São Paulo queria se separar em 1932?

Hoje faz 85 anos do começo da grande guerra civil brasileira - o que os paulistas queriam?

Fábio Marton

Uma ruptura temporária | <i>Crédito: Wikimedia Commons
Uma ruptura temporária | Crédito: Wikimedia Commons

Em 9 de julho de 1932, começava a maior guerra do século 20 no Brasil. Sim, isso inclui a Segunda Guerra: seis vezes mais combatentes morreriam na indigestamente chamada Revolução Constitucionalista, mais de 3 mil contra 471. Que, de revolução, não teve nada: a desejada Constituição - e democracia - veio na data que já estava prometida antes. E foi rasgada pelo mesmo Vargas meros três anos depois, no autogolpe do Estado Novo. Os paulistas estavam certos nisso: ele realmente tinha tendências a ser um "dictador". Foi tudo em vão.

Mas a coisa é séria em São Paulo. São Paulo é possivelmente a única capital do país a não ter uma Avenida Getúlio Vargas. Duas das maiores vias da cidade atendem por 9 de julho e 23 de maio - a data em que morreram os jovens Mário Martins de Andrade, Euclydes Bueno Miragaia, Dráuzio Marcondes de Souza e Antônio Américo de Camargo, os mártires do MMDC, movimento clandestino que levaria à guerra. Também então foi ferido de morte Orlando de Oliveira Alvarenga, que faleceria em plena guerra, três meses depois. 

São Paulo tem um movimento separatista, que entrou em evidência durante a grande crise da década de 2010, pedindo para se separar de um país que não vota como o estado. E eles frequentemente mencionam a guerra civil como um precedente ou ao menos inspiração. Afinal, os paulistas em 1932 queriam se separar do Brasil?

A resposta é: de jeito nenhum. Em primeiro lugar, o plano era uma revolução nacional. Os paulistas contavam com a adesão de Minas e Rio Grande do Sul, para uma ofensiva fulminante contra o Rio de Janeiro, apeando Vargas do Palácio do Catete. Havia promessas vindas de aliados nesses estados, mas, ao cair das cortinas, a revolução não decolou por lá. Ainda assim, as primeiras manobras militares foram na direção do Rio, terminando barradas.


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Em segundo, basta ver o que os paulistas escolheram para representar o estado – a figura do bandeirante. Estava em todo o lugar, nos discursos, nas notícias enviesadas da imprensa, nos cartazes de propaganda. Bandeirantes, se você faltou à aula, são os violentos aventureiros que se embrenharam mata adentro, descobriram e fundaram quase todo o interior do Brasil: Minas Gerais mais todo o Centro-Oeste e o Norte. 

Mas havia, de fato, uma situação confirmada: fazendo guerra sozinho, o estado não podia mais esperar derrubar o governo federal, conquistar o Brasil. E, diante dessa fatalidade, algumas vozes se levantaram para falar em separação. Uma das mais notáveis foi Monteiro Lobato. Assim ele disse, em agosto: "Após a vitória de São Paulo, na campanha ora empenhada, se faz mistér que seus dirigentes não se deixem embalar pelas ideias sentimentais de brasilidade, irmandade e outras sonoridades.[...] Ou São Paulo desarma a União e arma-se a si próprio, de modo a dirigir doravante a política nacional a seu talento e em seu proveito, ou separa-se.[...] Trata-se de uma guerra de independência disfarçada em guerra constitucionalista".

Grifo para o "dirigir doravante" e "desarma a União".  A separação era uma opção diante da impossibilidade do domínio. Paulistas como Lobato podiam ser bairristas, mas não se achavam estrangeiros no Brasil. Pelo contrário, viam a si como os pais da nação. E, ao menos um pouco, donos.


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