A morte do Ipiranga

Riacho da Independência é hoje um canal de esgoto

Marcelo Duarte

O Ipiranga nos dias atuais | <i>Crédito: Reprodução
O Ipiranga nos dias atuais | Crédito: Reprodução

Uma incômoda diarreia obrigou o príncipe dom Pedro a fazer repetidas paradas ao longo dos 70 quilômetros da viagem de volta de Santos para São Paulo. No dia 7 de setembro de 1822, perto do Riacho do Ipiranga, a tropa parou numa venda, numa área desabitada, para descansar e dar de beber às mulas. Dom Pedro precisava se aliviar.

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Faltavam ainda 5 quilômetros para chegarem a São Paulo, trecho em que passariam por apenas oito casas. Ali, naquele ponto, o príncipe recebeu as cartas do ministro José Bonifácio de Andrada e Silva e da mulher, a princesa Leopoldina, que desencadearam o grito de independência do Brasil de Portugal. Foi assim que um até então inexpressivo riacho (e não rio, por causa do pequeno volume de água) passou pela vida de dom Pedro e entrou para a história brasileira.

O Ipiranga nos dias atuais / Wikimedia Commons

O Ipiranga nasce no Parque do Estado, acompanha importantes avenidas da zona sul de São Paulo – Professor Abrahão de Morais, Ricardo Jafet e Teresa Cristina – até desaguar no Rio Tamanduateí, onde está a Avenida do Estado. A maior parte de seus 9 quilômetros está coberta por concreto. “Ele foi canalizado em 1942, como quase todos os demais riachos e rios da cidade de São Paulo”, explica o historiador Paulo Rezzutti, autor de D. Pedro – A História Não Contada. O responsável pela canalização foi o ex-prefeito Francisco Prestes Maia (1896-1965) e o chamado “Plano de Avenidas”, colocado em prática em sua primeira passagem pelo cargo, entre 1938 e 1945. Antigos leitos de rios foram transformados em avenidas. “Há uma pequena parte do riacho que pode ser vista entre o Parque da Independência e a Avenida Doutor Ricardo Jafet,”, aponta Rezzutti.  O trecho, que poderia ser um cartão-postal da cidade, está sujo e tem cheiro ruim.

Rio vermelho

O único ponto realmente saudável do Ipiranga fica dentro do Parque do Estado, também chamado de Parque das Cabeceiras do Ipiranga ou Parque das Fontes do Ipiranga. Esse grande parque abriga o Jardim Botânico, o Zoológico, o Parque de Ciência e Tecnologia, o Instituto de Botânica e o Observatório de São Paulo. A parte limpa do Ipiranga recebe o nome de Córrego de Pirarungaua. O trecho foi descanalizado em 2006 e recuperado dois anos depois. “Dentro do Jardim Botânico, temos uma trilha suspensa de 360 metros no meio da Mata Atlântica”, explica o diretor do Jardim Botânico Domingos Rodrigues. No final do parque, quando encontra a Avenida Miguel Stéfano, o Ipiranga começa a receber o esgoto de dois córregos. O esgoto doméstico e industrial que é despejado nele torna-o um riacho morto.

Diferente do Ipiranga que cruzava o Caminho do Mar, estrada que ligava São Paulo a Santos. Quem descia ou subia a serra acabava passando pela colina do Ipiranga. “Em tupi-guarani, Ipiranga significa ‘rio vermelho’, por causa da tonalidade escura e barrenta de suas águas”, diz Laurentino Gomes, autor de 1822 – Como um Homem Sábio, uma Princesa Triste e um Escocês Louco por Dinheiro Ajudaram D. Pedro a Criar o Brasil – Um País Que Tinha Tudo para Dar Errado. Na época chamada de Moinhos, a região acabou sendo rebatizada de Ipiranga, justamente em homenagem ao riacho.

O quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo, é a mais famosa imagem do que aconteceu naquele 7 de setembro. Só que o pintor fez uma série de alterações na cena, incluindo até mesmo uma mudança na localização do riacho. Laurentino Gomes explica que foram dados, na verdade, dois “gritos”. O primeiro, mais silencioso, foi uma conversa entre dom Pedro e parte da comitiva. O monarca explicou que proclamaria a independência do Brasil naquele momento. O segundo, um pouco mais solene, aconteceu a 408 metros do riacho. “O grito aconteceu na altura de onde se encontra hoje o Monumento do Ipiranga”, explica Laurentino. Lá, ele disse à guarda de honra – cavalaria e sertanejos – o famoso “Independência ou Morte!”.

Águas sufocadas 

“Na América Latina, convencionou-se chamar de ‘grito’ qualquer proclamação ou declaração pública que anunciasse o movimento independentista”, explica Paulo Rezzutti. “É por isso que, no Brasil, o ato de dom Pedro de separar politicamente o Brasil de Portugal, realizado próximo ao Riacho do Ipiranga, ficou conhecido como o ‘Grito do Ipiranga’.” A São Paulo de 1822 era muito simples – foi apelidada de “formosa sem dote” por um antigo governador. A área urbana era confinada entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, e a população local não ultrapassava os 5 mil habitantes.

O pequeno Ipiranga acabou sufocado com o crescimento da metrópole. Mas nunca foi esquecido. Em 2005, Sadalla Domingos, professor de Engenharia Civil da Universidade de São Paulo, apresentou à prefeitura um projeto de limpeza e revitalização do riacho. A ideia, que nunca saiu do papel, era transformar a região num grande polo turístico, valorizando a história da Independência. Haveria um parque vertical percorrendo toda a extensão do riacho. “Queremos para o Ipiranga o que queremos para todo rio: que ele seja limpo e útil para a população”, proclama Sadalla. “Mas isso requer comprometimento do poder público e mobilização dos cidadãos.”  Mobilização para não deixar uma parte da História do Brasil acabar em esgoto.


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