Nossa espécie é 100 mil anos mais antiga do que se acreditava

Descoberta revoluciona nosso entendimento da origem da humanidade

Thiago Lincolins

Representação de um hominídeo | <i>Crédito: Shutterstock Images
Representação de um hominídeo | Crédito: Shutterstock Images

O ser humano moderno, Homo sapiens sapiens, surgiu num ponto específico da África, entre a Etiópia e o Quênia, há 200 mil anos. Assim se acreditava até ontem: dois estudos, dos paleoantropólogos Jean Jacques Hublin, Shannon McPherron e equipe, do Instituto Max Planck, publicados ontem na Nature, demonstram que já estávamos aqui 100 mil anos antes. E, o mais incrível, esses achados foram feitos no outro lado do continente, a milhares de quilômetros de nossa suposta origem.

A descoberta foi realizada  no sitio arqueológico de Jebel Irhoud, que fica em Marrocos. O sítio foi inicialmente escavado em 1960, rendendo restos de crânio, maxilares, ossos de animais que haviam sido cozinhados e ferramentas de pedra. Na época, foram datados de cerca de 40 mil anos atrás - antigos, mas nada de especial.  

As ferramentas de pedra que permitiram a realização da descoberta / Jean Jacques Hublin

Sempre pairou a suspeita que a datação original havia sido mal-feita. Em 2004, Hublin e McPherron voltaram ao sítio e começaram a escavar mais vestígios achando mais ferramentas e ossos. Foi graças a essas ferramentas, que permitiram a datação por termoluminescência, que a data pôde ser re-estimada. O novo número fica entre 286 mil e 315 mil anos atrás. Como os ossos estavam na mesma camada de sedimentos, pertencem à mesma época. 

Fóssil da mandíbula / Foto: Jean Jacques Hublin

Com os fragmentos de crânio, os pesquisadores conseguiram reconstruir o crânio completo. Eram gente como agente."A face reconstruída é semelhante ao rosto de alguém que você poderia ver no metrô", disse Hublin à National Geographic.

Reconstrução virtual do crânio / Philipp Gunz

Ou quase. Mesmo sendo um membro da nossa espécie, o crânio desses humanos era mais alongado e achatado que o dos humanos moderno, lembrando o dos ancestrais. O que leva a um dilema: seriam eles mesmo humanos modernos ou os últimos ancestrais antes deles? Hublin prefere chamá-los de "humanos modernos primordiais" e os próprios cientistas adicionaram mais dois especialistas independentes que concordam que, sim, eram humanos modernos, não outra espécie. Mas certamente haverá polêmica. "Você pode tanto expandir a definição de Homo sapiens para incluí-los quanto considerar que essas criaturas estavam no caminho de se tornar humanos modernos", afirma o paleoantropólogo George Wood, da Universidade George Washington, não envolvido no estudo, em entrevista à National Geographic.

O local da descoberta também abre uma questão importante. Se estávamos há tanto tempo atrás onde hoje é o Saara, quer dizer que não evoluímos num pontinho específico da savana Africana. Segundo os cientistas, provavelmente era uma área bem mais extensa do que se imagina hoje, quem sabe toda a África. Mas admitem não ter como saber nada ainda.


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