Ronald Reagan: Um caubói na Casa Branca

Amado ou odiado, ele deixou sua marca - e isso explica os EUA até hoje

Eduardo Szklarz

O chapéu não nega a origem | <i>Crédito: Wikimedia Commons
O chapéu não nega a origem | Crédito: Wikimedia Commons

Ronald Reagan era o rei das gafes. Confundiu Indonésia com Indochina, Afeganistão com Paquistão e disse que as árvores poluíam mais que os carros. Quando visitou Brasília, em 1982, fez um brinde ao povo da Bolívia. Os rivais aproveitavam seu passado de ator de faroeste para ridicularizá-lo como uma espécie de caubói inculto. Um quase idiota. O mesmo Reagan, no entanto, tirou os Estados Unidos da recessão, derrubou a inflação e criou 18 milhões de empregos. Com uma política altamente ideológica, contribuiu para o colapso da União Soviética, debelou o comunismo na América Latina e sepultou a Guerra Fria. Ao deixar a Casa Branca, em 1989, sua popularidade beirava 60%. Um feito raro: Obama, segundo uma pesquisa de novembro de 2016, sai com 53%. George W. Bush, seu antecessor, só tinha 19% dos americanos a seu lado. 

O mais impressionante é que, desde então, ela só vem aumentando. Numa pesquisa do Gallup em 2011, Reagan foi eleito o maior presidente da história americana, com 19% dos votos. Ou seja, para grande parte dos americanos, ele é maior que o herói Abraham Lincoln, presidente entre 1858 e 1865, ou que George Washington, o pai da independência. Após sua morte por Alzheimer, em 2004, a revista Time declarou que Reagan foi “a pessoa que mais afetou as notícias e nossas vidas, para o bem ou para o mal”. A popularidade foi comprovada um ano depois, quando os canais de TV Discovery e America on Line fizeram uma pesquisa para eleger os americanos mais notáveis. Reagan, de novo, abocanhou o primeiro lugar, à frente de nomes como Martin Luther King. A nostalgia chegou ao ápice há poucos meses, com o lançamento de The Reagan Diaries (“Os diários de Reagan”, inédito em português), um catatau de quase 800 páginas editado pelo historiador americano Douglas Brinkley. Nele, Reagan registra sua relação com outros líderes – a amizade com a inglesa Margareth Thatcher, as negociações com o soviético Mikhail Gorbachev, a dor de cabeça com o líbio Muammar Kadafi – e revela intimidades, como a devoção religiosa e o amor pela segunda mulher, a atriz Nancy Davis.

Embora pareça, o ex-presidente não é unanimidade. Enquanto conservadores dizem que ele recuperou a economia, a auto-estima e os valores americanos, liberais o acusam de prejudicar a indústria, promover o egoísmo de massa e ser insensível com negros, gays, mulheres e pobres.

 Em Hollywood

Ronald Wilson Reagan nasceu em 6 de fevereiro de 1911 em Tampico, Illinois. Com o pai alcoólatra e a mãe profundamente religiosa, o garoto, que queria ser estrela de cinema, não tinha grana para tentar a carreira em Nova York. Trabalhou então como salva-vidas, formou-se em Economia e Sociologia e conseguiu emprego como locutor de esportes. Em 1937, aproveitou uma viagem de trabalho à Califórnia para fazer testes de ator – e descolou um contrato com a Warner Brothers.

Nos 20 anos seguintes, Reagan estrelou 53 filmes em Hollywood e liderou um sindicato de atores, o Screen Actors Guild, onde abriu fogo contra os simpatizantes do comunismo. Ingressou no Partido Democrata seguindo os passos de seu ídolo, o ex-presidente Franklin D. Roosevelt, mas a veia conservadora o fez mudar para o Republicano. Com discursos eloquentes, foi eleito duas vezes governador da Califórnia. E em 1980, após várias tentativas, foi indicado para disputar a presidência. “Minha meta é conseguir que os americanos voltem a confiar no país”, dizia ele na campanha. Pudera. Em 1980, os Estados Unidos viviam fustigados pelo fantasma da Guerra do Vietnã e a crise do petróleo, com inflação de 12% ao ano e desemprego crescente. Pior: terroristas haviam tomado a embaixada americana em Teerã no ano anterior e o resgate tinha sido desastroso, provocando a morte de oito soldados americanos.

Foi em meio a esse cenário que Reagan derrotou seu adversário, o presidente Jimmy Carter tentando a reeleição, com 51% dos votos. Os jornais noticiaram a vitória falando em “fome de heróis”. “O assassinato de John Lennon, em plena transição presidencial, ajudou a criar a sensação de que uma nova era surgia”, afirma o historiador americano Gil Troy, professor da Universidade McGill e autor da biografia Morning in America (“Amanhecer na América”, sem tradução em português).

Na Casa Branca

“Reagan ajudou a inventar os anos 80 em questão de meses. Durante os míticos 100 primeiros dias, ele estabeleceu um novo sentimento nacional”, diz Troy. Com a máxima “o Estado não é a solução, é o problema”, Reagan lançou uma política econômica conhecida como Reaganomics, baseada em cortes no orçamento federal e redução de impostos para incentivar a produção e os investimentos.

Em 30 de março de 1981, quando a lua-de-mel com o presidente parecia chegar ao fim, ele foi alvejado pelo jovem John Hinkley Jr. Uma das balas perfurou seu quadril e se alojou no pulmão, a 3 centímetros do coração. Reagan chegou arquejando ao hospital, mas não perdeu o bom humor. “Espero que você seja republicano”, disse ao cirurgião. Resultado: Hinkley foi parar num sanatório, Reagan proclamou que Deus o salvara e sua popularidade foi às alturas. Pouco depois, o Congresso aprovou o maior corte de orçamento da história. Daí em diante, o presidente caubói modelou o país com uma política cheia de contradições: defendia a liberdade, mas era moralista; estimulava o consumo, mas era idealista; e cultuava o indivíduo mesmo sendo nacionalista.

Reagan também demonstrava decisão em situações extremas. Em 1981, por exemplo, mais de mil controladores aéreos entraram em greve. Reagan lhes deu 48 horas para voltar ao trabalho. Diante da recusa, demitiu todos – e ganhou 67% de aprovação popular. Foi com essa empatia que ele se reelegeu em 1984, ano em que transformou as Olimpíadas de Los Angeles num festival de patriotismo.

“Para entender a era Reagan, é preciso considerar sua presidência como um fenômeno político e cultural”, afirma Troy. De fato, ele mesclava política e cultura o tempo todo: posava para as câmeras em seu rancho à la garoto Marlboro, recebia Michael Jackson na Casa Branca e falava usando os símbolos da cultura popular. Em 1985, por exemplo, depois que terroristas seqüestraram um avião da TWA, ele declarou: “Estou contente. Vi Rambo ontem à noite. Agora já sei o que fazer da próxima vez”. E dá-lhe audiência.

Entre 1982 e 1987, os Estados Unidos cresceram 60 meses sem parar, gerando 20 trilhões de produto interno bruto. Depois de uma pequena recessão em 1982, o PIB passou a crescer uma média anual de 3,4%. A inflação caiu para 4,1% em 1988. Por outro lado, a criminalidade aumentou, o consumo de drogas explodiu e a aids se espalhou sem a devida atenção do governo. Apesar de defender cortes no orçamento (principalmente na área social), Reagan elevou os gastos militares em 40%, gerando um baita rombo nas contas federais. Mas soube se recuperar dos fracassos fazendo piada de si mesmo. Exemplo: quando a oposição criticou os custos do bombardeiro B-1, adquirido por 200 milhões de dólares, ele rebateu: “Como eu podia saber que era um avião? Pensei que eram vitaminas para as tropas!”

No exterior

Fora dos Estados Unidos, Reagan liderou uma cruzada anticomunista. Com a chamada “Doutrina Reagan”, financiou grupos armados ao redor do mundo, como paramilitares em Honduras, além de oferecer apoio às políticas repressoras de vários presidentes latino-americanos, inclusive os do Brasil. O sinal verde de Reagan girava em torno de um “bem” maior: combater a influência da União Soviética. A prioridade na América Latina foi o apoio às guerrilhas conhecidas como Contras, que se opunham ao governo sandinista (marxista) da Nicarágua.

Esse tipo de guerra indireta era comum dentro da estratégia de “contenção” da Guerra Fria, mas Reagan inovou ao dizer que os Estados Unidos deveriam intervir diretamente num país se fosse preciso. E foi: em 25 de outubro de 1983, tropas americanas invadiram a ilha caribenha de Granada. Qual o interesse em um país com meros 340 km2? O movimento marxista radical New Jewel tinha tomado o poder e a alegação oficial era uma: universitários americanos correriam perigo por lá. Mas, claro, havia mais nas entrelinhas: a invasão pôs fim a quatro anos de experimento marxista. “Ela serviu de advertência aos outros países do Terceiro Mundo”, diz o cientista político Stephen Zunes, da Universidade de São Francisco, num artigo do instituto Global Policy Forum.

Além do mais, os americanos estavam preocupados com outra coisa: dois dias antes da invasão a Granada, um terrorista suicida explodira um caminhão contra o quartel das forças multinacionais de paz em Beirute, no Líbano, matando 242 americanos. “O apoio dos americanos às forças armadas estava altíssimo naquele momento”, afirma Zunes. Por isso, 63% deles eram a favor a invasão da ilha. A maioria dos americanos também perdoou o presidente ao saber que funcionários de seu governo venderam armas ilegalmente para o Irã e usaram o dinheiro para financiar os Contras na Nicarágua, no famoso escândalo Irã-Contras. Os sucessores de Reagan aprenderiam o segredo: quando tudo vai mal, continue sorrindo.

“Ironicamente, o legado de Reagan foi positivo para a América Latina”, diz Riordan Roett, diretor do Programa de Estudos Latino-Americanos da Universidade Johns Hopkins, Estados Unidos. “O conflito dos Contras levou a um acordo negociado durante o governo do primeiro Bush [sucessor de Reagan], e as eleições se tornaram norma”, diz, referindo-se ao fato de que Reagan acabou contribuindo para a consolidação da democracia na região.

No melhor estilo Luke Skywalker, Reagan também idealizou o programa “Guerra nas Estrelas” – um escudo espacial para interceptar os mísseis nucleares soviéticos. O projeto nunca saiu do papel, mas levou a corrida armamentista ao limite e precipitou o caos econômico de Moscou. Claro que Reagan não teria tido tanto sucesso sem a ajudinha do presidente soviético, Mikhail Gorbachev, com quem negociou a redução de armas atômicas. Ao promover a abertura econômica e política (perestroika e glasnost), Gorbachev gerou um efeito dominó no Leste Europeu que culminou com a queda do Muro de Berlim, em 1989.

Na posteridade

A Era Reagan terminou em 1989, mas sua influência apenas começava. Não dá para entender a ideologia que impera hoje em Washington sem ter em conta sua gestação 20 anos atrás. Reagan proclamou a “guerra contra o terrorismo” e a “guerra contra as drogas” muito antes de George W. Bush chegar ao poder. Também rotulou a União Soviética de “império do mal”, servindo de inspiração para termos como rogue states (“estados canalhas”) e “eixo do mal”, usados por seus sucessores para se referir a nações como Irã e Coréia do Norte.

Hoje as pegadas de Reagan estão em toda parte: na emergência dos Estados Unidos como única superpotência, no ressurgimento dos defensores do Estado mínimo, no debate sobre a moral, na brecha entre ricos e pobres, na polêmica sobre ação afirmativa (a política dos excluídos) e aborto (que ele tanto combateu), no ressurgimento evangélico e no patriotismo americano... enfim, tudo o que levou à eleição de Donald Trump. 

“Chamam isso de revolução. Aceito, mas para mim foi uma renovação: a renovação dos valores e de nossa auto-estima”, disse ele em seu discurso de despedida da presidência.


Uma obsessão
Nos anos 80, a América Central virou frente de batalha da Guerra Fria. Veja ações de Reagan para impedir que a "ameaça comunista" se alastrasse

Honduras
O problema: Grupos de esquerda representavam ameaça, assim como a tomada de poder pelos sandinistas na vizinha Nicarágua, que poderia gerar um efeito-dominó na região
A solução: Honduras virou base da guerra contra os sandinistas. Lá, os americanos treinavam e armavam os Contras. Já Cuba usava Honduras como um conduto para levar armas soviéticas aos rebeldes salvadorenhos.
O resultado: Aumentaram os combates na América Central

El Salvador
O problema: Foi palco de uma guerra civil entre a ditadura militar (apoiada por esquadrões de extrema-direita) e grupos comunistas, entre eles a frente Farabundo Martí de Liberação
A solução: Os Estados Unidos treinaram e armaram militares do governo – Cuba e os sandinistas fizeram o mesmo com os guerrilheiros
O resultado: 75 mil mortos e 1 milhão de refugiados

Nicarágua
O problema:
Em 1979, a Frente Sandinista de Liberação Nacional (de cunho marxista) derrubou o líder Anastasio Somoza, cuja família governara o país por décadas
A solução: Reagan tentou desestabilizar os sandinistas financiando grupos armados, os Contras. A grana provinha da venda ilegal de armas ao Irã.
O resultado: Cerca de 50 mil mortos

Granada
O problema: Bernard Coard, líder de uma facção radical do movimento marxista New Jewel, deu um golpe contra o primeiro-ministro Maurice Bishop em 1983, que já era um governo de esquerda, menos radical
A solução: Reagan invadiu a ilha: 8 mil soldados americanos se aliaram a 300 de países caribenhos. Do outro lado, estavam 1500 militares de Granada e 600 de Cuba, que jogaram a toalha.
O resultado: Cerca de 100 mortos


Saiba mais

Livros

• Morning in America, Gil Troy, Princeton University Press, 2005
• The Reagan Diaries, Ronald Reagan (editado por Douglas Brinkley), Harper Collins, 2007

 


VEJA MAIS:

Conecte-se

Revista Aventuras na História