 205 comunistas trabalhando no Departamento de Estado dos EUA. Pelos próximos quatro anos, suas revelações e discursos – não só acusando de comunismo como de relações homossexuais – destruiriam centenas de carreiras, levando um senador ao suicídio. Até todo mundo se cansar e ele cair no ostracismo.

8. Rituais Satânicos (1980)

Começou com o livro Michelle Remembers (“Michelle se Lembra”), do psiquiatra canadense Lawrence Pazder. Descrevia o tratamento da personagem homônima, sua paciente e depois esposa, que teria sofrido de abuso satânico por sua mãe nos anos 1950. Uma fraude, mas a coisa ficou séria e várias condenações judiciais, pelo que hoje se acredita ser pura lenda urbana, aconteceram pelo mundo todo. Inclusive no Brasil: por aqui, a família Abbage, de Guaratuba, ficou de 1992 até o ano passado passando por prisões e processos na Justiça pelo assassinato de um garoto até serem absolvidos.

9. Antivacinação (1998) 

Daria para escrever toda outra matéria apenas sobre os pânicos da internet, como as pulseiras do sexo ou o jogo da baleia azul. Fiquemos com o mais danoso deles. Andrew Wakefiled, um gastroenterologista britânico, publicou um artigo no jornal The Lancet sobre o tratamento de 12 crianças com autismo, afirmando que os sintomas começaram após receberem a vacina tríplice. Desde então, Wakefield foi exposto como um charlatão pago por um grupo que queria processar a indústria farmacêutica, o Lancet retirou seu artigo e ele perdeu a licença médica. Mas a internet está aí para criar bolhas e continuar a espalhar o que foi descrito como “o boato médico mais danoso dos últimos 100 anos”. Desde Wakefield, doenças erradicadas localmente voltaram a acometer crianças nas cidades.

Fotos: Wikimedia Commons

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