A faxina de Lênin

A grande perseguição aos intelectuais opositores

Yolanda Delgado

Diga onde você vai, que eu vou varrendo | <i>Crédito: Wikimedia Commons
Diga onde você vai, que eu vou varrendo | Crédito: Wikimedia Commons

Um espião conseguiu se infiltrar no encontro habitual que mantinham os seguidores de Liev Tolstoi. Depois da reunião, o informante foi até a Checa, a polícia secreta soviética, para denunciar que no grupo existia um membro sem dúvida subversivo, que os participantes chamavam de Sócrates. A partir daquele dia, o filósofo grego Sócrates (cerca de 470-399 a.C.) ganhou um dossiê da polícia política. 

Entre os muitos dados e informações que contêm os arquivos da antiga União Soviética e que, graças à Perestroika, começaram a vir à luz a partir de 1990, existem histórias como esta, que parecem saídas de um conto de Nicolai Gógol, precursor do surrealismo, que indicam o clima de paranoia que se começava a respirar na década de 1920, dentro da máquina de repressão  organizada pelo governo bolchevique. 

Em 1921, a Nova Política Econômica (NEP, na sigla em russo), que sugeria uma certa abertura à economia de mercado e à propriedade privada para amainar a fome e a insurgência pelo país, veio acompanhada de uma maior pressão ideológica contra qualquer forma de dissidência. 

O artigo de Lenin Sobre o Significado do Materialismo Militante, publicado em 1922, foi sua declaração de guerra à dita intelligentsia reacionária: “A classe operária da Rússia foi capaz de conquistar o poder, mas ainda não aprendeu a utilizá-lo. Se houvesse, há muito tempo já teria enviado, da forma mais cortês possível, semelhantes pedagogos e membros de sociedades científicas aos países da ‘democracia’ burguesa. Esse é o lugar apropriado para criaturas feudais assim”. 

A partir daí, o líder bolchevique colocaria em marcha um meticuloso plano para levar a cabo as primeiras deportações coletivas. Começa por elaborar uma lista pessoal com nomes de filósofos, professores universitários, escritores, jornalistas, advogados, sociólogos, economistas, engenheiros, cientistas e outros profissionais que não apenas não haviam aderido à “revolução cultural” mas que, a partir de diversas tribunas, em Moscou e São Petersburgo, exigiam democracia, o fim da violência, a defesa do pensamento individual e a liberdade de expressão. 

“Estamos sozinhos”

Entre os escritores, alguns se exilaram voluntariamente e muitos foram “convidados” a viajar por “prescrição médica”. Os que permaneceram na União Soviética e não se juntaram à “revolução cultural” foram relegados ao silêncio ou se tornaram vítimas dos primeiros complôs orquestrados pelo governo comunista. Foi o caso do poeta Nicolai Gumiliov, fuzilado com outros 59 acadêmicos, artistas e intelectuais na periferia de São Petersburgo em 7 de agosto de 1922, acusado de pertencer a um grupo de contrarrevolucionários. No mesmo dia, morreu Alexander Blok, outro poeta, a quem se negou a saída do país para tratamento médico na Suíça. As duas tragédias causaram comoção na comunidade literária. “Estamos sozinhos”, escreveu Nina Berberova em suas memórias. 

Nem mesmo as contínuas mediações dos artistas simpatizantes do regime, como Maxim Gorki e Anatoli Lunacharski – este último, comissário de Educação, Arte e Cultura –, tinham efeito sobre Lenin. Os escritores estavam órfãos. Gorki, o escritor mais consagrado a permanecer na União Soviética, seguiu o conselho de Lenin e deixou o país naquele mês de outubro (voltaria em 1928). Outros se seguiriam.

Em Moscou e São Petersburgo revistas e editoras foram fechadas. As instituições de escritores e artistas, promovidas por Gorki, que até então eram paliativos para a falta de trabalho e de comida dos escritores, também desapareceram. A única instituição do período foi a temida Glavit (Direção-Geral de Assuntos Literários e Editoriais), o órgão de censura da União Soviética que manteve a sociedade isolada das ideias antagônicas ao bolchevismo. 

No primeiro expurgo coletivo, urdido por Lenin, os comunistas tiveram a colaboração da Alemanha, que facilitaria a emissão de vistos e ofereceria os barcos de transporte. Nesse meio-tempo, a lista continuou crescendo, com alguns professores e alunos universitários em greve pela defesa da liberdade curricular e exigência de mudanças nas condições de trabalho. Também alguns médicos, que haviam denunciado deficiências no sistema de saúde durante um congresso profissional, passaram a engrossar a relação – poucos, pois eram úteis ao regime. 

O último problema a ser resolvido era o aspecto legal. Não existia uma norma que permitisse a expulsão do país sem condenação prévia. Uma nova cláusula no código penal salvou a situação. Dizia que a deportação era um gesto de clemência para aqueles cujos crimes previam a pena de morte. Definiu-se, além disso, que o exílio poderia ser por tempo indefinido ou determinado, mas o regresso sem a permissão explícita das autoridades significava morte certa. 

A saída é pelo porto

A partir desse momento, tudo estava decidido. Em uma das cartas que Lenin enviou a Stalin, recém-nomeado secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista, dizia: “Vamos limpar a Rússia de uma vez por todas”. 

As prisões e interrogatórios dos suspeitos aconteceram na noite de 16 e na madrugada de 17 de agosto  de 1922, em Moscou e São Petersburgo. No dia seguinte, em cidades da Ucrânia. Mais de 100 intelectuais foram presos, mas as detenções continuaram até setembro. Não é mistério por que, todos foram considerados culpados. 

Em 30 de agosto, o comissário de Assuntos Exteriores, Leon Trotsky, enviou uma mensagem ao Ocidente em entrevista a um jornalista estrangeiro publicada no Pravda, o diário oficial, na qual toca de leve no assunto com um comentário sobre a saída forçada: “Esses elementos que serão enviados ao estrangeiro são, do ponto de vista político, intranscedentes em si mesmos... Espero que não se neguem a reconhecer nossa prudente humanidade”. O jornal ampliou a notícia no dia seguinte. Sem explicitar os nomes dos afetados, explicava à opinião pública que a expulsão era o “primeiro aviso” à intelligentsia contrarrevolucionária. Os vapores da clemência de Lenin levariam a maioria de seus adversários de uma vez.

Em 29 de setembro de 1922, o barco alemão Oberbürermestier Hacken deixou o porto de Kronstadt com destino à cidade alemã de Stettin. Outro vapor, o Preussen, faria o mesmo no dia 16 de novembro, levando mais de meia centena de intelectuais. A maioria jamais voltou. Durante o embarque, a polícia proibiu que os passageiros levassem consigo joias, ouro e ícones religiosos. Em alguns casos, livros e dicionários foram requisitados – foram considerados patrimônios do país. Em suas memórias, o escritor Mikhail Osorgin conta que aos passageiros era permitido levar apenas um casaco, uma jaqueta de verão, duas camisas, duas calças, duas cuecas e cerca de 20 dólares. Ainda não se sabe o número total de deportados. A cifra mais realista conta entre 160 e 300 pessoas. 


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