Cannabis na guerra

Quando o governo americano incentivou o cultivo da planta ilegal

Otavio Cohen

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. | Crédito: Bruno Algarve

Na sociedade ocidental, a luta contra as drogas não é novidade. Durante a década de 1930, a maconha, por exemplo, era considerada pelas autoridades uma grande inimiga da juventude. Para o pessoal mais conservador da época – que era a maior parte da sociedade –, fumar um baseado significava assinar uma sentença de morte. Quando a Segunda Guerra Mundial chegou, porém, a erva se transformou em uma grande aliada das Forças Armadas norte-americanas, e o cultivo de Cannabis, gênero da planta que serve de base para a maconha, saiu da ilegalidade por um breve período.

Tudo começou em 1942, quando qualquer ajuda ao esforço de guerra era bem-vinda. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos deu uma missão aos fazendeiros do país: plantar Cannabis. A erva seria bastante útil no front. Mas não do jeito que você pode estar pensando. Oficialmente, ninguém colocaria um baseado na boca durante o conflito. Pois a fibra de cânhamo, derivada de uma das plantas do gênero, era usada na fabricação de cordas e mangueiras usadas por bombeiros. A Cannabis também era matéria-prima das solas de sapatos de soldados e dos paraquedas usados pelas tropas.

Até a entrada dos Estados Unidos no conflito, quem fornecia essa matéria-prima para o país era o Japão. Agora, (...) o país precisava se virar sozinho. Foi por isso que o presidente Roosevelt deu sinal verde ao cultivo de Cannabis. Ele mandou fazer uma campanha para ensinar os fazendeiros a cultivar a erva (...). Essas instruções vieram na forma de um vídeo chamado Hemp for Victory, algo como “Cannabis pela vitória”.

Em 15 minutos, o vídeo tenta convencer os fazendeiros dos benefícios do plantio de Cannabis, sempre destacando como a planta contribuiria para o sucesso dos Estados Unidos na guerra. (...) Além do vídeo, o governo deu outro empurrãozinho para os fazendeiros: se plantassem Cannabis, eles e todos os membros de suas famílias não precisariam jamais se preocupar em ir para o campo de batalha.

O governo também fez um acordo com as empresas que vendiam máquinas próprias para o cultivo da planta. Desse jeito, plantar Cannabis ficava mais fácil e barato do que lidar com qualquer outro produto agrícola.

Roosevelt não era burro. Ele sabia que o aumento da plantação nacional de Cannabis poderia muito bem significar o aumento do uso da droga pela sociedade. A intenção era aumentar em mais de 140 hectares o cultivo no país, e um bocado de jovens fumando baseados era um preço baixo a se pagar pela estabilização da economia dos país. O plano deu certo. E o efeito colateral também.



Trecho extraído do livro História Bizarra da Segunda Guerra Mundial, Otavio Cohen, Editora Planeta

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