Vendeia: A antirrevolução Francesa

Movimento monarquista terminou em massacre

José Francisco Botelho

Guerra da Vendeia | <i>Crédito: Wikipedia
Guerra da Vendeia | Crédito: Wikipedia

Nos primeiros meses de 1793, quatro anos após o início da Revolução Francesa, a região da Vendeia, no oeste do país, encontrava-se em estado de alerta. Por todos os lados, circulava a notícia de que o governo da República (estabelecida após a queda da monarquia, em 1792) acabava de ordenar o recrutamento de 300 mil homens. Em cada cidade e aldeia, os combatentes seriam sorteados entre os solteiros de 16 a 40 anos – e os recrutadores teriam a ajuda da Guarda Nacional para garantir que suas ordens fossem cumpridas. O motivo para essas medidas era bem claro: a França estava sendo atacada por uma poderosa coalizão de países europeus, que pretendiam, entre outras coisas, derrubar a República e restabelecer a monarquia no país. Essas razões, no entanto, pouco importavam para os artesãos e camponeses da Vendeia. Gente simples, trabalhadora e profundamente religiosa, os vendeanos sabiam que quem partisse para aquela guerra tinha pouquíssimas chances de voltar com vida. Murmúrios de descontentamento espalharam-se como um incêndio, tomando conta dos bosques, fazendas e vilarejos da província. Em 10 de março de 1793, dia marcado para o recrutamento, a insatisfação se transformou em violência. Com foices, facas e porretes, 3 mil camponeses reuniram-se ao toque dos sinos, invadiram as vilas de Machecoul e Saint-Florent-le-Viel e massacraram centenas de soldados republicanos. Em menos de uma semana a insurreição se espalhou por quase toda a província e várias regiões vizinhas, como Maine-et-Loire e Deux-Sèvres. Agora, não havia como voltar atrás: a Vendeia tornara-se o inimigo número um dos partidários da Revolução. O que começara como um levante de camponeses descontentes em breve se transformaria na mais sangrenta guerra civil que a França já vira.

Até hoje, a revolta da Vendeia permanece um dos episódios mais obscuros e polêmicos da Revolução. Afinal de contas, como se explica um levante popular tão vasto e violento contra uma Revolução que acabou com as instituições feudais e extinguiu os privilégios da nobreza? Durante mais de um século, os defensores do governo revolucionário torceram o nariz diante desse dilema. A opinião do escritor Jules Michelet, autor de História da Revolução Francesa, é um bom exemplo desse desconforto: para ele, a revolta da Vendeia não passou de “um monstruoso mal-entendido, um incrível fenômeno de ingratidão, absurdidade e injustiça”.

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Napoleão e a Vendeia
 Camponeses nunca foram com a cara do ditador

Nascido na Córsega – que na época pertencia à França –, Napoleão Bonaparte iniciou sua carreira militar durante a Revolução. Graças às suas vitórias contra os inimigos estrangeiros, foi transformado em herói popular e tornou-se cônsul vitalício. Em 1804, fez-se coroar imperador, passando a governar a França com poderes ditatoriais. Quinze anos depois do início da Revolução, a França voltava a ter um governante absoluto. Embora tenha assinado um tratado de paz com os vendeanos em 1800, Bonaparte nunca foi completamente aceito pelos habitantes da província – que não gostavam de ver no trono da França um antigo colaborador da República. Em 1815, ao mesmo tempo em que o Imperador era atacado por um exército de ingleses, austríacos e prussianos, a Vendeia voltou a pegar em armas. Essa seria a última rebelião da província – e, como a primeira, acabaria em fracasso total. No entanto, suas consequências podem ter sido muito mais profundas do que se imagina. Obrigado a enfrentar, simultaneamente, os inimigos estrangeiros e os rebeldes vendeanos, Napoleão teve de dividir suas tropas. Ao mesmo tempo em que a insurreição na Vendeia era sufocada, Bonaparte sofria uma derrota definitiva em Waterloo, numa das batalhas mais famosas de todos os tempos. “Se as tropas enviadas para a Vendeia estivessem em Waterloo”, afirma o historiador Jean-Clément Martin, “O curso da História poderia ter sido outro”.


A verdade é que o recrutamento forçado serviu apenas como estopim da insurreição: as principais causas para o levante da “inexplicável Vendeia”, como foi apelidada pelos republicanos, eram muito mais profundas e complexas. Para os habitantes das zonas rurais, os primeiros meses da Revolução haviam representado a promessa de um mundo mais justo e de uma vida menos árdua. No entanto, as reformas de 1789 foram dominadas pela burguesia das grandes cidades – e quem mais lucrou com elas foram os proprietários e comerciantes urbanos. “A República não estava resolvendo os problemas imediatos da população rural. Pelo contrário, estava agravando-os”, diz a historiadora Beatriz Franzen, da Universidade do Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul. “Os impostos continuavam a subir e as pessoas continuavam passando fome. Por isso, os camponeses sentiam que a Revolução os havia deixado de lado.” Em 1790, o descontentamento político aliou-se à indignação religiosa. Com o intuito de diminuir a influência da Igreja Católica sobre a população, o governo decretou que todos os padres deveriam jurar fidelidade à Constituição da República. Aqueles que se recusassem seriam expulsos de suas paróquias e proibidos de rezar a missa. A medida foi condenada pelo papa Pio VI e o governo revolucionário passou a ser tachado de inimigo da religião. Para os camponeses da Vendeia, católicos fervorosos, essa foi a gota d’água. “Nas zonas rurais, a Igreja exercia um papel de assistência social”, diz Beatriz. “Quando o estado e a Igreja se desentenderam, o povo sentiu-se abandonado e desprotegido.” A tensão cresceu sem parar durante os dois anos seguintes, até estourar de uma vez por todas em março de 1793. Como fariam os seguidores de Antônio Conselheiro durante a Guerra de Canudos, quase um século depois, os rebeldes vendeanos estavam dispostos a matar e morrer em nome de Deus.

Cruzada no século 18

Para o governo da República – e para vários historiadores – a revolta da Vendeia representou uma cruzada da velha França, atrasada e reacionária, contra os valores dos novos tempos. Mas há quem discorde. “Embora se colocassem a favor do sistema monárquico, os camponeses não estavam simplesmente defendendo a velha ordem das coisas”, diz Alain Gérard, diretor do Centro Vendeano de Pesquisas Históricas. “Eles lutavam pelos mesmos valores que os revolucionários: igualdade, liberdade e fraternidade. O fato é que a Revolução havia se mostrado infiel a esses princípios, deixando de lado as aspirações da população rural e dando mostras de autoritarismo e brutalidade. Em vez de se manterem ao lado de uma revolução que os havia decepcionado, os camponeses resolveram lutar contra ela.”

Desorganizados, mal-armados e sem treinamento militar, os rebeldes foram buscar apoio entre as famílias nobres da província. Embora a rebelião tivesse estourado sob o comando de um plebeu, Jacques Cathelineau, as tropas logo passaram a ser encabeçadas por aristocratas com nomes pomposos como o marquês Charles de Bonchamps e o conde Henri de La Rochejaquelein. No duelo contra o detestado governo republicano, nobres e plebeus uniram-se sob a bandeira da monarquia deposta. Marchando com estandartes feitos de improviso, onde se liam as palavras “Pour Dieu et le Roi” (“Por Deus e pelo Rei”), o “grande exército católico e monarquista”, como tornou-se conhecido, acumulou uma série de vitórias: de março a setembro, cidades inteiras foram tomadas pela turba, que chegou a reunir 40 mil pessoas. No resto da França, espalhavam-se boatos arrepiantes sobre a ferocidade e a violência dos rebeldes.

República a perigo

Atacada por governos estrangeiros e dilacerada por lutas internas, a República Francesa corria o risco de se desmantelar. Em setembro, o partido extremista dos jacobinos, liderado por Robespierre, instaurou na França uma ditadura feroz, que punia sumariamente todos os acusados de deslealdade. Começava o período conhecido como “Terror”. Em Paris, a “navalha da República” (apelido dado à guilhotina) manchou ruas e praças com o sangue azul dos nobres. Em Nantes, homens, mulheres e crianças foram fuzilados ou afogados no rio Loire. Por todos os lados, o pau comeu. Foi nesse clima de intolerância que o governo revolucionário decidiu enfrentar a revolta na Vendeia.

“Destruam a Vendeia”, exclamou num enfurecido discurso diante da Convenção Nacional, o deputado republicano Bertrand Bariére de Vieuzac. Seu apelo foi levado ao pé da letra. “Em 1º de agosto de 1793, o governo decretou a aniquilação da Vendeia”, afirma o historiador François Furet, em seu Dicionário Crítico da Revolução Francesa. “A ordem era de incinerar florestas e casas, derrubar cercas, retirar os animais e transformar a região em um deserto.”

Em setembro de 1793, um novo exército republicano atacou com fúria a província rebelde. A Vendeia inteira mobilizou-se numa resistência desesperada: agora, o lema dos camponeses era “Vencer ou morrer”. No dia 17 de outubro, ao norte da cidade de Cholet, os vendeanos tentaram deter a marcha inimiga. Contavam, ainda, com grande superioridade numérica: havia em torno de 40 mil rebeldes contra 20 mil republicanos. Dessa vez, no entanto, o exército revolucionário tinha a liderança de Jean-Baptiste Kléber, um dos melhores generais franceses da época. Envolvidos pelos regimentos republicanos, os rebeldes debandaram em massa para o rio Loire, deixando atrás de si uma trilha de mortos. Algumas semanas depois, os sobreviventes foram encurralados na aldeia de Le Mans, do outro lado do Loire. Sob uma noite de tempestade, durante 14 horas seguidas, os dois exércitos enfrentaram-se em uma das batalhas mais medonhas da guerra. Cerca de 10 mil vendeanos morreram – e os que conseguiram escapar seriam destroçados pouco depois, perto da vila de Savonay. “O massacre foi indescritível”, escreveria o general Kléber em suas memórias. Para todos os efeitos, a revolta estava esmagada. 


Admirável mundo novo
 Em cinco anos, os franceses reinventaram a história

O ano é 1789. Estamos às vésperas da Revolução, e a França encontra-se à beira da bancarrota, devido ao gastos exagerados do governo e ao atraso do sistema social. Os aristocratas, cerca de 3% da população, contam com isenção de impostos e detêm a maior parte dos benefícios jurídicos. Os tributos recaem sobre a burguesia (plebeus enriquecidos) e sobre as massas trabalhadoras – cerca de 25 milhões de descontentes. A isso, somam-se as idéias dos pensadores do Iluminismo (como Voltaire, Rousseau e Montesquieu) que, na primeira metade do século, defenderam uma sociedade mais igualitária. Para contornar a crise financeira, sob pressão o rei Luís XVI convoca, em 1º de maio de 1789, os Estados Gerais – tipo de assembléia que reúne os nobres (o “Primeiro Estado”), o clero ( o “Segundo Estado”) e a plebe (o “Terceiro Estado”). A plebe burguesa exige não apenas a limitação dos poderes do rei, mas também o fim dos benefícios do clero e da nobreza. Percebendo que essas mudanças serão barradas, o Terceiro Estado funda a Assembléia Nacional. Boatos de que o rei pretende dissolver a Assembléia geram uma onda de violência, que culmina com a tomada da prisão da Bastilha. Nesse dia (14 de julho de 1789) começa oficialmente a Revolução Francesa. Sentindo o seu na reta, Luís XVI aceita dividir o governo com a Assembléia Nacional (que mais tarde será substituída pela Assembléia Constituinte, pela Assembléia Legislativa e, finalmente, pela Convenção Nacional). Uma das primeiras atitudes dos revolucionários é abolir os privilégios e proclamar a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, com princípios de liberdade, igualdade e fraternidade. Em 10 de agosto de 1792, a monarquia é abolida e a França torna-se uma República. Instigados pelo governo, os parisienses perseguem os supostos inimigos da Revolução. O ano seguinte será um dos mais agitados do período. Após a execução de Luís XVI na guilhotina, uma aliança de países europeus (Inglaterra, Áustria, Prússia e outros) ataca a França, para impedir que a Revolução se alastre. A época também é marcada pela ditadura do partido jacobino e pelas execuções do “Terror”. Depois da queda dos radicais, no golpe de 9 de Termidor (28 de julho de 1794), a França passa a ser governada pelo Diretório – composto por membros eleitos. Com a derrota da coligação estrangeira, a República estaria a salvo, embora a hostilidade entre a França e as monarquias europeias continuasse acesa. Momento propício para que um jovem e ambicioso oficial começasse a ganhar destaque no exército. Seu nome: Napoleão Bonaparte.


➽  No entanto, a sede de vingança dos radicais ainda não se aplacara. Tomando a liderança dos exércitos republicanos em janeiro de 1794, o general Louis-Marie Turreau dispôs-se a destruir completamente o que ainda restava da Vendeia. Para isso, dividiu suas tropas em 12 colunas (mais tarde chamadas de “colunas infernais”) e encarregou-as de percorrer a província de lado a lado, incendiando casas e bosques e massacrando quem reagisse. “Uma vez que o exército rebelde já não existia, os republicanos voltaram-se contra a população civil”, diz Gérard. Segundo o historiador, o que acontece em 1794 já não era uma guerra, mas um projeto de extermínio total. Uma carnificina pura e simples. “Velhos, mulheres e crianças foram trucidados sem julgamento, vilarejos arderam em chamas e nem mesmo os animais foram poupados. De acordo com François Furet, mais de 100 mil pessoas foram mortas. Para Jean Clément-Martin, o número total de mortos, incluindo os que tombaram nos combates regulares, estaria entre 250 e 300 mil – o que equivale a um terço dos habitantes da província.

No entanto, nem todos os republicanos aprovavam (ou sequer toleravam) tamanho derramamento de sangue. Em Paris, a maior parte dos revolucionários começava a se revoltar contra o terrorismo da ditadura jacobina, que já mandara executar cerca de 40 mil pessoas em toda a França – sem contar as vítimas na Vendeia. O Terror atingiu todas as classes sociais, sem exceção: cerca de 10% das vítimas pertenciam à nobreza, 6% ao clero, 15% à classe média – mas a grande maioria dos condenados era de camponeses ou operários urbanos. Em 28 de julho, o reinado sangrento de Robespierre foi interrompido por um golpe de estado e o grande líder do Terror teve o mesmo destino que muitas de suas vítimas: perdeu a cabeça na guilhotina.

Após nove meses, a repressão jacobina chegou ao fim. Todavia, suas consequências ainda se estenderiam por muito tempo. Na Vendeia, os sobreviventes não estavam dispostos a esquecer a brutalidade com que foram tratados. Ao longo dos anos seguintes, a revolta voltaria a estourar, de forma esporádica, em diferentes partes da província. Apesar de dois tratados de paz terem sido assinados (em 1795 e em 1800), a Vendeia continuaria sendo uma região inquieta e belicosa durante quatro décadas.

Nos anos que se seguiram, a República tentaria esconjurar a memória dessa guerra sem compaixão, considerada por alguns como um verdadeiro genocídio francês. “A historiografia revolucionária acostumou-se a tratar a rebelião como um simples complô de camponeses abrutalhados, e por muito tempo a memória nacional manteve o episódio nas sombras”, diz Alain Gérard. Na Vendeia, as lembranças da guerra civil não só continuaram acesas, como contribuíram para a criação de uma identidade única, que passou a distingui-la do resto da nação. Nos nomes das ruas e nos contos da tradição oral, a Vendeia mantém vivas a ascensão e a queda dos combatentes de 1793 – uma história que o resto da França, durante mais de um século, preferiu esquecer. 


Saiba mais
Blancs et Bleus dans la Vendeé Dechirée, de Jean-Clément Martin, Découvertes Galimard, 1987
Dicionário Crítico da Revolução Francesa, François Furet e Mona Ozouf, Nova Fronteira, 1988.





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