Árabes x Israelenses: sangue do meu sangue

Eles são geneticamente irmãos e conviveram por paz por séculos. Conheça sua história em comum.

José Francisco Botelho

Tão perto, tão longe | <i>Crédito: Shutterstock
Tão perto, tão longe | Crédito: Shutterstock

Por volta de 1850 a.C., um velho mercador da cidade de Ur, na Mesopotâmia (atual Iraque), recebeu um chamado de Deus. O Senhor ordenou-lhe que juntasse todos os seus pertences, abandonasse seu país natal e partisse em busca de um novo lar, rumo ao oeste: a terra de Canaã. Lá o mercador devia estabelecer sua descendência e dedicar-se ao culto de seu benfeitor, Jeová, o Deus único – uma novidade naqueles tempos politeístas. E lá se foi Abraão, com seu séqüito de parentes, escravos e concubinas.

Ao longo da jornada, o favorito divino teve dois filhos. O mais velho, nascido de sua serva Agar, foi batizado de Ismael. O segundo, filho de Sara, esposa legítima do patriarca, recebeu o nome de Isaac. O país prometido aos descendentes de Abraão era uma terra de desertos e oliveiras, banhada pelas águas do rio Jordão. Ficou conhecida ao longo dos séculos como a Terra Santa – paisagem dos grandes dramas da Bíblia, adorada pelas três maiores religiões do planeta e, hoje, palco do conflito mais importante de nosso tempo. Segundo a lenda, os tataranetos de Abraão deram origem a dois povos de aparência, língua e cultura muito parecidas, mas que agora se entrincheiram em lados opostos no front da política internacional: árabes e judeus.

A grande dúvida

Quatro mil anos após a época do mais famoso profeta da Bíblia, os historiadores ainda não sabem se ele realmente existiu. Essa história vem inteiramente de relatos religiosos. A Torá, livro sagrado judaico que corresponde ao Velho Testamento cristão, aponta Isaac como o antepassado dos judeus. O Alcorão, por sua vez, remonta a genealogia dos árabes até Ismael, o primogênito de Abraão. Todos esses personagens talvez não passem de mitos. Mas o estreito parentesco entre árabes e judeus é consenso científico. Em 2000, cientistas europeus, israelenses e africanos coletaram os cromossomos de 1,3 mil homens de ambas as etnias, em mais de 30 países ao redor do mundo. A conclusão dos estudos é que os DNAs árabe e judeu são idênticos. As duas nações descendem de uma mesma tribo, que viveu em algum lugar do Oriente Médio por volta de 4000 a.C. – muito antes de Abraão. Israelenses, palestinos, sírios, egípcios e libaneses não são apenas primos. São irmãos genéticos.

Explosões de ódio e violência entre povos irmãos não é novidade alguma na história. Pelo contrário – é quase um padrão. Ingleses, franceses, alemães e italianos, todos descendentes dos antigos germânicos, passaram séculos massacrando uns aos outros e atravessaram duas guerras homéricas antes de alcançarem uma paz duradoura. Durante muito tempo, árabes e judeus desfrutaram de uma convivência criativa, que deu origem a pérolas de arte, tolerância e filosofia.

A briga começou para valer no início do século 20, tendo como pomo da discórdia a mesma terra celebrada nos tomos da Bíblia e nos versos do Alcorão – a antiga Canaã, que hoje corresponde a Israel, os territórios palestinos e partes do Líbano. A luta pela supremacia na Terra Santa estourou com a criação do Estado de Israel, em 1948, e foi uma das peças mais importantes nas disputas estratégicas entre Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria. Hoje, mais de dez anos após a queda do Muro de Berlim, a briga ainda não acabou – ao contrário, ela define grande parte do quebra-cabeça geopolítico de nosso tempo.

Ao longo dos últimos 60 anos, árabes e israelenses atacaram-se com fúria, retaliaram com impiedade, apostaram alto, perderam muito e mancharam de sangue a Terra Santa. Ambos têm sua parcela de razão e erro. E estão distantes da paz.

Do rei Davi ao sultão Omar

Por volta do ano 2000 a.C., a Terra Santa era habitada por diversas tribos aparentadas, que lutavam entre si pela posse de fontes de água e pasto para animais: amoritas, canaanitas, jebulitas, hebreus. Os últimos levaram a melhor: em 1030 a.C., unificaram a região, criando os poderosos reinos de Judá e Israel. Sob a égide do mitológico rei Davi, Jerusalém virou a capital dos judeus e tornou-se uma das maiores cidades da época. No século 1 a.C., a região – conhecida como Judéia – caiu sob o domínio de Roma.

Cerca de 130 anos após o nascimento de Cristo, uma insurreição de nacionalistas hebreus tentou quebrar o jugo romano. A reação do Império foi radical: os judeus foram deportados em massa e proibidos de colocar os pés na Terra Santa. No evento conhecido como Diáspora, milhares de judeus espalharam-se pelo mundo. Eles se estabeleceram na Europa, em outras regiões do Oriente Médio e até na China.

Após a queda do Império Romano, a antiga Judéia foi conquistada pelo Islã. Saídos dos desertos da Península Arábica (pedaço da Ásia cercado pelo Mar Vermelho e pelo Golfo Pérsico), os árabes espalharam-se pelo Oriente Médio na Antiguidade, como guerreiros e comerciantes. Mas foi só no século 6, com a fundação da religião islâmica pelo profeta Muhammad (ou Maomé, como é chamado no Ocidente), que os árabes transformaram-se em uma potência militar e política. Exércitos muçulmanos unificaram o Oriente Médio a partir do século 7, criando um império gigantesco que se estendia das fronteiras da Índia até a Espanha.

O califa árabe Omar, sucessor de Maomé, ocupou Jerusalém em 680, sem derramamento de sangue, e permitiu que famílias judias voltassem a habitar a cidade. Os árabes deram o nome de Jund Filistin à região que fica entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo – o que hoje equivale mais ou menos a Israel, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. Durante a Idade Média, os judeus da Terra Santa viveram sob governo muçulmano. O convívio foi marcado por alguns surtos de perseguição e longos períodos de convivência pacífica.

A partir do século 13, o poder do Império Árabe decaiu. Pouco a pouco, os árabes e judeus do Oriente Médio foram subjugados por outro povo muçulmano: os turcos. No século 15, a região foi unificada sob o Império Turco Otomano, com capital em Istambul (atual Turquia), que dominou a antiga Terra Santa até o final da Primeira Guerra Mundial.

Um novo país

Os atuais conflitos no Oriente Médio são em grande parte conseqüência de um terremoto político e social que abalou o mundo no início do século 20: a queda do Império Turco Otomano. Na época, esse estado imenso dominava uma bela fatia do Oriente Médio, o norte da África e o leste da Europa – incluindo as regiões que hoje formam a Síria, o Iraque, Israel e os territórios palestinos. Mas, na metade do século 19, o gigante turco já andava mal de saúde – tanto que os diplomatas europeus se referiam a ele como “o Homem Enfermo do Oriente”. Empobrecido, o Estado otomano entrou em colapso e, pouco a pouco, foi perdendo território para as potências européias. A partilha culminou em 1919, logo após a Primeira Guerra Mundial. Os turcos aliaram-se ao lado perdedor – o Eixo formado pela Alemanha e pelo Império Austro-Húngaro – e perderam a maior parte de suas posses. Assim, o Líbano e a Síria viraram “protetorados” franceses. Já a Palestina, que havia sido província dos otomanos durante 600 anos, ficou sob administração inglesa.

Ainda durante a guerra, os britânicos declararam seu apoio a uma ideia a qual ainda hoje não faltam opositores: o sionismo. Em 1896, o judeu alemão Theodor Herzl lançou o livro O Estado Judeu, propondo a colonização de algum território do mundo - não necessariamente a Palestina - pelos judeus. A imigração começou imediatamente, primeiro para perto da cidade portuária de Jaffa. Lá surgiria a cidade de Tel Aviv. Em 1917, ainda durante a guerra, os britânicos lançaram a Declaração de Balfour, dando apoio a um estado judeu na região. Com o território passando a suas mãos após a vitória, a imigração se intensificou. E novamente com a ascensão do nazismo, em 1933. 

Os árabes não ficaram felizes. Em 1920, 1921 e 1929, revoltas eclodiram, nas quais tanto árabes quanto judeus pereceram. Mas, após a Segunda Guerra, a revelação do Holocausto fez a opinião mundial pender a favor da criação de um Estado para os judeus. Em 29 de novembro de 1947, a Organização das Nações Unidas aprovou a resolução 181, para a criação de dois Estados separados na região, um para os judeus, outro para os árabes. 

Imediatamente, todos os países vizinhos declararam guerra aos judeus - que venceu, dominando um território contínuo bem maior o que da proposta. E que se expandiria ainda mais em 1967, na Guerra dos Seis Dias, quando a Faixa de Gaza foi tomada do Egito e a Cisjordânia, da Jordânia.  

A Organização para a Libertação da Palestina declarou a independência em 1988 - que foi reconhecida por Israel em 1993, rendendo um Prêmio Nobel da paz em conjunto para o palestino Yasser Arafat e os israelenses Ytzhak Rabin e Shimon Peres. Acreditava-se então que a querela estava prestes a terminar. 

Doce ilusão. Mas essa fase do conflito é tema para outra matéria.


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