70 anos do disco voador de Roswell: O que sabemos?

Uma coisa é certa: os militares comprovadamente mentiram

Fábio Marton

A notícia e os suspeitos | <i>Crédito: Redação AH
A notícia e os suspeitos | Crédito: Redação AH

Na manhã de 8 de julho de 1947, a assessoria de imprensa da Base Aérea do Exército em Roswell soltou o seguinte comunicado à imprensa:

Os vários rumores a respeito dos discos voadores se tornaram uma realidade ontem, quando o escritório de inteligência do 509º Grupo de Bombardeio da 11ª Força Aérea, Basea Aérea do Exército em Roswell, teve a sorte de ter em posse um disco através da cooperação com um dos rancheiros local e o escritório do xerife de Chaves County. O objeto voador pousou num rancho perto de Roswell em algum momento na semana passada. Não possuindo telefone, o rancheiro guardou o disco até quando ele foi capaz de entrar em contato com o escritório do xerife, que em seu turno notificou o major Jesse A. Marcel do Escritório de Inteligência do 509º Grupo de Bombardeiro. Ações foram tomadas imediatamente e o disco foi recuperado da casa do rancheiro. Foi inspecionado na Base Aérea do Exército em Roswell e a seguir levada pelo major Marcel para a autoridade superior.

E a imprensa, compreensivelmente, foi à loucura. Roswell, uma cidadezinha do Novo México, se tornaria sinônimo mundial de contatos com inteligências extraterrenas. 

+ Exército dos EUA criou um disco voador

Mas, antes do fim do dia, seria publicado o desmentido, dessa vez pelo tal "quartel superior", a base de Forth Worth, Texas, para onde haviam sido enviadas as partes do "disco". (Não foi a Área 51 - essa fica em Nevada, estado de Las Vegas). Era só um balão de pesquisas climáticas, disseram os militares. ("Nada a se ver aqui, circulando!", acrescentariam, fossem a PM)


Foto divulgada com o desmentido / Reprodução

A história havia começado no dia 14 de junho, quando o rancheiro em questão, William Brazel, achou alguma coisa a 30 km de Roswell, Novo México. No dia 7, ele foi até a cidade, encontrou o xerife George Wilcox e afirmou que tinha achado "um desses tar disco voador" (sotaque traduzido). O xerife entrou em contato com a base e ele o major Marcel foram ver. Os restos foram pegos, brevemente observados e, com a autorização do chefe da base, o general William H. Blanchard, foi publicada a versão do disco voador. 

Um dia após o desmentido, Brazel foi entrevistado e afirmou que o que havia recolhido eram apenas tiras de borracha, papel alumínio, um papel duro e hastes metálicas. Caso encerrado. 

Caso arquivado

Fosse hoje em dia, nunca mais deixaria de circular a versão original. Como foi em 1947, a história morreu por aí. Uma mera confusão envolvendo caipiras. 

Passar-se-iam 31 anos até se falar em Roswell novamente. Foi quando o físico nuclear tornado ufólogo Stanton T. Friedman encontrou um major Jesse Marcel aposentado e disposto a falar. Marcel, que em 1947 havia mencionado apenas os pedaços de borracha e papel alumínio, afirmou então que o que viu era mesmo um disco voador e que ele mesmo havia trocado os restos do disco para os de um balão, nas fotos, para acobertar a história. Também afirmou que ele próprio pilotou o avião. E que tinha formação em física. 

Estas duas últimas, um tanto quanto... verdade alternativa. Marcel não pilotava nada nem havia se formado. Guarde isto, que é importante.

Depois de Marcel, outros velhinhos de Roswell saltaram para dar suas versões. Walter Haut, o tenente que escreveu o comunicado original, começou dizendo que não era realmente uma testemunha. Em 1979, afirmou que não havia visto nada, nem o permitiram ver quando pediu. Mais tarde, começou a reforçar o quanto acreditava que seu chefe, o general Blanchard, definitivamente acreditava que havia visto um UFO, que não poderia ter ele - nem tampouco Marcel - achado que balão era disco voador. Em 2000, a história avançou para ele dizer que viu pessoalmente não só o disco, como alienígenas mortos nele. 

Haut afirmava que só podia dizer tudo o que sabia após sua morte, por uma promessa feita ao general. Ele se foi em 2005 e, em 2007, o livro Witness to Roswell: Unmasking the 60 Year Cover-Up ("Testemunha de Roswell: Desmascarando 650 Anos de uma Operação Abafa") trouxe seu testemunho final. Nessa versão, logo após escrever o comunicado, Haut foi levado a um hangar onde estavam a nave e vários corpos minúsculos. Soube então que havia em verdade dois locais com vestígios alienígenas: o encontrado pelo rancheiro era na verdade o campo menor. A nave havia sido achada pelo exército em outro lugar - e daí os militares decidirem lançar um comunicado sobre o campo que já havia sido visto por civis e era mais fácil de acobertar.

Haut e Marcel são apenas as testemunhas mais próximas do incidente a falarem. Várias outras surgiram para afirmar terem visto a nave em terra e no ar, ou até terem sido abduzidas em 1947. Um deles, Glenn Dennis, agente funerário, afirmou ter levado os corpos dos alienígenas a pedido do Exército. E, com faut, fez disso um negócio, o "Museu do UFO". 

A conspiração terráquea

Mas Glenn disse isso só em 1989. E aí moram as suspeitas. Testemunhos de Roswell são vistos como extremo ceticismo por historiadores e cientistas. Marcel era um mentiroso, Haut estava no fim da vida, mentalmente instável. Tanto eles quanto todas as outras testemunhas (que continuam a aparecer) só parecem ter descoberto ter visto alienígenas depois de 1978. O famoso vídeo da autópsia, se você está se perguntando, é uma fraude dos anos 1990, pelo cineasta Ray Santilli. 

Mas houve, sim, uma conspiração. Só não a que os ufólogos querem ver. Documentos revelados em 1994 mostraram a razão da correria toda do Exército - e quem sabe também essa conversa de alienígenas, uma tentativa mais que estabanada para ocultar a realidade. Os civis e militares envolvidos haviam visto uma coisa realmente esquisita. E ultrassecreta. 

O Project Mogul era uma inciativa da Aeronáutica para descobrir se os soviéticos estavam fazendo testes nucleares. Consistia em se lançar balões meteorológicos presos uns aos outros em filas, de forma a manterem-se numa altitude estável na alta atmosfera. Carregavam rádios, microfones e estranhas estruturas de papel alumínio. Sua função era detectar pelo som de uma explosão nuclear, a meio mundo de distância. 

O projeto tinha uma base científica sólida, mas se mostrou caro demais em relação às alternativas, detectores sísmicos e amostras de radiação no ar. E, como mostrou Roswell, não era exatamente discreto. 


Diagrama do Projeto Mogul e recriação moderna / Reprodução

Essa é a algo frustrante e não alternativa verdade conhecida sobre Roswell. Para acreditar que houve mesmo alienígenas, também é preciso aceitar uma massiva operação de acobertamento, durando sete décadas, que envolve não só o governo e o Exército, como cientistas, a imprensa e as próprias testemunhas, durante as três primeiras dessas décadas. Uma conspiração envolvendo o mundo inteiro. 

Quem conhece História sabe que um governo tão eficiente assim não é coisa deste planeta. 


* Original:  The many rumors regarding the flying disc became a reality yesterday when the intelligence office of the 509th Bomb group of the Eighth Air Force, Roswell Army Air Field, was fortunate enough to gain possession of a disc through the cooperation of one of the local ranchers and the sheriff's office of Chaves County. The flying object landed on a ranch near Roswell sometime last week. Not having phone facilities, the rancher stored the disc until such time as he was able to contact the sheriff's office, who in turn notified Maj. Jesse A. Marcel of the 509th Bomb Group Intelligence Office. Action was immediately taken and the disc was picked up at the rancher's home. It was inspected at the Roswell Army Air Field and subsequently loaned by Major Marcel to higher headquarters.


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