A incrível porcalhice do Brasil no século 19

Os nossos hábitos de higiene já foram bem precários

Mary del Priore

Homem com o nariz tampado | <i>Crédito: Shutterstock Images
Homem com o nariz tampado | Crédito: Shutterstock Images

Comer com as mãos, arrotar, defecar ou urinar publicamente são hábitos banidos de nosso convívio. Porém, as práticas em torno das necessidades fisiológicas, assim como o uso da água e da indumentária, percorreram uma longa estrada antes de serem adestradas. E a educação do corpo teve que se dobrar às fórmulas de contenção, contrariando o desejo e os apelos da “natureza”. “Lavado”? Significava “limpo com água ou outro licor”! A palavra “higiene”, por exemplo, não constava nos dicionários do século 19, momento em que muitos viajantes estrangeiros passaram por aqui. Nem por isso o tema lhes passou despercebido. Casas? Essas eram “repugnantemente sujas”, segundo a inglesa Maria Graham. Ainda piores eram as cozinhas, fossem de pobres ou de ricos: “Um compartimento imundo, com chão lamacento, desnivelado, cheio de poças d’água, onde em lugares diversos armam fogões, formados por três pedras redondas onde pousam as panelas de barro em que cozinham as carnes”, horrorizou-se John Mawe.

Raramente o interior das habitações era limpo. Quando muito, era varrido com uma vassoura de bambu. Água no chão? Nunca. As paredes, apenas caiadas, tornavam-se amarelas. A fim de tornar os quartos toleráveis e deles expulsar o mau cheiro, costumava-se queimar plantas odoríferas. Tais odores também mantinham afastados os “atacantes invisíveis”: mosquitos, baratas e outras imundícies. No Colégio Jesuíta do Maranhão, os reverendos padres preferiram espalhar vasos com “cheiros”, ou seja, com ervas aromáticas, com o mesmo objetivo, conta-nos J. P. Bettendorf. Os penicos estavam em toda parte, e seu conteúdo, sempre fresco, era jogado nas ruas e praias. Acostumado aos “gabinetes à inglesa”, o comerciante inglês John Luccock queixava-se que entre as piores inconveniências domésticas havia certa “tina destinada a receber todas as imundícies e refugos da casa, que, nalguns casos, é levada e esvaziada diariamente, noutros, somente uma vez por semana, de acordo com o número de escravos, seu asseio relativo e pontualidade, porém sempre carregado, já sobremodo insuportável”. 

Ao ar livre

Até encher, tais perfumadas tinas ficavam isoladas no compartimento chamado “secreta”. Quando chovia, eram esvaziadas nas ruas. O monturo secava sob o sol. E varredores de rua não existiam! Os “esterquilínios” – como os chamou o bem-humorado Ernani da Silva Bruno – eram facilmente reconhecidos: cobriam-se de uma espécie de cicuta, planta popular conhecida como erva-salsa.

Jean-Baptiste Debret deixou, também, suas impressões sobre os “potes”: “De barro cozido e de forma oblonga, tem mais o caráter indígena. É em geral de três palmos de altura. Suas funções vergonhosas fazem com que esteja sempre escondido num canto do jardim ou do pequeno pátio contíguo à casa, colocado atrás de uma cerca de trepadeiras ou simplesmente escondido por duas ou três taboas apoiadas ao muro. Nas casas mais ricas, ele se dissimula sob um assento de madeira móvel. E, nesse esconderijo, aguarda a hora da ave-maria para, molemente, balançando à cabeça do negro encarregado desse serviço, ser esvaziado numa praia. Antes da partida é previamente coroado por uma pequena tábua ou uma enorme folha de couve, tampa improvisada que se supõe suficiente para evitar o mau cheiro exalado durante o trajeto”.

Quartos? Os sobrados costumavam oferecer um para os pais e camarinhas apertadas para as moças. As janelas pouco se abriam, e não se expunham ao sol as camas úmidas de suor. Na alcova havia mosquiteiro, colchão rijo, travesseiros redondos e “excelentes lençóis”. Sinal de que, apesar da sujeira, a roupa branca era valorizada. Quanto aos habitantes, a maioria deles deambulava pelas ruas vestida com “casacas pretas, velhas e coçadas”. As calças, nos joelhos eram atadas com fivelas de brilhantes-fantasia, as meias eram de algodão nacional, e a cabeça era coberta com “uma peruca empoada sobre que punham um enorme chapéu armado já sebento, geralmente ornado de um tope”. O número de pessoas de aparência respeitável, segundo Luccok, era diminuto.

Poucas roupas

(...) Para fazer visitas, os homens enfiavam-se em tricórnios e grudavam fivelas aos sapatos. Mas em casa mostravam-se “com barba de vários dias e os cabelos pretos em franco desalinho, embora besuntados de gordura e sem roupa alguma sobre sua camisa de algodão. É verdade que esse traje é bem-feito, ornamentado com trabalhos de agulha, especialmente sobre o peito; mas frequentemente o põem de peito aberto e com as mangas arregaçadas até os ombros”. Curtas, as calças deixavam as pernas nuas e “os pés metidos em tamancas. Nada disso é lá muito correto”, ponderava. O hábito de estar semivestido era também observado na hora das refeições: tiravam sapatos, meias e outras “peças que o calor tornasse opressivas, guardando apenas o traje que a decência requer”, reportou Luccok.

Garfos e facas começavam a ser usados, embora fossem de modelo antigo, pequeno e desaparelhado: “Comem muito e com grande avidez e, apesar de embebidos em sua tarefa, ainda acham tempo para fazer grande bulha. A altura da mesa faz com que o prato chegue ao nível do queixo; cada qual espalha seus cotovelos ao redor e, colocando o pulso junto à beirada do prato, faz com que por meio de um movimento hábil o conteúdo todo se lhe despeje na boca. Por outros motivos além deste, não há grande limpeza nem boas maneiras durante a refeição; os pratos não são trocados. Por outro lado, os dedos são usados com tanta frequência quanto o próprio garfo.”

Maus modos

Considera-se como prova incontestável de amizade alguém comer do prato do seu vizinho antes do final da refeição, todos se tornam barulhentos, exagera-se a gesticulação e despedem punhadas no ar, de faca ou garfo, de tal maneira que um estrangeiro pasma que olhos, narizes e faces escapem ilesos”, registrou para concluir mais à frente: “É de observação vulgar que os hábitos pouco limpos costumam seguir de perto a ignorância, poucos vocábulos foram tão empregados quanto sujeira, imundície e expressões sinônimas, mas não é possível fazer-se de outro modo se quisermos de fato representar a situação real e geral do país e de seus habitantes”.

Debret concordaria, pois ficou chocado em constatar que pequenos comerciantes ou homens abastados comiam “com os cotovelos fincados à mesa, enquanto sua mulher, com o prato sobre os joelhos, sentada em sua marquesa com as pernas cruzadas, à moda oriental, comia com as mãos, bem como seus filhos ainda pequenos, que, deitados sobre a barriga ou de cócoras nas esteiras, se enlambuzavam à vontade com “a pasta comida nas mãos”! Guardanapos? Coisa rara, mesmo na casa do governador. Em jantar que lhe foi oferecido, Nicolas de La Caille ironizou: “Na ocasião, deram-nos uns guardanapos quadrados, pequenos e sujos. E esse senhor gabava-se de ser muito rico e especialista na arte de bem-viver”.

Forte odor

Já a sensibilidade olfativa dos colonos estava longe daquela que já se instalara na Europa, junto com a preocupação de “oxigenar os ares” e de banir definitivamente o mau cheiro. Tal movimento suscitava a intolerância em relação aos odores do corpo que entre nós ainda eram plenamente admitidos. Teóricos já advertiam para os riscos de a gordura tapar os poros, retendo “humores” maléficos e “imundícies”, das quais a pele já estava carregada. A película nauseabunda, que os antigos acreditavam funcionar como um verniz protetor contra doenças, na verdade bloqueava as trocas “aéreas” necessárias ao organismo. Essa mudança provocou uma passagem da natureza ao artifício. Os perfumes que remetiam aos odores animais – âmbar, almíscar – saíram de moda por sua violência. Antes, as mulheres os utilizavam não para mascarar seu cheiro, mas para sublinhá-lo. Havia nele um papel sexual que acentuava a ligação entre as partes íntimas e o odor.

Na Europa “civilizada”, a emergência de uma nova forma de pudor ameaçava essa tradição, substituindo-a por exalações delicadas à base de lavanda e rosas. O bidê foi então introduzido na França, tornando-se o auxiliar do prazer. As abluções femininas se revestiam de erotismo. Os talcos perfumados e outros pós, à base de íris, flor de laranjeira e canela, cobriam as partes íntimas. Um simples perfume aguçava a consciência de si, aumentando o espaço entre o próprio cheiro e o dos outros: multidão fedorenta. O odor forte, considerado um arcaísmo, se tornou coisa de roceiras e prostitutas velhas.

Entre nós, o âmbito da higiene íntima feminina, de difícil pesquisa histórica, foi brevemente abordado pelo poeta baiano Gregório de Matos. No final do século 17, ele escreveu sobre a carga erótica do “cheiro de mulher”. Sim, cheiros íntimos agradavam: o do almíscar era um deles. O poeta criticou uma mulher que o seduzira apesar de lavar a vagina antes do ato sexual, maldizendo as que queriam ser “lavandeiras do seu cu”. Certa carga de erotismo dependia do equilíbrio entre odor e abluções, embora houvesse muitos, como o Boca do Inferno, que preferissem o sexo feminino recendendo a “olha” e sabendo a “sainete”; “Lavai-vos, minha Babu, cada vez que vós quiserdes”, cantava o poeta, “já que aqui são as mulheres lavandeiras do seu cu”.

       “Lavai-vos quando o sujeis
E porque vos fique o ensaio
Depois de foder lavai-o
Mas antes não o laveis”
E reclamava:
       “Lavar a carne é desgraça
Em toda a parte do Norte
Porque diz, que dessa sorte
Perde a carne o sal, a graça;
E se vós por essa traça
Lhe tirais o passarete
O sal, a graça, o cheirete,
Em pouco a dúvida topa
Se me quereis dar a sopa
       Dai-me com todo o sainete” 

Banho terapêutico

O cheiro de almíscar ainda agradava por estes lados do Atlântico onde o bidê só aportou no século 19. Mas lavar o corpo com o que? Um pedaço de sabão era bem inestimável. Que o diga certo Baltasar Dias, em 1618, ao ver que fora roubado do seu, transportado com dificuldade na caravela que o trazia da cidade do Porto para Pernambuco, deu de “dizer palavras de cólera e que o Diabo o levasse de seu corpo”, numa explosão de rara fúria. Conclusão? Foi denunciado à Inquisição por blasfêmia.

Banhos? Só em caso de doença. Dom João VI seria o melhor exemplo. Contam biógrafos que, picado por um carrapato na fazenda de Santa Cruz, onde passava o verão, teve a perna inflamada e muita febre. Os médicos lhe recomendaram banho de mar. O rei tinha pavor de ser atacado por peixes ou crustáceos e, por isso, mandou construir uma caixa de madeira, dentro da qual era mergulhado nas águas da praia do Caju, nas proximidades do Palácio de São Cristóvão. A caixa era uma banheira portátil, com dois varões transversais e furos laterais por onde a água do mar podia entrar.

  D Joao VI / Foto: Wikimedia Commons Images

O uso de caixas para banhos era conhecido das cidades europeias, cortadas por rios. Esses mergulhos improvisados na praia do Caju, a conselho médico, são a única notícia que se tem de um banho de dom João nos 13 anos em que permaneceu no Brasil. Ao que tudo indica, o banho de imersão era coisa de estrangeiros no século 18. Coisa de “gosto inglês”, como comentou Juan Francisco de Aguirre, ao observar que apenas nas chácaras sob influência estrangeira se contava surpreendentemente com “lugares para banhos com abundância de água”.

Passadas décadas, Luccock complementou que as abluções não eram “nada apreciadas pelos homens. Os pés são geralmente a parte mais limpa das pessoas. Os rostos, mãos, braços, peitos e pernas, que, todos eles andam muito expostos em ambos os sexos, raramente recebem a benção de uma lavada”.

Urina e vinagre

A sujeira causava doenças de pele. Em sua correspondência com familiares em Portugal, o vice-rei marquês do Lavradio se vangloriava da saúde, acrescentando que “conserva-se bem sem sarnas, nem perebas, moléstia de que aqui padecem todos, e só não tenho escapado aos bichinhos do pé, porque estes me têm perseguido barbaramente”. De origem latino-americana, essa espécie de pulga ganhou nomes populares: zunja, xiquexique, jatecuba.

Habituado à pele mais fina e tenra entre os dedos, era encontrado em currais, chiqueiros e praias. O mercenário alemão Carl Seidler foi uma das vítimas desses “imundos hóspedes”: “Ainda me lembro bem que havia soldados que extraíam de trinta a quarenta saquinhos desse bicho, cheio de ovos, cada um dos quais saquinhos deixava um buraco do tamanho de uma ervilha, extração muito dolorosa, e já no dia seguinte número igual se alojara, notadamente nas unhas e nos calcanhares. Para evitar isso, muitos de nós limitávamos a abrir o saquinho cheio daquela criatura do diabo e lhe deitávamos em cima um pouco de mercúrio”.

A sensibilidade olfativa dos colonos estava longe daquela que já se instalara na Europa, pois mesmo para limpar usavam-se produtos fétidos. Os tintureiros, por exemplo, misturavam urina e vinagre para fixar as cores dos tecidos e couros. Lavava-se roupa com folhas saponáceas e passava-se nela bosta de cavalo para fixar as cores. Para tirar manchas, usava-se “fel de boi” ou cebola bem esfregada. A fabricação de sabão, que, aliás, foi importado da África até 1780, consistia numa mistura de gordura animal e vegetal com um tipo de soda cáustica. Tomavam-se cinzas resultantes da queima de algumas madeiras, e, molhando-as sobre um pano, se deixava que gotejassem lentamente. Sebos e carnes fervidas proviam a gordura animal. Já o uso do coco permitia a fabricação de uma gordura mais leve e refinada. Daí, no entender de alguns autores, a multiplicação de coqueiros, sobretudo na região de Salvador, onde africanos ensinaram aos portugueses a fazer sabão.

Roupa limpa

O mau cheiro dos produtos de limpeza não impedia, contudo, que se tomassem certos cuidados. Contou-nos Debret, em 1816: “As lavadeiras brasileiras, aliás muito mais cuidadosas do que as nossas, têm a vaidade de entregar a roupa não somente bem-passada e arranjada em ordem, dentro de uma cesta, mas ainda perfumada com flores odoríficas”. Asseio não era se lavar, mas vestir roupa limpa. Para combater o mau cheiro das vestes, usava-se a bolsa escrotal do jacaré. “Melhor do que qualquer animal almiscareiro”, recomendava Knivet ou ainda Gandavo: “Qualquer roupa a que chegam os testículos, o cheiro fica pegado por muitos dias”. Mas roupa limpa todos os dias? No caso dos padres jesuítas, a resposta seria não. Só trocavam de camisa às quartas-feiras e aos sábados. Maus modos também eram notados. Defecar e urinar em público, expondo as partes íntimas, chocava os viajantes. Que o diga John Barrow, que registrou o hábito de as mulheres urinarem “descaradamente” nas ruas do Rio. 

M. de la Flotte, em 1759, também estranhou que aqueles mesmos que se autodenominavam “fidalgos”, “título que em Lisboa é usado somente pelas pessoas de qualidade”, “andassem malvestidos, e, muitos, na sombra, estendessem a mão para satisfazer as suas necessidades mais elementares”. Mas o exemplo vinha “de cima”. Eduardo Theodor Boesche, contratado como cadete de cavalaria, com quartel na Praia Vermelha, assistiu a uma cena cujo protagonista principal foi o jovem imperador dom Pedro I: “Ao romper do dia chegavam a cavalo dom Pedro e sua consorte, acompanhados de camaristas e generais. Não há talvez no mundo soldado tão entendido como o Imperador no manejo prático e exercício da espingarda. De resto, seus modos são grosseiros, falta-lhe o sentimento das conveniências, pois vi-o uma vez trepar ao muro da fortaleza para satisfazer uma necessidade natural, e nessa atitude altamente indecorosa assistir ao desfile de um batalhão em continência. Tal espetáculo deixou atônitos a todos os soldados alemães, mas o imperial ator conservou inalterável a calma”.

Até as primeiras décadas século 19, “da higiene pública incumbiam-se as águas da chuva, os raios de sol e os diligentes urubus”, resumiu Capistrano de Abreu. As relações com a higiene e o pudor refletem como os processos civilizatórios modelaram gradualmente as sensações corporais, aumentando seu refinamento, desenrolando suas sutilezas. E, na observação da falta delas, nada escapou aos viajantes. Pelo buraco da fechadura, viam os brasileiros ainda bem longe das “boas maneiras”.


Esta matéria foi extraída de
Histórias da Gente Brasileira, Vol 1, Mary del Priore, 2016.





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