Chacina bolchevique: a execução da família imperial

Em 1918, os revolucionários comunistas levaram a cabo uma das mais cruéis e famosas matanças da história

Redação AH

A família imperial russa | <i>Crédito: Domínio Público
A família imperial russa | Crédito: Domínio Público

Naquela noite fatídica de 17 de julho de 1918, a família real russa, os Romanov, já havia caído na mais absoluta desgraça. Desde maio estavam presos na Casa Ipatiev, em Yekaterimburgo. O local havia sido cercado por paliçadas altas e as janelas cobertas por jornais e nunca abertas, para que não fossem vistos. Eram vigiados o dia inteiro e tinham de tocar um sininho para avisar se fossem ao banheiro. Mais de uma vez, os guardas atiraram contra eles diante de rebeldia. 

Pouco depois da meia-noite, foram acordados pelos guardas, sob o pretexto de serem transferidos. Mas, no lugar da rua, foram levados para o porão, eles os servos, 11 pessoas no total. Lá esperaram longos minutos até chegar o caminhão que levaria seus corpos, que manteve seu motor ligado para ocultar o ruído.

Yakov Yurovsky, chefe dos captores, leu então sua sentença: 

"Nikolai Alexandrovich, diante do fato que seus parentes continuam seu ataque contra a Rússia Soviética, o Comitê Executivo de Ural decidiu executá-lo"

As últimas palavras do último czar foram um incrédulo "O quê?! O quê?!". 

Imediatamente, o pelotão começou a atirar. Cada um tinha um nome de quem seria seu alvo, inclusive as crianças, mas a coisa logo descendeu ao caos porque a fumaça das armas tornou impossível ver qualquer coisa. A porta foi aberta e, quando a fumaça baixou, perceberam que os cinco filhos - a mais velha, Olga, com 22, o mais jovem, Alexei, com 13 - ainda estavam vivos. A ordem foi então matá-los com baionetas e o cabo dos fuzis. Quando isso não funcionou, mais tiros foram disparados.

As lendas

Essa é a história real. Mas os bolcheviques, por razões bem compreensíveis, evitaram que ela fosse conhecida do público. Inclusive espalharam boatos de que o resto da família real, tirando o czar, estava viva. De certa forma, deve-se a eles os rumores.

Anastásia, filha predileta do czar Nicolau, acabou se transformando em uma das lendas mais duradouras do século 20. Tudo porque as mulheres da família Romanov resistiram aos primeiros tiros disparados pelo pelotão de fuzilamento. Algum tempo depois da chacina, testemunhas afirmaram ter visto a menina pedindo ajuda nos vilarejos próximos a Ekaterimburgo. Um soldado da guarda Tcheca, comovido ao perceber que a princesinha tinha sobrevivido, teria ajudado Anastásia a fugir.

Nas décadas seguintes, falsas “Anastásias” apareceram em toda a Europa e nos EUA, reivindicando a fabulosa fortuna que a família real mantinha em bancos suíços. O caso mais famoso é o de Anna Anderson. Em 1970, ela foi à Justiça alemã para tentar estabelecer-se como legítima herdeira dos Romanov. O processo arrastou-se por quase 15 anos, sem que ninguém chegasse a uma conclusão. Até que, em 1994, testes de DNA provaram que Anna não tinha qualquer parentesco com a realeza russa. Na verdade, ela era a polonesa Franziska Schanzkowska, uma operária nascida na cidade de Pomerânia em 1896 e desaparecida desde 1920.

Durante o regime socialista na URSS, ninguém se atreveu a investigar a morte dos Romanov. Ou melhor, quase ninguém. Em 1979, dois curiosos russos – os amigos Alexander Avdonin e Gueli Riabov – encontraram sinais de uma cova suspeita nos arredores da Casa Ipatiev. Escavaram o local e retiraram de lá cinco ossadas que pareciam ser de integrantes da família real. Temerosos de que a descoberta fizesse a ira do Estado soviético cair sobre suas cabeças, eles recolocaram os ossos no lugar.Com o fim da URSS, em 1989, as ossadas foram novamente exumadas e submetidas a testes de DNA, que comprovaram: aqueles eram mesmo os restos mortais do czar Nicolau II, da imperatriz Alexandra e das filhas Olga, Tatiana e Anastásia. No dia 17 de julho de 1998 – exatos 80 anos depois de terem sido executados –, os Romanov foram levados para a cidade de São Petersburgo e sepultados na cripta da Catedral de São Pedro e São Paulo. Dois anos mais tarde, seriam canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa.

Em julho de 2007, um grupo amador de estudiosos de história anunciou ter encontrado as duas ossadas que faltavam: a do garoto Alexei e a de sua irmã Marie. Arqueólogos russos confirmaram a veracidade da descoberta. 

 


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