Os Estados Unidos criaram Osama Bin Laden?

Todo mundo tem a resposta (errada) na ponta da língua

Eduardo Cosomano

Bin Laden em 2001, durante sua famosa transmissão da caverna | <i>Crédito: Reprodução
Bin Laden em 2001, durante sua famosa transmissão da caverna | Crédito: Reprodução

Com o 16º aniversário do 11 de setembro, é uma boa hora de abordar as teorias da conspiração ligadas ao maior atentado terrorista da História, um evento que, possivelmente, historiadores no futuro usarão para definir o começo de uma era – a atual, infelizmente.

Vamos deixar de lado as teorias bombásticas que falam do governo americano ou de israelenses causando o atentado. Essas são do domínio da realidade alternativa, com incas alienígenas e a terra plana. Vamos falar de uma em que todo mundo acredita, a ponto de nem pensar nela como teoria da conspiração. Citada por fontes sérias sem confirmar, como se fosse sólida como o fato de Hitler ser nazista. Que Osama bin Laden é uma cria da CIA.

Pois é, é uma teoria da conspiração, não um fato histórico. Se havia uma coisa no mundo com que a CIA e Bin Laden pudessem concordar é que nunca trabalharam juntos. Não há qualquer documento ou afirmação da época que indique isso. Analistas de inteligência independentes, como Peter Bergen e Steve Coll, bem que tentaram, mas não acharam – e seria um baita impulso para suas carreiras se achassem. Nunca “vazou” nada nesse sentido.

A acusação se refere à Guerra do Afeganistão (1979-1989). No conflito entre radicais islâmicos, os mujahidins, e invasores soviéticos que tentavam defender um governo socialista, a CIA apoiou os primeiros – massivamente, com um orçamento que chegou a US$ 630 milhões em 1987. E Osama, que organizou um grupo de voluntários árabes, tentou fazer o mesmo, tentando “guiar” os afegãos para uma sociedade teocrática após a vitória.

Ronald Reagan com os "guerreiros da liberdade" afegãos

O terrorista árabe sempre foi visceralmente antiocidental. Em 1989, o repórter John Simpson, da BBC, topou com ele por acaso – Osama tentou subornar seu motorista afegão para assassiná-lo. Não quer dizer, porém, que Osama não tenha se beneficiado indiretamente da mão aberta do Tio Sam. Ele fez amigos no Afeganistão. Os líderes mujahidins Jalaluddin Haqqani e Gulbuddin Hekmatyar eram os dois maiores beneficiários das mesadas da CIA. Ambos eram amigos pessoais de Osama. Haqqani inclusive ajudou-o a escapar do Afeganistão em 2001, e ainda hoje comanda um grupo insurgente contra o governo afegão instalado pelos EUA. É bem provável que sem esses amigos – e seus bolsos recheados pelo governo americano – ele não tivesse se tornado quem se tornou.

+ O 11 de setembro, minuto a minuto 

Osama também foi financiado diretamente por dinheiro dos EUA. Só não do governo. Em 1984, ele e o palestino Abdullah Azzam criaram a Maktab al-Khidamat (“Direção de Serviços Afegãos”), uma ONG para patrocinar suas ações no Afeganistão. Azzam abriu escritórios em 33 cidades americanas, após fazer um tour pelo país, incluindo passagem por Nova York, Los Angeles, Kansas City e San Diego. A ONG que seria o germe da Al-Qaeda mudaria de nome ao longo dos anos, mas suas últimas fachadas só foram fechadas a partir de 2001.


Quando a CIA patrocinou terroristas 

Além dos senhores da guerra que não são Bin Laden, os EUA definitivamente patrocinaram terroristas. Em alguns casos, de forma ainda hoje nebulosa, como o apoio aos neofascistas italianos que enfrentaram os comunistas nos anos 1960 e 1980 e explodiram uma bomba numa praça em Milão em 1969, matando 17. O governo da Itália tem certeza, mas a CIA nunca admitiu. Outras ações terroristas, porém, estão amplamente provadas. O cubano Luiz Posadas Carriles foi treinado pela agência e passou décadas organizando atentados em Cuba. Em 1976, chegou a derrubar um avião civil, eliminando 76 civis. Seu parceiro Orlando Bosch chegou a participar da Operação Condor, série de assassinatos políticos na América do Sul. E há o famoso escândalo Irã-Contras. Quando a CIA vendeu armas ao Irã para financiar os Contras, grupo antigoverno da Nicarágua que recorria ao terrorismo.



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