Balas não veem sexo: As pistoleiras do Velho Oeste

De armas em punho, elas fugiram dos papeis tradicionais

Bárbara Bretanha

A legendária Annie Oakley | <i>Crédito: Wikimedia Commons
A legendária Annie Oakley | Crédito: Wikimedia Commons

O mito do cowboy norte-americano, perpetuado pelo cinema e pela literatura, promove a ideia de um homem durão, estoico e calejado, enfrentando sozinho as intempéries e a selvageria de terras recém-colonizadas. A fronteira não atraía apenas figuras como Butch Cassidy e Sundance Kid, mas também legiões de mulheres que fugiam aos padrões esperados. Individualistas de casca grossa, seja por desejo ou necessidade, que também pegaram em armas para defender sua liberdade.

Algumas dessas histórias entraram para o folclore – Calamity Jane e Annie Oakley, por exemplo –, mas havia muitas outras. “Não foram só meia dúzia. As mulheres sempre lutaram”, afirma Carla Cristina Garcia, cientista social da PUC-SP. “No Velho Oeste, os homens eram vaqueiros ou iam para o garimpo; muitas mulheres ficaram sozinhas e cabia a elas defenderem a si próprias.” Além disso, muitas mulheres que iam para o Oeste queriam escapar de seu passado, outras fugiam das restrições da sociedade do Leste.

Terra de bravos

Até meados do século 19, apenas um quarto do atual território dos Estados Unidos, na Costa Leste, havia sido ocupado. Em 1840, a noção do “destino manifesto”, teoria de que os norte-americanos tinham o direito divino de colonizar novas terras, tornou-se um mote expansionista. A descoberta de ouro em Sutter’s Mill, no território de Serra Nevada, na Califórnia, deu um novo impulso ao avanço para o oeste. Em três anos, mais de 200 mil pessoas migraram para o estado, buscando riquezas.

O Velho Oeste não era tão violento quanto se imagina. Os cowboys eram mais peões do que pistoleiros e passavam longas semanas longe de casa. Os rebanhos eram enormes e a terra árida tornava necessário percorrer grandes distâncias em busca de pasto e água. De dia na sela, à noite dormindo sob as estrelas. A dieta consistia de feijão e carne seca requentados na fogueira. Se a vida no Oeste não tinha tanto glamour, para Martha “Calamity Jane” (Jane Calamidade) Cannary a dureza era um preço pequeno a se pagar pela liberdade.


Calamity Jane em seu show / Wikimedia Commons

Martha viajou para o Oeste com 13 anos, acompanhada dos pais. Gostava da companhia de cowboys e caçadores. Perambulou pelo país e imortalizou suas aventuras em uma autobiografia, A Vida e Aventuras de Calamity Jane. Sua história foi narrada, já que nunca aprendeu a ler e escrever. Falava de aventuras, emboscadas, tiros, lutas contra os índios. Sua lista de ocupações menos emocionantes incluía os ofícios de cozinheira e lavadeira. Já mais velha, rodava o país contando seus feitos extraordinários em troca de bebida ou alguns tostões. Sua reputação era a de uma bêbada arruaceira que entrava e saía da cadeia com frequência. 

Atração de circo

Com a fama, merecida ou não, de Calamity Jane se espalhando, outra atividade se tornou popular: os shows do Velho Oeste. Eram espetáculos itinerantes com demonstrações de proeza no tiro, cavalgadas e laço. Faziam também propaganda pelo extermínio dos nativos e do expansionismo. O empreendedor William Frederick

Cody, conhecido como Buffalo Bill, era dono do show mais conhecido do país. Ele e seus concorrentes valorizavam os talentos femininos. O espetáculo dos irmãos Miller, por exemplo, empregava 50 mulheres. Ases da sela, May Lillie e Lucille Mulhill se tornaram cowgirls famosas. Mulhill, que se uniu ao show de Bill em 1909, laçava oito cavalos a galope com uma mesma volta de corda.

Foi em 1885, três anos após dar início ao show, que Bill conheceu sua maior estrela: uma jovem atiradora chamada Annie Oakley. Phoebe Ann Oakley Moses, nasceu em Ohio em 1860. Atirava desde os 12 anos. Fez tanto sucesso que, quando a trupe esteve em turnê pela Europa, a rainha Vitória, da Grã-Bretanha, assistiu três vezes ao show. Outro membro da realeza, o kaiser Wilhelm II, da Alemanha, confiou tanto em sua perícia com a arma que deixou que ela a demonstrasse atirando nas cinzas de seu cigarro – enquanto fumava.

Conhecida como Little Miss Sure Shot, ou “Senhorita Tiro Certeiro”, Ann levava uma vida pacata fora da arena. Casada, era religiosa e considerava mandar bala uma maneira de mulheres aprenderem a se proteger. Estima-se que tenha ensinado 15 mil mulheres a atirar. Quando morreu,em 1926, deixou muito de seu dinheiro para a caridade, incluindo instituições pelos direitos da mulheres. Annie Oakley nunca usou as armas como ameaça, diferentemente de foras da lei como Rose Dunn e Belle Starr.

Tiro nas costas


Belle Starr, a Rainha dos Bandidos / Wikimedia Commons

“Entre os notórios caras maus que roubaram, enganaram e assassinaram moradores do centro-oeste entre 1824 e 1936, havia várias meninas más que eram tão desonestas e violentas quanto eles”, afirma Chris Enss no livro Bad Girls: Outlaw Women of the Midwest. Famosa fora da lei, a “Rainha dos Bandidos” Belle Starr era notória pela associação com Jesse James e protagonista de uma extensa lista de atividades ilegais. Belle combinava os vestidos vitorianos com um enorme coldre e um chapéu Stetson masculino adornado com uma pena de avestruz. Quando seu marido foi preso por roubo, Belle deixou os filhos com parentes e passou a assaltar por conta própria. Era procurada por roubar cavalos e gado – crime sério no interior norte-americano. Belle foi julgada e passou nove meses presa.Logo retomaria as atividades criminosas. Aos 40 anos sofreu uma emboscada. Tentou fugir a cavalo, mas um tiro nas costas a derrubou. 

A “Rosa do Bando Selvagem”, Laura Bullion, cresceu no Texas e aprendeu o ofício da bandidagem com o pai, ladrão de bancos. Tornou-se prostituta na adolescência, conheceu a gangue dos foras da lei Butch Cassidy e Sundance Kid e se juntou ao grupo. Em 1901 foi presa por roubar um trem. Após três anos na prisão, abandonou a vida de crimes e morreu como uma respeitável costureira.


Imagem da prisão de Laura Bullion / Wikimedia Commons

Ativismo armado

Após a Guerra Civil americana, uma nova emenda foi anexada à Constituição, ratificando o direito ao voto dos homens negros. As mulheres, brancas ou negras, foram, no entanto, deixadas de fora. Mas o sufrágio feminino se beneficiaria desses exemplos de mulheres que defenderam sua independência, mesmo à base de tiros, como Pearl Hart. Pearl nasceu no Canadá por volta de 1870 e foi para os Estados Unidos em busca de riqueza. Foi presa por um assalto a carruagem. Ao ser julgada, criou polêmica. “Não consentirei em ser julgada sob uma lei para cuja criação meu sexo não teve voz”, disse. A declaração não a livrou de três anos na cadeia. Mas esse modelo de independência presente nas fronteiras fez com que os estados do oeste abrissem os olhos mais cedo para os direitos femininos. O Wyoming garantiu o sufrágio em 1869. Em 1914, quase todos os estados da região haviam seguido o exemplo.


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