Por 130 anos, prisioneiros mais insanos da Itália foram encarcerados nesta mansão renascentista

O 'Asilo Arkham' ficava em casa da família Medici e foi fechado sob a acusação de manter os prisioneiros em condições desumanas

Tatiana Bandeira

Não, as árvores não são roxas | <i>Crédito: Wikimedia Commons
Não, as árvores não são roxas | Crédito: Wikimedia Commons

Foi a proximidade da estrada de ferro que fez que a vila renascentista dos Medici, erguida em 1534 e hoje patrimônio da Unesco, em Montelupo Fiorentino (Florença), se convertesse em uma residência (forçada) dos criminosos no final do século XIX. A mansão, que se transformou em um hospital psiquiátrico judicial – metade internato, metade prisão –, uma função que desempenhou durante mais de 130 anos, foi fechada depois de muita polêmica. EM fevereiro foi transferido o último de seus inquilinos. 

O centro abrigou a alguns dos protagonistas mais impactantes da crônica  negra italiana, e provavelmente causaria calafrios em mafiosos. Em 1886, o Corriere della Sera dava a notícia de que o anarquista Giovanni Passannante, que tentou assassinar o rei Umberto I, ia ser transferido a Montelupo por ser considerado um “pazzo” (louco). 

Mais de um século depois, Andrea Volpe, integrante das Bestas de Satanás (uma seita que assassinou a vários jovens entre 1998 e 2004), pediu para ser transferido a Montelupo. Ali esteve Gianfranco Stevanin, um assassino em série conhecido como “O Monstro de Terrazzo”, que matou seis mulheres no norte da Itália e que, também segundo informou o Corriere, teve algum encontrão com outros internos. E Bartolomeo Gagliano, apelidado “O Monstro de São Valentim”, especializado em disparar no rosto das suas vítimas. 

Na Itália, este tipo de centro sempre esteve acompanhado de polêmica. O ex-presidente Giorgio Napolitano chegou a classificá-lo em um ocasião como “um autêntico horror, indigno de um país civilizado”. Até o ano passado, ainda funcionavam no país seis instalações como a de Montelupo Fiorentino. No final dos anos setenta, sobreviveram, inclusive, à reforma sanitária que levou ao fechamento dos manicômios.

Há um pouco mais de cinco anos, uma comissão de investigação do Parlamento italiano evidenciou em quase todos os estabelecimentos “graves carências higiênicas e sanitárias” e denunciou “a aplicação de medidas inadequadas, às vezes danosas para a dignidade das pessoas”. A antiga residência de veraneio dos governantes florentinos, era precisamente um dos centros de internação mais longevos e um dos últimos a ser fechados. O encerramento foi decretado há quase dez anos, mas demorou em efetivar-se depois de vários adiamentos. 

O número de detidos foi sendo reduzido aos poucos. Começou por 150 vagas, das quais, no ano passado restavam cerca de 60. Em fevereiro, o último detento foi transferido a um reformatório de Volterra, cidade próxima àquela região. 


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