O cachorro que era santo... e o santo que era cachorro

A insólita história de São Guinefort e São Cristóvão

Fabio Marton

São Guinefort, o único | <i>Crédito: Reprodução
São Guinefort, o único | Crédito: Reprodução

Nenhum servo era mais dedicado que Guinefort – ou, ao menos, nenhum devia ter o mesmo entusiasmo em receber seu senhor, um cavaleiro com um confortável castelo perto de Lyon, França. Até o dia em que seu senhor saiu para uma caçada, deixando seu filho bebê a seus cuidados. Ao voltar, deparou-se com o caos, o berço revirado, roupas espalhadas e o bebê sumido. Horror dos horrores, Guinefort tinha sangue em sua boca.

Em fúria, o cavaleiro o passou pela espada. Apenas para ouvir então o choro da criança, encontrada em meio à confusão, com uma víbora morta ao seu lado. O sangue era da cobra, não da criança e, petrificado, ouviu o último ganido de seu fiel servo, que havia dado cabo da ameaça, salvando sua progenitura.

Diante de um brutal remorso, o cavaleiro fez um santuário para Guinefort, deitando seu corpo a um poço, cobrindo com terra e plantando um bosque em volta. Esse santuário é real: seria visitado por fiéis, pedindo favores ao santo, até os anos 1930, quando finalmente a Igreja Católica fez fazer sua vontade para que fosse destruído. Para eles, era um sacrilégio venerar Guinefort.

Porque, se não ficou claro ainda, Guinefort era um cachorro. Um galgo. E não estava sozinho: no País de Gales, basicamente a mesma história era contada para São Gelert, com um lobo no lugar da víbora. Parece ter sido um plágio criado por um taverneiro espertinho, que plantou uma lápide do “santo” perto de seu negócio. O nome Gelert veio de um santo real humano, que havia sido esquecido. 

Há ainda um santo num terreno cinzento entre o homem e seu melhor amigo: o mártir São Cristóvão. Talvez você o conheça pela imagem de um gigante atravessando o menino Jesus por um Rio. No catolicismo, ele é retratado como um homem comum, mas, no cristianismo ortodoxo, ele pode aparecer com a cabeça de um cachorro.

A bizarrice vem de uma confusão com sua região de origem. Cristóvão teria vivido em Canaã, a região da Judeia e imediações. Ao contar a sua história, alguém confundiu o termo latino cananeus ("canaanita") com canineus ("canino"). 

A maluquice foi aceita porque uma das lendas mais conhecidas da Idade Média falava dos cinocéfalos, um povo com cabeça de cachorro. A tribo onde nasceu Cristóvão, os marmaritas, seria inteira composta de cinocéfalos. Ratramno, um teólogo do século 9, chegou a escrever um tratado questionando se eles tinham alma. Caso tivessem, era obrigação do cristão tentar convertê-los.


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