O tupi que o índio não falava

Muitas palavras em 'tupi' no português foram inventadas por escritores e linguistas

O cacique tupinambá Cunhambebe lutou contra os portugueses e seus aliados tupiniquins, que acabariam se integrando completamente, salvo um pequeno grupo. | <i>Crédito: André Thevet
O cacique tupinambá Cunhambebe lutou contra os portugueses e seus aliados tupiniquins, que acabariam se integrando completamente, salvo um pequeno grupo. | Crédito: André Thevet

Muitas expressões para descrever locais, plantas e animais do Brasil são indígenas e não há mistério nisso: quando os portugueses não tinham palavra para descrever algo, usavam a do índio. Tucano e jacaré, por exemplo, são grafias aportuguesadas do tupi tukana e îakaré. Também adotaram o apelido com que os índios os batizaram, como no caso de kari'oka (carioca, "casa de branco").

Até a independência, o Brasil foi um país mais índio que português. No interior (incluindo a cidade de São Paulo), falava-se a língua-geral, uma versão do tupi, usada por bandeirantes e tropeiros. E esses falantes de tupi que não eram índios continuaram a dar nomes aos lugares: Curitiba foi batizada em língua geral. Kuri'i é "pinheiro" em guarani, e tiwa significa "muitos" em tupi.

Em 1757, o marquês de Pombal tornou o português obrigatório no Brasil. A lei colou nas capitais, mas pouco afetou as populações do interior. Só com a chegada dos imigrantes europeus, no século 19, o português se tornou a língua oficial e os caipiras abandonaram a língua-geral (caipira vem de ka'apir, "cortador de mato", origem de carpir).

Autores do romantismo, como José de Alencar, escreveram romances idealizando os índios em busca da identidade brasileira. Nomes como Iracema ("doce como mel") e Ubirajara ("senhor do mato") são criações de Alencar, e não nomes indígenas de verdade.

O tupi de dicionário continuou pelo século 20. Novas cidades ganhavam nome para ter um tom mais "nativo". "Engenheiros fundavam um lugar e ligavam para a USP, consultando os professores de tupi", diz Eduardo Navarro, da USP. Votuporanga ("bons ares", fundada em 1937) e Umuarama ("lugar de fazer amigos", de 1955) nunca foram chamadas assim pelos índios. Nhenhenhém? Não. A expressão vem do tupi. Significa "fala, fala, fala".


Um tupi na vizinhança

Moema
Mentira. Vem do livro Caramuru, de Santa Rita Durão (1781).

Tijuca
Rio podre, brejo, pântano.

Ibirapuera
Lugar que foi uma vez uma floresta.

Morumbi
Mosca verde, varejeira.

Jaguaré
Casa da onça.

Pirapora
Pulo do peixe.

Itabuna
Pedra chata e preta, ferro.

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Revista Aventuras na História