Voraz lactívoro, Fidel Castro criou a supervaca

Ubre Blanca produziu 109 litros num dia e ainda está no Guinness

Fabio Marton

Os amores de Fidel | <i>Crédito: Marília Filgueiras
Os amores de Fidel | Crédito: Marília Filgueiras

Algumas obsessões d’El Jefe Máximo são bem conhecidas: revolução, charutos, esportes, roupas Adidas, amantes e discursos de quatro horas denunciando o imperialismo yankee.

Mas uma é menos falada: leite. Castro era um prodigioso “lactívoro”– em certa ocasião, registrada pelo colombiano Gabriel García Márquez, ele teria terminado um almoço com 18 bolas de sorvete. No início da Revolução Cubana, o ditador chegou a dizer que seu país ainda teria mais sabores de sorvete que os EUA. Também em certa ocasião comentou, para horror de um embaixador francês, que Cuba faria melhores queijos que os de seu país. E que o país produziria tanto leite que poderia encher a Baía de Havana. A CIA, em um de seus muitos e frequentemente hilários planos de executá-lo, cogitou envenenar seu milk-shake.

Mas havia um entrave na utopia láctea cubana: o clima tropical do país não favorecia gado leiteiro. O que se criava em Cuba era gado do tipo indiano, zebuíno, que produz muita carne, mas pouco leite. Raças europeias não se adaptavam ao clima. 

Fidel anunciou então um programa simples: os zebus cubanos seriam cruzados com a raça leiteira holandesa Holstein. Pelos cálculos do próprio comandante, em seu anúncio de 1966, se uma vaca zebu produzia 1,5 litro de leite, a híbrida poderia chegar a 10.

Em 1972, nasceria a maior estrela da Via Láctea cubana: Ubre Blanca (“úbere branco”). Ela entraria no Livro Guinness dos Recordes, onde permanece ainda hoje*, ao produzir 109,5 litros de leite em junho de 1982. Blanca foi tratada como patrimônio nacional. Fidel conduzia dignitários estrangeiros a conhecerem o prodígio da tecnologia socialista, mostrando a eles o inflado úbere que a batizava. Seu estábulo era climatizado, vigiado por guardas armados. Música calmante saía dos alto-falantes e tratadores estavam junto a ela 24 horas por dia. Até mesmo sua ração era testada por outros animais para evitar sabotagens imperialistas.

A tragédia que atingiria o sonho cubano seria engendrada pela natureza, não a CIA (até onde se sabe...). Blanca desenvolveu um câncer, possivelmente pelo estresse da excessiva produtividade. Após sua terceira cria, teve que sofrer eutanásia. Um obituário foi publicado no Granma, o jornal principal do país, lamentando sua passagem.

Como Ubre Blanca foi possível, bem que os cubanos gostariam de saber. A genética pode ser caprichosa: nenhuma outra vaca do programa chegou nem perto. Óvulos e mais material genético foram congelados e, em 2002, ainda sob Fidel, foi anunciado um programa para tentar cloná-la – os cientistas chegaram até mesmo a falar em Jurassic Park como inspiração. Fidel devia estar empolgado: um dos cientistas envolvidos no projeto, Andres Molina Valdes, fugiu para os EUA dizendo que uma vaca só não resolveria os problemas de Cuba e estava exasperado com a politização da pesquisa. Ubre Blanca 2 ficaria para a ficção científica. Dada a inspiração em Jurassic Park – numa ilha, nada menos –, quem sabe seja melhor assim.


* Nota: Um leitor apontou que o recorde foi quebrado em 2014 por uma vaca brasileira, que conseguiu 115 litros - o que foi noticiado pela imprensa brasileira, mas, até onde foi possível apurar, não foi registrado e/ou reconhecido pelo Guinness. 


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