Acre: A derrota final das cruzadas

Em 1291, a Palestina voltava para mãos islâmicas

Natalia Yudenitsch

A queda da fortaleza em ilustração de 1840 | <i>Crédito: Wikimedia Commons
A queda da fortaleza em ilustração de 1840 | Crédito: Wikimedia Commons

No fim de 1290, a situação no porto mediterrâneo de São João de Acre, hoje a cidade israelense conhecida como Akko, estava para lá de tensa. Baybars, um sultão mameluco do Egito, já havia reduzido o reino de Jerusalém, o mais importante estado cristão estabelecido pelos cruzados, a uma pequena faixa de terra entre Sidão e Acre em 1268. 

A paz era precariamente mantida pelos esforços do rei Eduardo I da Inglaterra, apoiado pelo papa Nicolau IV. Só foi preciso que um grupo de soldados italianos se metesse numa encrenca com camponeses muçulmanos para que o delicado equilíbrio que mantinha a região sob controle fosse pelos ares. Os italianos católicos encerraram a pendenga degolando os islâmicos e eliminando na mesma leva outro tanto de sírios cristãos. 

Quando a história da matança chegou aos ouvidos do sultão egípcio al-Ashraf Jalil, ele imediatamente exigiu a cabeça dos assassinos. Pega em meio a uma disputa pela sucessão do trono de Jerusalém, Acre disse não ao sultanato. Em abril de 1291, a cidade acordou cercada por mais de 200 mil soldados muçulmanos. A cristandade correu em socorro de um de seus pontos mais estratégicos na Terra Santa. Cavaleiros hospitalários, teutônicos e templários, somados a tropas inglesas e italianas, partiram para defender o porto. Só que aí já era tarde demais. Em 18 de maio, as forças turcas e egípcias tomaram oficialmente a cidade. Caía o último bastião dos europeus e, com ele, o sonho que por anos alavancou as cruzadas para o Oriente. 


As várias faces de Acre


A fortaleza hoje em dia / Wikimedia Commons

• A cidade de Acre hoje é considerada um Patrimônio Mundial pela Unesco
• Arqueólogos encontraram uma complexa teia de construções sob a cidadela da cidade, que revelaram ser antigas instalações dos Cavaleiros Hospitalários
• A antiga Acre tinha bairros residenciais e comerciais, incluindo padarias, refinarias de açúcar (uma novidade na época) e grandes mercados e praças
• A mesma cidadela foi usada pelos ingleses, na década de 1940, como prisão e local de execução
• Em 1799, Napoleão Bonaparte tentou tomar Acre, mas foi rechaçado pelos turcos


➽ “Para entender a importância de Acre nesse período, é preciso voltar à sua época dourada, logo após sua tomada, em 1104, por um dos líderes da Primeira Cruzada, Balduíno de Boulogne, mais tarde coroado como o primeiro monarca do reino latino de Jerusalém”, diz Norman Edbury, professor de história medieval da universidade de Oklahoma, nos EUA. “A cidade era um dos mais importantes centros comerciais do mundo medieval, o maior porto da costa da Palestina. Acre era bastante próspera e civilizada, recebendo comerciantes italianos, bizantinos, africanos e egípcios. 

Sua localização geográfica, ao norte da baía de Haifa, a tornava um canal de comunicação entre o Oriente e o Ocidente e foi muito utilizada pelos cruzados entre os séculos 11 e 13.” Além de ser um centro econômico e político estratégico, Acre, como capital do reino de Jerusalém, tinha ainda um grande valor simbólico para três grandes religiões: a cristã, a judaica e a muçulmana. Sua população chegava a 25 mil habitantes – cerca de 10% de todo o reino. Somados todos os interesses, a cidade trocou de mãos várias vezes desde sua fundação, por volta de 1500 a.C., pelos cananeus, sendo ocupada por assírios, romanos, bizantinos, muçulmanos e cristãos.

Acre nas cruzadas

O período mais turbulento da vida do porto, contudo, foi durante as Cruzadas, quando foi batizado de São João de Acre. O primeiro revés ocorreu pelas mãos do sultão egípcio Saladino, em 1187, na Batalha de Hattin. Do lado cristão, as tropas do francês Guy de Lusignan, o rei consorte de Jerusalém, e o príncipe da Galiléia Raimundo III de Trípoli. Ao todo, havia cerca de 60 mil homens, entre cavaleiros, soldados desmontados e mercenários muçulmanos. Já a dinastia aiúbida, representada por Saladino, contava com 70 mil guerreiros. Quando os cruzados montaram acampamento em um campo aberto, forçados a descansar após um dia de exaustivas batalhas, os homens de Saladino atearam fogo em volta dos inimigos, cortando seu acesso ao suprimento de água fresca. A cortina de fumaça tornou quase impossível para os cristãos se desviar da saraivada de flechas muçulmanas. 


Glossário

• Mamelucos ➽ Soldados escravos utilizados pelos califas do Império Otomano
• Califas ➽ Líder da ummah (comunidade islâmica) a partir de 632
• Sultão ➽ Título do monarca muçulmano adotado pelos otomanos a partir de 1055
• Cruzados ➽ Cavaleiros cristãos da Idade Média, participantes das Cruzadas
• Haute Cour ➽ Alto Conselho feudal do reino de Jerusalém
• Estados cruzados ➽ Como eram chamadas as unidades políticas dos territórios conquistados pelos cruzados (os quatro Estados Latinos no Oriente eram Jerusalém, Edessa, Antióquia e Trípoli)
• Krak ➽ Forte, fortificação, em árabe
• Terra Santa ➽ Refere-se aos territórios da Palestina e de Israel
• Aiúbidas Integrantes de uma dinastia muçulmana de origem curda fundada por Saladino


➽ Sedentos, muitos cruzados desertaram. Os que restaram foram trucidados pelo inimigo, já de posse do porto. “Em um de seus famosos momentos de clemência, Saladino poupou a vida de Guy, enquanto Raimundo escapou da batalha com sucesso. Com a cidade tomada, o sultão restaurou a fé islâmica e reforçou o sistema defensivo, formado por muralhas que envolviam o porto”, afirma John Hildebrand, professor de história medieval da Universidade de Edimburgo, na Escócia.

O gesto magnânimo de Saladino, porém, custaria caro. Em 1189, Guy de Lusignan tentou reconquistar a cidade, num conflito que duraria anos e só seria resolvido com a chegada de um novo personagem: Ricardo Coração de Leão, o rei da Inglaterra. Foi ali, na Terceira Cruzada, em 1191, que o rei Ricardo fez sua fama de guerreiro e conquistou o título de Coeur de Lion (Coração de Leão, em francês) ao garantir a volta de Acre às mãos da cristandade. 

Apesar de inimigos e de nunca ter se encontrado, Saladino e Ricardo Coração de Leão se respeitavam. Trocaram presentes e honrarias, culminando num acordo que deixou Jerusalém em mãos muçulmanas. Isso transformou São João de Acre na grande capital dos Estados Latinos na Terra Santa. Seu porto recebeu peregrinos e guerreiros cruzados, como o rei Luís IX da França na Sétima Cruzada, em 1250. Seu retorno à Europa quatro anos depois e a posterior morte durante a Oitava Cruzada deixaram uma lacuna na sucessão do reino de Jerusalém. Sem proteção, a cidade de Acre foi enfraquecida por Baybars. Até que finalmente cedeu, em 1291, às investidas dos mamelucos egípcios. Depois disso, o porto conheceu a decadência, passando posteriormente para o domínio turco otomano e finalmente sendo anexado a Israel em 1948.


Linha do Tempo: A briga por Acre

• 1.500 a.C. ➽ Fundação de Acre pelos cananeus
• 638 d.C. ➽ Muçulmanos conquistam a cidade liderados pelo califa Omar I
• 1104 Balduíno I toma Acre na Primeira Cruzada, e cria o Reino Latino de Jerusalém
• 1148 ➽ A Haute Cour se reúne em Acre e decide assalto a Damasco
• 1187 ➽ O sultão Saladino toma posse de Acre, na Batalha de Hattin
• 1189 ➽ Guy de Lusignan, o rei consorte de Jerusalém, tenta retomar Acre
• 1191 ➽ Ricardo recupera Acre, agora a capital do Reino de Jerusalém
• 1229 ➽ A Ordem dos Hospitalários ocupa e assume a proteção de Acre
• 1244 ➽ A cidade de Jerusalém é tomada pelos cristãos
• 1250 ➽ Luís IX da França se estabelece na cidade na Sétima Cruzada
• 1268 ➽ O sultão Baybars reduz Jerusalém a um pedaço do litoral palestino
• 1291 ➽ A queda de Acre pelos mamelucos egípcios põe fim aos Estados Latinos na Terra Santa.
• 1517 ➽ Otomanos tomam a cidade sob o comando do sultão Selim I
• 1840 ➽ Acre é bombardeada pelas tropas aliadas britânicas, austríacas e francesas
• 1948 ➽ Acre passa a fazer parte do recém-formado Estado de Israel


Para saber mais
Acre 1291 – the Final Battle for the holy Land, David Nicolle, Osprey, 2005
Acre: the Rise and Fall of a Palestinian City, Thomas Philipp, Columbia University Press, 2001
Os Templários, Piers Paul Read, Imago, 2000

 


VEJA MAIS:

Conecte-se

Revista Aventuras na História