Cervantes

A misteriosa vida do mais ilustre escritor espanhol

Rodrigo Casarin

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Madri, 2015. Quase quatro séculos depois da morte do escritor Miguel de Cervantes, uma equipe formada por dezenas de profissionais – arqueólogos, antropólogos forenses, historiadores… – vasculha durante mais de um mês uma cripta que havia sido usada como depósito após o fim da Guerra Civil que assolou a Espanha na década de 1930. O objetivo é claro: encontrar os restos mortais do autor de Dom Quixote, um dos maiores clássicos da literatura mundial e fundador do romance moderno.
Em um primeiro momento, acham ossadas de 57 mortos do século 18. Precisam ir mais fundo, eles têm motivos para desconfiar que está ali o que procuram. Perseveram até encontrar ossos de outras 17 pessoas, dentre as quais finalmente estão os vestígios ainda existentes de Miguel de Cervantes e Catalina Salazar, sua esposa. Ao menos é o que os especialistas garantem, baseados em indícios históricos e antropológicos – não é possível fazer qualquer teste que comprove se estão realmente certos. Cervantes nasceu em 1547 – deduz-se que tenha sido no dia 29 de setembro – e morreu no dia 22 de abril de 1616. Ou seja, seus outrora procurados restos mortais já se decompõem há 400 anos.

VIDA CONTURBADA
Se Cervantes teve um pós-morte conturbado, sua vida foi ainda mais confusa. Depois de passar a infância mudando constantemente de cidade – passou por lugares como Valladolid, Córdoba e Madri –, em 1569 precisou sair da Espanha depois de ser condenado ao decepamento da mão direita e a passar dez anos banido do país por ter ferido em um duelo em Sevilha um rapaz com boas relações com a corte. Ruma então para a Itália, onde alguns anos depois se alista em uma das companhias da Santa Liga – Exército europeu que combateu as invasões turcas – e luta na Batalha de Lepanto, em 1571, na Grécia. Lá seria ferido gravemente, com dois tiros no peito e um na mão esquerda – se havia salvo a mão direita ao fugir de sua terra natal, a esquerda permaneceria troncha para o resto de sua vida.
Passou cerca de um ano internado em um hospital da Sicília, até que conseguisse se recuperar e fosse reintegrado ao Exército pelo qual participaria de novas campanhas. Somente em 1575 Cervantes resolve voltar à Espanha. Embarca em Nápoles tendo Barcelona como destino, porém, no dia 26 de setembro, sua embarcação é atacada por piratas e Miguel é levado para Argel como prisioneiro escravizado, que só seria libertado depois de pago um resgate.
O escritor permaneceria preso até 1580. Durante esse tempo, participou de, pelo menos, quatro tentativas frustradas de fuga e só não foi morto porque carregava consigo algumas cartas de recomendação assinadas por dom João de Áustria, almirante-mor da Santa Liga, e pelo vice-rei da Sicília. Por causa desses documentos, o rei de Argel acreditava que tinha em posse alguém de grande valia, por quem pagariam uma quantidade substanciosa de dinheiro. Para que conseguissem libertar Miguel, seus pais precisaram fazer grandes dívidas e ainda contar com a ajuda de padres trinitários, que resgataram o homem de Argel. Depois de 12 anos, finalmente, o escritor voltaria a Madri e estaria novamente com a família.
Em 1584, Cervantes teria tido um caso com Ana Franca de Rojas, uma taverneira com quem possivelmente teve sua única filha, Isabel. Não há certeza, no entanto, de que ela era mesmo filha do escritor. O que se pode afirmar é que no mesmo ano, em dezembro, ele se casa com Catalina Salazar, a moça de quem garantem também terem achado os restos mortais nas recentes escavações.
A dúvida sobre a paternidade de Cervantes é um dos muitos exemplos dos vazios e incertezas que há em sua biografia. “Os documentos historiográficos sobre ele são poucos, há grandes lacunas e alguns mistérios, principalmente no período da sua juventude. Pesquisadores buscam detalhes de sua vida até nos livros que ele próprio escreveu, principalmente nos prólogos – como em Novelas Exemplares, onde há um autorretrato –, o que é incerto, porque são obras de ficção. O episódio do duelo que teria motivado o desterro, por exemplo, embora muitos considerem a explicação mais plausível para sua saída da Espanha, não tem comprovação direta. Há algumas certezas: que ele teve uma vida nômade, que foi ferido na guerra e ficou cinco anos preso em Argel, por exemplo”, explica Sérgio Molina, responsável pela tradução de Dom Quixote para a Editora 34.
Jean Cavanaggio, um dos mais respeitados cervantistas e autor de Cervantes, uma espécie de ensaio biográfico sobre o autor, também aponta esses problemas em sua obra. “Boa parte de seus escritos se perdeu; os que lhe foram atribuídos a posteriori são de autenticidade duvidosa, e mesmo os que conservamos e fizeram sua glória têm uma gênese ainda obscura, baseada em vagos indícios. Os manuscritos que chegaram até nós limitam-se a atas notariais, anotações de contas e duas ou três cartas”, escreve.
Com a falta de documentos, muitos historiadores e estudiosos fazem suas inferências quanto à vida do escritor. Para o dramaturgo Fernando Arrabal, autor de Un Esclavo Llamado Cervantes, por exemplo, há evidências de que o espanhol era homossexual, que Dom Quixote é um romance homoerótico e que seu autor só teria conseguido deixar Argel com vida porque seria amante do rei local. 

ESCRITOR, ENFIM
Mesmo em meio a uma vida tão atribulada, Cervantes se tornaria um dos escritores mais importantes da História. Uma figura-chave para que isso acontecesse foi Juan López de Hoyos, reitor do Estudio de la Villa, importante escola preparatória para o ingresso na universidade – universidade que Miguel jamais chegou a cursar. O primeiro soneto de Cervantes de que se tem notícia data de 1567. No ano seguinte, quando vira aluno de López de Hoyos, sua produção se intensifica, tanto que o mestre inclui já em 1569 – mesmo ano em que o escritor foge para a Itália –, quatro poemas do pupilo em uma publicação em homenagem à recém-finada rainha Isabel.
Durante a mais de uma década que esteve fora da Espanha, o autor provavelmente não deixou de escrever, em que pesem os percalços. “No período em que foi soldado e esteve preso em Argel, presume-se que Cervantes não tenha tido condições de escrever de forma sistemática, mas ele depois trabalharia essas experiências em sua literatura. A Novela do Capitão Cativo, interpolada em Dom Quixote, e as peças Los Tratos de Argel e Los Baños de Argel são bons exemplos disso”, conta Molina. Fato é que no próprio cativeiro Cervantes compôs sonetos para alguns companheiros também sequestrados. 
Quando retorna à Espanha, revê sua família, casa-se, consegue um emprego e leva uma vida relativamente estável – as mudanças de cidade continuariam acontecendo periodicamente e, de vez em quando, ainda teria problemas com a Justiça e passaria algumas temporadas na prisão (acusado de venda ilegal de trigo, por exemplo) –, conseguindo enfim engrenar sua produção literária. “Cervantes escreveu muito mais que Dom Quixote, mesmo se levarmos em conta apenas a obra narrativa, que inclui quatro livros – cinco, considerando as duas partes de Quixote –, mais os textos que se perderam. Tem também a produção teatral, que é muito importante, e a poética, que, embora menor, não é de desprezar”, completa Sérgio Molina. 

MOINHOS DE VENTO
Cervantes produz sua obra com o apoio de vários mecenas. O principal deles foi o conde de Lemos, vice-rei de Nápoles, com quem o autor teve uma desilusão ao não ser convidado para fazer parte de um círculo de escritores na cidade italiana. Ele publica em 1585 La Galatea, mas é em 1605 que, enfim, lança a primeira parte da obra que gravaria para sempre seu nome na literatura universal, Dom Quixote, sucesso imediato na Espanha e fora dela.
No texto Notas sobre a Máquina Voadora, da edição brasileira da Editora Penguin, o escritor e crítico literário argentino Ricardo Piglia aponta Dom Quixote como “o primeiro romance da história” e cita suas traduções: “É um dos primeiros acontecimentos da literatura a chegar a lugares muito diversos. A primeira tradução para o inglês é de 1612. A tradução para o francês, de 1614. Para o italiano, em 1622. Para o alemão, em 1621. Quase imediatamente o livro começou a circular em todas as línguas.”
O reconhecimento foi praticamente instantâneo. “Alguns escritores espanhóis contemporâneos de Cervantes tentaram desqualificá-lo por ele ter feito uma obra cômica, que seria um gênero inferior, mas já havia aí despeito por causa do sucesso do livro. O cômico em Dom Quixote é apenas uma das suas camadas de entendimento; há todo um jogo de ironias que permite, por exemplo, criticar os poderosos pela boca de personagens que os elogiam. O texto é muito ambíguo. Segundo Américo Castro [outro acadêmico que dedicou parte de sua vida às pesquisas sobre o escritor], boa parte da grandeza de Dom Quixote resulta das artimanhas que Cervantes usou para contornar a censura da Inquisição”, diz Molina.
No rastro do sucesso, em 1614 uma continuação da obra é lançada por outro escritor, que se esconde sob o pseudônimo de Alonso Fernandez de Avellaneda, cujo trabalho ficaria conhecido como Dom Quixote Apócrifo. “É um livro supermoralista, que reduz o personagem ao risível, tanto que ele acaba num manicômio, e muito desrespeitoso com o próprio Cervantes, que é diretamente insultado no prólogo”, aponta o tradutor.
O autor original não gostou nem um pouco da cópia, tanto que no segundo volume verdadeiro de Dom Quixote, lançado em 1615 – em datas próximas ainda publicou outras três obras –, faz referências ao título apócrifo. Na história, o protagonista muda seus caminhos apenas para contrariar o que havia sido escrito por Avellaneda e até encontra os volumes com sua falsa história sendo impressos em uma tipografia.
O tempo, os estudos e as diversas interpretações que se podem fazem sobre a obra máxima de Cervantes foram essenciais para que tanto Dom Quixote quanto seu autor chegassem relevantes a 2016 a ponto de ser tão importante a notícia pela busca de seus restos mortais. “A primeira parte virou uma febre internacional. Ao longo do século 17, o livro começa a ser citado e retrabalhado por escritores de vários países, incluindo William Shakespeare. No século 18, a febre explode de vez: na Inglaterra, Cervantes é adotado como mestre do romance satírico por escritores como Laurence Sterne, fascinados com as possibilidades abertas pelo narrador que ele criou, pela mistura de gêneros, pelo fio narrativo sinuoso, por toda a liberdade que sua obra comporta e propõe. Na virada para o século 19 surge na Alemanha a interpretação romântica de Dom Quixote, que ainda persiste até hoje entre boa parte dos leitores. Já na Espanha, depois do sucesso inicial da primeira parte, o romance fica em segundo plano e só começará a ser redescoberto no século 19, e para valer mesmo em pleno século 20”, explica Molina. 
Com corpo maltratado, marcado e avariado em vida e pelo tempo – ou não –, Cervantes é um gigante que continua vivo mesmo 400 anos após sua morte.

30/05/2016 - 08:13

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