1871: A primeira revolução comunista

A Comuna de Paris terminou em massacre, mas foi chamada por Karl Marx de um verdadeiro exemplo de 'ditadura do proletariado'

Ana Elisa Camasmie

Destruição no Hôtel de Ville de Paris | <i>Crédito: Léon Sabatier et Albert Adam
Destruição no Hôtel de Ville de Paris | Crédito: Léon Sabatier et Albert Adam

Os livros didáticos costumam dedicar pouco espaço à Comuna de Paris. Talvez porque esse seja apenas mais um dos tantos episódios revolucionários da história da França. Ou porque tenha sido um movimento popular, que não deixou uns poucos heróis, e sim muitos pequenos grandes homens. Mas os ideais socialistas pregados pelo povo parisiense em 1871 influenciaram revoltas ao redor do mundo – incluindo a Revolução Russa de 1917. De Londres, o próprio Karl Marx, alemão que se tornou o principal teórico do comunismo, acompanhou a Comuna, exaltando os feitos dos operários, soldados, artistas, prostitutas e malandros. Eram pessoas simples, cansadas da profunda desigualdade social e saudosas dos velhos ideais de “liberdade, igualdade, fraternidade”.

A Paris da segunda metade do século 19, já era conhecida como a “cidade-luz”. Havia passado por uma renovação urbanística que dera origem a grandes avenidas (chamadas de bulevares), bosques suntuosos e luxuosos palácios. Mas, para as camadas populares, a situação era bem diferente. A miséria das periferias contrastava com a riqueza da elite. Enquanto os pobres moravam em cortiços, os parisienses mais abastados viviam em Versalhes, subúrbio que no século anterior havia abrigado a realeza derrubada pela Revolução Francesa.

Versalhes não era apenas um refúgio contra a miséria. Servia também para os ricos se protegerem contra uma eventual invasão inimiga, já que a França estava no meio de um confronto. Em 1870, o imperador Napoleão III havia declarado guerra contra a Prússia, nação que liderava a tumultuada unificação política da Alemanha. O soberano francês esperava se aproveitar da confusão para abocanhar alguns territórios germânicos.

Mas o tiro de Napoleão III saiu pela culatra. Após ser derrotado numa importante batalha, ele foi preso e destituído pelos franceses. Os mesmos políticos e militares que antes apoiavam o imperador acabaram com a monarquia e criaram uma república. Comandado pelo general Louis-Adolph Thiers, eleito presidente do Conselho de Estado, o novo governo logo rendeu-se ao exército germânico de Otto von Bismarck. Era fevereiro de 1871. A França estava desarmada e vulnerável: a única força oficial ainda em operação era a Guarda Nacional, frágil demais para conter o exército prussiano.

Mas na capital francesa o clima não era de medo. Entre a população, predominava a revolta contra a submissão dos políticos, outrora nacionalistas, às forças inimigas. Quando os prussianos chegaram às portas de Paris, o povo tomou conta dos canhões e, heroicamente, conseguiu ajudar a Guarda Nacional a repelir a invasão. Em março, em vez de serem recompensados pela bravura, os parisienses foram surpreendidos por um aumento de impostos e aluguéis.

A França contra Paris

Além de ser espremida financeiramente, a população foi destituída de suas armas. A pretexto de restaurar a ordem, o governo retomou a posse sobre os canhões das regiões parisienses de Montmartre, Chaumont e Belleville. Em 18 de março, uma manifestação de protesto saiu às ruas. A ordem dada à Guarda Nacional foi sufocar o movimento com violência. Mas os soldados se recusaram a cumpri-la. Percebendo que eram tão humildes quanto os manifestantes, eles se uniram aos revoltosos.

Os generais Lecomte e Clément Thomas, comandantes da Guarda Nacional, foram aprisionados e fuzilados por seus ex-subordinados. Percebendo a extensão do levante, os defensores do governo fugiram para o isolamento de Versalhes. Os batalhões da Guarda Nacional, então, se posicionaram em pontos estratégicos nos limites de Paris, enquanto barricadas eram erguidas nas ruas. Dessa vez, não era apenas para defender a cidade de ataques estrangeiros, mas para dar segurança a um novo governo. O poder agora era do povo. Nascia a Comuna de Paris.

Enquanto durou, a comunidade criada pelos parisienses promoveu mudanças radicais, em nome do comunismo e anarquismo, que então ainda andavam de mãos juntas. A separação entre Igreja e Estado foi instituída e os religiosos, encarcerados – alguns deles, fuzilados. A cobrança de aluguéis foi abolida. Os palácios dos considerados traidores da pátria, exilados em Versalhes, foram saqueados. Monumentos que simbolizavam o poder de Napoleão Bonaparte e Napoleão III foram destruídos, como a coluna imperial da praça Vendôme.

Enquanto isso, o governo francês estabelecido em Versalhes pensava em como sufocar a Comuna. Segundo o armistício assinado com os alemães, a França não podia reunir mais de 40 mil soldados de uma vez. Mas Thiers conseguiu fechar um acordo com Bismarck, que permitiu a mobilização de 170 mil soldados franceses para a retomada de Paris – boa parte deles eram prisioneiros de guerra que a Alemanha aceitou libertar.

Em 21 de maio, as tropas francesas invadiram Paris, dando início à Semana Sangrenta, em que nenhum dos lados fazia prisioneiros – inimigos eram assassinados a sangue frio. Ao final, os homens de Thiers saíram vitoriosos. A Comuna de Paris seria liquidada em 28 de maio, tendo durado 72 dias e deixando um saldo de 35 mil presos, cerca de 20 mil mortos e uma capital arrasada. No fim da revolta, para rechaçar o exército francês que se aproximava, os próprios revolucionários acabaram ateando fogo em diversos edifícios, como o Hotel de Ville, onde os membros da Comuna tinham se reunido em assembléia.

Karl Marx, um dos inspiradores ideológicos da coluna, também sairia inspirado por ela. Diria que foi o primeiro exemplo da "ditadura do proletariado". Mas achou que não foi dura o suficiente. Ele acreditava que a Coluna poderia vencer se a ação dos revolucionários tivesse sido mais fulminante contra os opositores, estabelecido imediatamente o recrutamento em massa e centralizado as decisões num comitê revolucionário. Enfim, criado um Estado como Lênin criaria 46 anos depois. Não por acaso, levando muito a sério as lições de Paris e a análise de Marx. O caos e indecisão da liderança de 1871 inspiraria seu estilo autoritário e fulminante, que se mostraria vencedor.

Os anarquistas eram contra a ideia desse Estado provisório dos comunistas. Queriam o fim do Estado aqui e agora, não após a criação do novo homem comunista pela ditadura do proletariado. Por isso, no ano seguinte, a Primeira Internacional, organização mundial de comunistas e anarquistas, racharia entre os dois. 


 Cidade sitiada
Acompanhe momentos cruciais dos 72 dias da Comuna

➽ 17 de março: A revolta começa quando o general Lecomte exige que a Guarda Nacional tome do povo os canhões usados contra os invasores alemães.

➽ 18 de março: As tropas da Guarda Nacional se aliam à população armada. Os rebeldes fuzilam Lecomte e o general Clement Thomas.

➽ 19 de março: Louis-Adolph Thiers, líder do governo francês, se refugia em Versalhes, nos arredores de Paris, de onde articulará a retomada da cidade.

➽ 26 de março: O novo regime é oficializado na capital, com eleições para a Comuna feitas no Hôtel de Ville. Cada distrito da cidade tem um representante.

➽ 7 de abril: A Comuna elege seu símbolo: substitui o tradicional pavilhão tricolor francês por uma bandeira vermelha.

➽ 17 de abril: As fábricas e oficinas abandonadas são expropriadas por decreto e seu controle é deixado nas mãos de sociedades de operários.

➽ 10 de maio: A Comuna decreta o sequestro dos bens de Thiers e a destruição de sua casa.

➽ 16 de maio: Na praça Vendôme, é derrubada a coluna imperial, inaugurada em 1810 para homenagear o exército napoleônico.

➽ 26 de maio: As forças contrárias à Comuna invadem Paris. Dois dias depois, tomam a região estratégica de Montmartre, no norte da cidade.

➽ 28 de maio: Após massacres, a Comuna é derrotada. Paris fica destruída.


Saiba mais

O Grito do Povo (volumes 1 e 2), Jean Vautrin e Jacques Tardi, 2005


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