Ana Bolena: Adúltera de verdade?

Teria a rainha decapitada por Henrique VIII pulado mesmo a cerca? Historiador acha que sim - mas por desespero

Carin Homonnay Petti

Ana Bolena | <i>Crédito: Domínio Público
Ana Bolena | Crédito: Domínio Público

Por ela, o rei Henrique VIII abandonou sua mulher, Catarina de Aragão. Por ela, o monarca rompeu com a Igreja Católica. Por ela ainda, o herdeiro dos Tudors fundou uma nova religião, a Igreja Anglicana. Também por essa mulher, o homem mais poderoso da Inglaterra do século 16 sujou as mãos de sangue. Em 1536, três anos após casar-se com o rei e provavelmente com 35 anos, Ana Bolena acabou decapitada, sob a acusação de adultério com cinco homens - entre eles, o próprio irmão.

Não é de estranhar que a vida de Ana, tão cheia de intrigas de alcova, sexo, mortes, mentira e traição, seja, séculos depois, ainda popular no cinema, na internet e na literatura, com mais de 40 biografias publicadas. A mais polêmica versão, com doses maiores de sexo e menores de conspiração, Anne Boleyn: Fatal Attractions ("Ana Bolena: Atrações Fatais") mostra uma visão diferente da rainha. 

Na contramão do que alega a grande maioria dos historiadores contemporâneos, partidários da inocência da rainha, o autor George Bernard, professor da Universidade de Southampton, na Inglaterra, acredita que ela pode ter mesmo pulado a cerca. E até três vezes, talvez por causa da desesperada tentativa de conseguir um herdeiro do rei. O pesquisador contesta a visão de que a mais famosa dos Bolenas tenha sido vítima de uma armação, seja por parte de Henrique VIII, interessado em ter um filho homem (que ela não dava), seja por parte de nobres inimigos, em busca de mais poder.

Para chegar a essa conclusão, Bernard baseia-se principalmente em um poema de 1536, escrito por Lancelot de Carles, diplomata francês na Inglaterra. Segundo um dos trechos, a infidelidade da rainha veio à tona por acaso, numa discussão entre uma de suas damas de companhia, a condessa de Worcester, e o irmão, que a acusava de adultério. Na tentativa de se defender, a condessa teria alegado que suas escapadas não eram nada se comparadas às da rainha - ela, sim, ia para cama não só com um músico da corte, mas com o próprio irmão. Pronto, estaria engatilhado o processo que custou a vida de Ana e a de seus cinco supostos amantes. Entre eles, o músico da corte Mark Smeaton, o único réu confesso. Interrogado, disse que dormiu três vezes com a rainha.

Ana menina

Ana nasceu entre 1500 e 1507. Não se sabe ao certo. Filha de um embaixador, cresceu entre as mais sofisticadas cortes da época. Morou no palácio de Margarida da Áustria, regente dos Países Baixos, e, perto dos 20 anos, foi dama de companhia da rainha Claudia, na França, onde se apaixonou pelos costumes locais.

Em 1521, foi chamada de volta à Inglaterra por causa dos crescentes desentendimentos entre Henrique VIII e o rei francês Henrique I. No ano seguinte, o inglês declararia guerra à França, de olho em territórios do outro lado do canal da Mancha e no controle de portos no mar do Norte. Ana logo se tornou uma dama de companhia da futura rival, a rainha Catarina de Aragão. Acabou fisgando o coração do nobre Henry Percy. "O amor entre os dois era tão grande que resolveram se casar", contou, então, George Cavendish, servo do todo-poderoso cardeal Thomas Wolsey. Mas o religioso proibiu o namoro. Teria sido uma exigência do rei, já apaixonado por ela.

Na época, o cobiçado papel de amante do monarca era de sua irmã mais velha, Mary. Com fama de difícil, Ana teria resistido por cinco anos às investidas de Henrique VIII. Acabou parando na cama real depois de arrancar a promessa de casamento. Determinada, não se contentava como amante. Outra versão, defendida por George Bernard, é que o soberano resistiu aos encantos dela. Ele temia que, se o caso ganhasse evidência, seriam frustradas as negociações com o papa para o tão desejado divórcio, baseadas até então em argumentos teológicos. Bernard diz que o rei era íntimo de Ana e poderia ter feito sexo com ela se quisesse. Numa das cartas de Henrique a Ana, por exemplo, ele dizia acreditar que logo beijaria os seios dela.

Henrique VIII / Foto: Domínio Público 

Durona ou não, acabou sob os lençóis do rei. No início de 1533, descobriu que estava grávida de sua única filha, a futura rainha Elizabeth I. Com a barriga inesperada, a dupla casou-se em segredo. Meses depois, em 23 de maio, Thomas Cranmer, o novo arcebispo de Canterbury, deu o sinal verde para o divórcio entre o monarca e Catarina. Ana finalmente ganhava direito à coroa. No domingo 1º de junho, em trajes de veludo roxo, ela foi coroada com toda a pompa na abadia de Westminster.

Entre tantas versões da vida de Ana, as maiores polêmicas são seu papel na corte e o fato de ter ou não traído Henrique. "Ela é culpada apenas de comportamento inadequado com os cortesãos", diz o historiador Peter Marshall, professor da Universidade de Warwick. Seu principal argumento é que a traição não foi confessada pela rainha nem por quatro de seus cinco supostos amantes. "Com medo do castigo divino, os criminosos quase sempre admitiam o delito até minutos antes de morrer. Se fosse culpada, ao insistir em sua inocência, Ana estaria cometendo perjúrio não só aos olhos dos homens, mas aos de Deus. E qualquer pessoa do século 16 acreditaria que isso levaria à condenação eterna."

Filho homem

O historiador Estevão Martins, da Universidade de Brasília, afirma que o rei se desinteressou por Ana quando ela não produziu um herdeiro homem (o que tampouco havia feito Catarina): "Esse era um motivo para grandes conflitos constitucionais na hora da sucessão". E cita agravantes. Ana enfrentava a resistência de facções políticas, como a nobreza escocesa católica, supostamente disposta a alimentar acusações de adultério. "Eles queriam vê-la morta porque eram contrários à criação da Igreja Anglicana."

Também fala em armação Edmilson Martins Rodrigues, professor de história moderna da PUC-RJ. "Henrique VIII se livrou de Ana porque precisava de apoio de grupos da alta nobreza, inimigos da rainha", diz. O soberano havia distribuído terras confiscadas da Igreja Católica para a pequena nobreza, responsável pela produção agrícola. Queria, assim, levar o grupo ao Parlamento e ganhar força política. Depois, mudou de ideia e voltou a buscar o apoio da alta nobreza. E Ana era alinhada ao primeiro grupo. Há também quem defenda que por trás das acusações estava Thomas Cromwell, o mais importante ministro da corte. Ele e a rainha teriam se desentendido quanto aos rumos do confisco das terras da Igreja e da política externa (Cromwell queria se aliar ao Sacro Império Romano-Germânico e ela preferia a França). Essa é a tese de Eric Ives, um dos mais renomados biógrafos de Ana.

Por conspiração, adultério ou uma combinação dos dois fatores, o fato é que ela acordou cedo na sexta feira, 19 de maio de 1536. Antes de amanhecer, assistiu à sua última missa. Por volta das 8 horas, caminhou até o cadafalso da Torre de Londres. Em suas últimas palavras, encomendou a alma a Deus. Ainda elogiou o rei, provavelmente tentando evitar perseguições a sua família. Foi vendada e decepada a golpe de espada. Dez dias depois, Henrique VIII casou-se com a amante Jane Seymour - união que lhe rendeu o tão esperado herdeiro, o futuro rei Eduardo VI. O soberano ainda teve três outras mulheres, até morrer, em 1547.


Negócio rentável

Ser amante de rei era um negócio e tanto há alguns séculos. A função rendia títulos, presentes e polpudas mesadas. Algumas das eleitas também tinham um enorme poder político. Não é para menos que muitas famílias encorajavam suas rebentas a dividir os lençóis com o monarca da vez. Entre os Bolenas, não foi diferente. "O pai jogou suas duas filhas, Mary e Ana, na cama de Henrique VIII", diz o historiador Estevão Martins. "Naquela época, mulheres e filhas serviam de moeda de troca nos jogos de interesse da corte." Embora na praça desde o começo da realeza, as amantes tiveram seu apogeu nos séculos 16, 17 e 18 - quando eram "obrigatórias" aos monarcas franceses, ingleses e alemães, diz Eleanor Herman no livro Sexo com Reis - 500 Anos de Adultério, Poder, Rivalidade e Vingança. Uma das mais poderosas representantes da safra foi Diane de Poitiers, amante do rei francês Henrique II. Em meados do século 16, ela nomeou ministros e criou impostos. Dois séculos depois, com a Revolução Francesa, as queridinhas da realeza perderam lugar sob os holofotes. Com a moral dos novos tempos, as aventuras amorosas ganharam ares mais discretos.


Saiba mais
Livro Anne Boleyn: Fatal Attractions, George Bernard, 2010.



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