1550: O circo tupi na França

Com marinheiros e prostitutas, indígenas fizeram encenação para convencer o rei a investir na América

Paulo Rezzutti

Índio tapuia retratado no século 17 | <i>Crédito: Albert Eckout
Índio tapuia retratado no século 17 | Crédito: Albert Eckout

Por entre árvores carregadas de frutas e com folhagens exuberantes, exibiam-se araras e papagaios e gorjeavam diversas outras aves. Macacos e saguis corriam para o solo e dali de volta aos seus esconderijos. As construções eram de troncos toscos, cobertas de palha, folhas e galhos. Ao redor, uma paliçada servia de muralha protetora. Atrás dela, estavam cerca de 300 homens, de cabeleiras revoltas, bronzeados e nus, ou “vestidos de inocência”, como descreveu Cristóvão Colombo em seu primeiro contato com os indígenas da América. Os “brasileiros” traziam seus rostos enfeitados, suas faces e orelhas furadas e entrelaçadas de pedras longas brancas e verdes. Uns atiravam flechas tentando acertar aves e pequenos animais, outros corriam atrás dos macacos. Ali perto, um grupo cortava madeira, que trocava por machados, foices e rastelos de ferro com marinheiros franceses. A madeira era transportada até um grande navio de dois mastros que ostentava o pavilhão e os brasões da França. De repente, um conflito: surgidos do meio da mata, tabajaras iniciaram um combate com os tupinambás – que venceram a pequena batalha, invadiram e depois incendiaram o acampamento dos inimigos.

França Antártida

A batalha e o escambo, cenas muito comuns no primeiro século depois da chegada de Pedro Álvares Cabral, não aconteceram no litoral sul da América recém-descoberta, mas na francesa Rouen, na foz do Rio Sena e capital da Normandia, em outubro de 1550. De brasileiros, mesmo, havia 50 indígenas, provavelmente tupinambás. O brasilianista Ferdinand Denis acreditava que os nativos teriam vindo de tribos nômades do litoral entre Pernambuco e São Salvador. Talvez até de Itamaracá, onde os franceses tinham um entreposto de extração de madeira do Brasil. O restante do “elenco” era composto de marinheiros e prostitutas locais. O acontecimento fazia parte da “entrada” do rei francês Henrique II e de sua mulher, Catarina de Médici, na cidade.

As entradas eram festas comuns na época, como as cavalhadas e os torneios, e emulavam os “triunfos” da Roma antiga. Eram cortejos e desfiles em homenagem a alguém muito importante que chegava a uma cidade. Pouco antes, Henrique II havia sido recebido em Lyon também com uma entrada suntuosa – e a cidade de Rouen não mediu esforços para eclipsá-la. Inseriu em suas comemorações um espetáculo para mostrar ao rei e toda sua corte, incluindo o embaixador português na França, a vida e os costumes dos habitantes do Brasil. O local onde se deu a encenação, um espaço de aproximadamente 200 por 35 metros, era uma campina entre as fortificações de Rouen e o Rio Sena, onde a embarcação que simulava o tráfico do pau-brasil estava ancorada.

“O propósito era despertar no monarca o interesse pela colonização da América Austral, daí a presença de índios brasileiros, mas, sobretudo das riquezas do Brasil: pau-brasil, animais exóticos, ervas potencialmente viáveis para o comércio”, afirma o historiador Jean Marcel Carvalho França, da Unesp. “A ‘festa brasílica’ foi organizada por comerciantes e armadores.”

O evento

A encenação mostrando a relação dos marinheiros franceses com nossos índios e o tráfico do pau-brasil somou-se à pressão dos comerciantes normandos interessados em negócios de além-mar. Era preciso dar uso ao recém-criado porto de Le Havre e havia o desejo de aumentar a frota nacional. Tudo isso levou a França a colonizar a região da Baía de Guanabara, na chama- da “França Antártica”, que durou de 1555 a 1560. Apesar de o Tratado de Tordesilhas, sob as bênçãos do papa, ter dividido o “Novo Mundo” e todas as suas riquezas entre Espanha e Portugal, os demais países da Europa não tinham qualquer pretensão de ficar longe de tamanho butim.

Em 1540, o rei da França, Francisco I, ironizou a decisão do papa: “Gostaria de ver a cláusula do testamento de Adão que me excluiu dessa partilha”. Um dos principais produtos traficados pelos franceses era o pau-brasil, famoso pela sua resistência na construção. As peças de marcenaria polidas realizadas com essa madeira também eram bastante apreciadas. Porém a maior procura era devida ao corante vermelho que se conseguia extrair do seu tronco, que servia para tingir algodão e lã. O “quintal” do produto, o equivalente a cerca de 60 kg, custava 6 ducados por volta de 1530. Cada ducado continha 3,5 g de ouro – o valor hoje seria de aproximadamente R$ 2 mil. Mas não era apenas pelo pau-brasil que os europeus vinham ao Brasil. Peles de animais estavam cotadas a 3 ducados. Papagaios que falassem francês valiam 6.

Para o historiador Luiz Fabiano de Freitas Tavares, autor do livro Da Guanabara ao Sena, “a postura portuguesa em relação à presença francesa no litoral do Brasil sempre foi a de reafirmar a legitimidade do Tratado de Tordesilhas”. A situação diplomática era complicada entre os dois países. “Portugal e França eram aliados no plano europeu e rivais da coroa dos Habsburgos na Espanha. Assim, todas as posturas tomadas tendiam à ambiguidade”, diz Tavares.

Um caso que ilustra a postura de Portugal com a França é a primeira batalha naval ocorrida no Brasil, em 1527. Seguindo as ordens do rei português de proteger e guardar as costas brasileiras dos piratas europeus, Cristóvão Jacques topou com uma frota francesa no Recôncavo Baiano. A esquadra portuguesa derrotou os franceses, e Jacques não teve clemência: matou os que se renderam. Alguns foram enforcados, outros, enterrados na areia e alvejados por tiros e flechas. Um pequeno grupo conseguiu escapar e, no retorno à Europa, relatou o caso da barbárie. O rei francês, Francisco I, deu início a uma longa disputa diplomática com dom João III de Portugal, que acabou por levar à destituição de Jacques.

Camaradagem dos franceses

Diferentemente dos portugueses, assumidos “donos da terra”, que buscavam colonizá-la, aprisionar os índios e escravizá-los, os franceses “exploraram mais intensamente a amizade e a curiosidade indígenas”, como explica o professor Carvalho França. “Os franceses não colonizaram a região, e é a colonização, o implantar-se na terra, que cria animosidades”, afirma. Com a camaradagem que os marinheiros da França conquistaram dos índios e a quantidade de navios realizando o tráfico, era comum a ida e vinda dos nativos para o velho continente, inclusive em Rouen.

Já em 1509, por exemplo, sete índios brasileiros foram levados para Rouen pelo capitão Thomas Aubert, membro da frota do poderoso armador Jean Ango, com negócios na África e na Ásia – tratado de pirata por portugueses e espanhóis. Em 1512, apareceu uma descrição do desfile dos indígenas pela cidade: “Eram originários dessa ilha que chamam Novo Mundo, e chegaram a Rouen com a sua barca, os seus adornos e as suas armas. Têm a cor carregada e os lábios grossos, seus rostos são recortados por cicatrizes. Não têm pelos nem barba, nem no púbis, nem em qualquer outra parte do corpo, salvo os cabelos e sobrancelhas”. Pasmo, o cronista continuou: “Falam pela boca”.

O caso mais famoso de “brasileiros” na França foi o de Caramuru e Paraguaçu. O português Diogo Álvares Correia, náufrago que acabou se estabelecendo junto aos índios do litoral do Nordeste e ficou conhecido pela alcunha de Caramuru, acabou se tornando aliado dos franceses e, junto com sua companheira, a índia Paraguaçu, partiu para a França. Paraguaçu teria sido tratada como princesa brasileira e foi batizada na cidade de Saint-Malo em 30 de julho de 1528 com o nome de Catarina do Brasil, em homenagem a uma de suas madrinhas, Catarina de Granges, esposa do navegador Jacques Cartier, explorador do Canadá. O casal retornou ao Brasil, estabelecendo-se onde hoje é a cidade de Salvador. A índia acabou seus dias como uma velhinha devota, falecendo longeva e deixando parte de seus bens para a Igreja.

A lembrança dos índios brasileiros pode ser observada na região da Normandia. Na cidade de Dieppe, na igreja gótica de Saint Jacques, encontra-se a “frisa dos selvagens”. Gravada na pedra, mostra a representação típica dos indígenas – homens, mulheres e crianças, com plumas enfeitando suas cabeças e a cintura das mulheres, e elementos como arcos e flechas –, além de papagaios que complementam as cenas. Outro lugar na região em que aparecem é no solar que pertenceu ao armador Jean Ango, em Varengeville. No pátio interno da construção, medalhões em pedra exibem os brasileiros. Uma pousada em Rouen, situada na Rua Malpalu, 17, demolida em 1837, chamava-se L’Isle du Brésil. Possuía na fachada um baixo-relevo em madeira, que hoje se encontra no Museu de Antiguidades da cidade. Nele, se observa todo o processo de extração e transporte do pau-brasil com o apoio dos indígenas.


Amigo do Brasil 

Ferdinand Denis, o primeiro brasilianista

Ferdinand Denis / Domínio publico

Deve-se ao francês Ferdinand Denis a recuperação da memória da “festa brasílica” ocorrida em Rouen em 1550. Nascido em Paris em 1798, foi destinado pelo pai à carreira diplomática, tendo aprendido diversos idiomas, entre eles o turco. As expectativas paternas acabaram se frustrando, e Denis seguiu para as Índias Orientais para se dedicar ao comércio. O caminho escolhido fazia uma pausa no Brasil, onde ele pretendia tomar outro navio até Goa. Chegou aqui em 1816 e foi ficando, encantado com o país. Esqueceu- se do seu projeto inicial e perambulou por todo o Brasil e parte da América Latina. Fixou-se no Rio de Janeiro e na Bahia e deixou descrições pitorescas desses locais, de nossos costumes brasileiros, e, principalmente, das brasileiras: “Em relação às negras e às mestiças, espanta a mobilidade incrível do traseiro delas sempre em movimento. A facilidade das crioulas de fazê-lo girar como uma bola pasma os europeus”. Mas Denis não estava somente em busca de diversão. Estudioso, passava grande parte do tempo nas bibliotecas. Embarcou de volta para a França em 1821.

Ao longo de sua vida, produziu mais de 30 livros, sendo grande parte dedicada ao Brasil. Um deles, Résumé de l’Histoire du Brésil, chegou a ser traduzido e adotado nas escolas brasileiras na época do Império. Aos 40 anos, foi nomeado bibliotecário da Biblioteca do Ministério da Instrução Pública francesa, sendo posteriormente transferido para a Biblioteca de Sainte Geneviève. Tendo contato com livros raros, descobriu uma publicação de 1551 onde está descrita a festa com os índios brasileiros. O achado levou-o a publicar, em 1850, a obra Uma Festa Brasileira Celebrada em Rouen em 1550.


Saiba mais 

Uma festa brasileira celebrada em Rouen em 1550, Ferdinand Denis, 2007


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