A estranha indiferença do nazismo para com as lésbicas

Pesquisador revela o contraste entre o brutal tratamento dos homens gays sob o nazismo e a tolerância relativa com as mulheres

Fábio Marton

Aos homens, o maligno triângulo rosa; às mulheres, a indiferença | <i>Crédito: Wikimedia Commons
Aos homens, o maligno triângulo rosa; às mulheres, a indiferença | Crédito: Wikimedia Commons

Samuel Clowe Huneke, doutorando da Universidade de Stanford (EUA), estudou registros policiais da Alemanha nazista referentes a violações de leis que proibiam relacionamentos homossexuais. O resultado, não sem surpresa, e que as relações homossexuais entre duas mulheres não eram tratadas como o crime previsto nas leis nazistas - aquele que levou até 15 mil homens aos campos de concentração, onde eram obrigados a usar um triângulo rosa identificando sua condição.

As próprias denúncias eram extremamente raras, mas Huneke encontrou oito casos que passaram pelo sistema judiciário sob o nazismo na década de 1940, no Landesarchiv, o Arquivo do Estado, em Berlim. Em todos eles, as acusações, trazidas por vizinhos e parentes, foram recusadas. Num deles, uma mulher judia, casada com um chinês e acusada pelo próprio marido, foi inocentada e não perseguida enquanto judia, por causa de sua cidadania chinesa. 

O achado é surpreendente em mais de um sentido. Não só a Alemanha nazista perseguia brutalmente os homens gays, como havia todo uma política de enquadrar as mulheres em sua função reprodutiva, as mães da "raça superior". Existia até mesmo uma medalha para as mães que gerassem mais de quatro filhos (a de ouro exigindo oito crianças). 

"À luz da pavorosa perseguição de homens homossexuais e os estudos que a enquadram nas políticas nacional-socialistas pró-natalidade, a aparente falta de interesse do regime na homossexualidade feminina é perturbadora", escreve Huneke em sua dissertação. 

A questão da diferença entre o tratamento diferente da homossexualidade feminina e masculina já havia surgido antes. Huneke agora apresenta novas provas de que realmente existia e qual era sua extensão. Outros acadêmicos haviam sugerido que essa diferença era porque os nazistas não podiam conceber mulheres como seres sexuais, dado seu foco todo na reprodução. A isso Huneke também acrescenta que não eram vistas como seres políticos, excluídas de quase todo o debate público. 

Enfim, o nazismo considerava as mulheres tão inferiores que o "crime" da homossexualidade, vindo delas, era considerado inconsequente. "O gênero pode ser a razão porque lésbicas não foram perseguidas da mesma forma que os gays", afirma Huneke. "Mas simplesmente porque havia uma tolerância à homossexualidade feminina não quer dizer que essas mulheres vivessem vidas invejáveis."

O doutorando também levanta a possibilidade de uma estratégia de "dividir e conquistar", em que mulheres homossexuais se sentiriam protegidas pelo regime, ao contrário dos homens. 



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