Sexo, sucrilhos e filosofia: Uma breve história do vegetarianismo

Como e por que gente tão diferente quanto Gandhi, Hitler e o puritano inventor do cereal matinal defenderam a ideia de abandonar a carne

Érica Georgino e Fábio Marton

O quadro Vertumnus, do renascentista Arcimboldo, representa a bonança da natureza na figura do imperador Rodolfo II | <i>Crédito: Wikimedia Commons
O quadro Vertumnus, do renascentista Arcimboldo, representa a bonança da natureza na figura do imperador Rodolfo II | Crédito: Wikimedia Commons

No princípio, não havia veganismo - nem carnivorismo. Nascemos onívoros, consumindo mais vegetais do que os defensores de certas versões das dietas "paleo" acreditam. Ninguém podia se dar ao luxo de dispensar calorias no Paleolítico, quando vivíamos das mãos (e lanças) para a boca. 

Veio então o Neolítico, com a criação da agricultura, por volta de 12,5 mil anos atrás. Plantas e animais, agora domesticados, tornaram-se abundantes o suficiente para a caça e coleta se tornarem opcionais. 

E isso permitiu ao ser humano optar e refletir sobre os alimentos que leva à boca. O vegetarismo apareceu nessa trajetória, inicialmente relacionado à questões religiosas. No primeiro milênio antes de Cristo, era visto, na região do Mediterrâneo e na Índia, como uma atitude de benevolência em relação aos outros animais, a recusa da violência. A prática era um dos ensinamentos do matemático e místico grego Pitágoras - que, por questões religiosas, também abominava as favas, símbolos dos deuses. 

Mais tarde, o hábito se tornou mais uma questão de necessidade que escolha. Na Idade Média, a carne era símbolo de status. "Só a pobreza compelia as pessoas a trocar essa comida pelos vegetais", diz Carlos Roberto Antunes dos Santos, que pesquisa a História da alimentação na Universidade Federal do Paraná. 

Puritanos e científicos

Nos séculos seguintes, o movimento ressurgiria associado a questão humanitárias e, no século 19, ás preocupações nutricionais - e, sim, religião. O médico John Harvey Kellog era um devoto adventista do sétimo dia. Os adventistas costumam relacionar a dieta vegetariana ao que comíamos no Jardim do Éden, quando ainda, em sua interpretação do Gênesis, não existiam predadores. Lembram também que o corpo, segundo a Bíblia, é o templo do espírito, e maltratá-lo é um pecado. 

Kellog em particular estava preocupado com outro pecado: ele achava que carne (e qualquer alimento interessante, como o café e temperos) incentivava o desejo sexual, levando ao pecado mortal da masturbação, que, por sua vez, causava mais doenças. E ele era tão anti-sexo que nunca consumou seu casamento com a esposa. Assim, ele criou o cereal matinal, uma coisa que julgava sem graça, que não acenderia a fogueira de ninguém, condenando-o ao fogo eterno. Seu irmão, Keith Kellog, transformou isso numa indústria - e entrou em guerra com o médico, porque adicionou o açúcar ao cereal (o açúcar interessante incentivando a amaldiçoada masturbação).

Adventistas ajudaram muito a causa do vegetarianismo. Muita gente que não concordava com seus motivos bíblicos juntou-se a eles. Grandes figuras públicas, como o escritor George Bernard Shaw e o herói da independência da Índia Mohandas Gandhi, defenderam o vegetarianismo. E, não dá para deixar de mencionar, Adolf Hitler que, segundo os relatos dos que conviveram com ele, o fazia por uma questão de bem-estar animal. Irônico, para dizer o mínimo - alguém devia ter avisado a ele que o ser humano também é um animal.

O vegetarianismo ganhou um grande impulso ons anos 1960 e 70, quando surgiu o movimento hippie, com seu pacifismo, amor pela natureza e admiração pelas religiões hindu e budista, que têm vertentes que pregam a abstenção total de carne. A partir dos 80, à religiosidade, preocupações com saúde e direito dos animais se uniu a preocupação ambiental, a questão da pecuária produzir gases-estufa. 

A questão ainda move guerras virtuais, e longe de nós aqui discutir os méritos de cada lado - somos uma revista de História, não Filosofia. Seja como for, a indústria alimentícia cada dia mais se dedica ao novo público. Não só na prateleiras dos mercados, como nos restaurantes, surgiram opções vegetarianas e veganas. "No momento em que o ocidente percebe que há um mercado consumidor, a culinária vegetariana se desenvolve e se adapta ao gosto do lado de cá do globo", diz o nutricionista George Guimarães.


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