As sete guerras de Israel

Com sete confrontos militares, Árabes e Israelenses brigam desde o primeiro dia em que Israel foi criado.

Ricardo Bonalume Neto

A Guerra dos seis dias | <i>Crédito: Reprodução
A Guerra dos seis dias | Crédito: Reprodução

1. Guerra da Independência

Definida a partilha da Palestina, os judeus precisaram de apenas seis meses para declarar sua independência. Em 14 de maio de 1948, foi fundado o Estado de Israel. No mesmo dia, tropas do Egito, Jordânia, Síria e Iraque atacaram. Começava o mais sangrento de todos os conflitos entre árabes e israelenses até hoje. Algo entre 6 mil e 10 mil soldados de Israel morreram (mais de 1% da população daquela época).

A milícia de autodefesa Haganah havia se transformado na força armada do Estado judeu. Como não havia muitos blindados e veículos militares, aquela foi uma guerra caracterizada por combates de infantaria. Os israelenses eram obrigados a recorrer ao contrabando para conseguir armas. Mas a Tchecoslováquia, que àquela altura ainda não tinha se transformado em um país comunista, fornecia legalmente grande quantidade de fuzis e caças Avia S-199.

Dada a situação relativamente precária das forças militares de Israel, o ataque poderia ter destruído o país antes mesmo de ele sair do berço. Mas a falta de coordenação entre as ofensivas árabes permitiu que os israelenses administrassem todos os problemas, um de cada vez. Os ataques inimigos mais bem sucedidos foram feitos pelos jordanianos, cujas tropas eram as mais eficientes entre as dos países árabes envolvidos no conflito. A Jordânia capturou a parte leste de Jerusalém, enquanto o Egito ocupou um pedaço de território na costa do Mediterrâneo – a Faixa de Gaza.

Ao final de quase nove meses de combates intensos, Israel havia aumentado em 23,5% o tamanho de seu território. Jerusalém, no entanto, estava dividida. A Jordânia, além de ficar com o controle sobre a parte oriental da cidade, anexou todo o território situado à margem oeste do rio Jordão – a Cisjordânia. A Guerra da Independência deu origem a um problema que até hoje frequenta as primeiras páginas dos jornais: pelas contas da ONU, naquela oportunidade, aproximadamente 700 mil palestinos dos territórios ocupados por Israel refugiaram-se nos países vizinhos.

2. Guerra de Suez

Em julho de 1956, o então presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, nacionalizou o canal de Suez, tirando-o do controle de franceses e britânicos. Ao mesmo tempo, Nasser incentivava os refugiados palestinos a promover ações terroristas contra Israel. França e Grã-Bretanha decidiram, então, atacar o Egito para retomar o canal. E recrutam Israel para a empreitada. A ideia era que os israelenses atacassem primeiro, pois isso serviria como pretexto para que franceses e britânicos iniciassem uma intervenção.

Menos de três meses depois, em outubro daquele ano, começava a Guerra de Suez – a primeira entre o Estado de Israel e seus vizinhos árabes em que veículos militares blindados tiveram um papel preponderante. A ponta-de-lança israelense era formada por cerca de 200 tanques, a maioria modelos Sherman, de fabricação americana (os mesmos que atuaram de maneira decisiva na Segunda Guerra Mundial).

O Egito, àquela altura, começava a receber armamentos modernos da URSS, como o tanque T-34 (espinha dorsal do Exército Vermelho também na Segunda Guerra Mundial). Mas a Força Aérea de Israel já contava com aviões mais modernos, principalmente franceses. O ataque as forças egípcias no deserto de Sinai foi uma operação relâmpago: em aproximadamente 100 horas, quase toda a península foi tomada.

Com o fim do conflito, uma Força de Paz da ONU – incluindo tropas brasileiras – foi deslocada para a região. Aquela seria a garantia de que os egípcios não voltariam a atacar os israelenses e deixariam de patrocinar o terrorismo. Israel abandonou o Sinai. Mas no dia 22 de maio de 1967, Nasser ordena o bloqueio do estreito de Tirã, no Mar Vermelho, fechando uma importante rota comercial israelense – pela qual passava, por exemplo, a maior parte das importações de petróleo rumo ao porto de Eilat. Os inimigos de Israel fechavam o cerco novamente. E mais uma guerra estava prestes a estourar.

3. Guerra dos Seis Dias

“Por duas ou três semanas antes da Guerra dos Seis Dias, os israelenses compartilharam uma profunda sensação de angústia e temor, como só uma nação de refugiados pode sentir, até a medula de seus ossos.” Assim o escritor israelense Amos Elon traduziu em palavras o sentimento da população de Israel à véspera desse conflito. Em meados de 1967, uma aliança formada por Egito, Jordânia e Síria já estava pronta para invadir e destruir Israel. Prevendo uma agressão militar iminente, os israelenses resolveram atacar primeiro.

No papel, os árabes tinham mais que o dobro ou o triplo de soldados, canhões, tanques e aviões. Mas a ofensiva-surpresa de Israel pegou seus inimigos no “contra-pé”. A Guerra dos Seis Dias, ainda hoje, é estudada em academias militares do mundo todo, dado o brilhantismo do ataque israelense – especialmente o de aviação. Foram destruídas centenas da aviões inimigos antes mesmo que eles pudessem decolar. Só no primeiro dia da guerra, os árabes perderam cerca de 350 aeronaves.

Israel tomou dos jordanianos todo o território da Cisjordânia. E mais: assumiu o controle do setor oriental de Jerusalém. Para os judeus, aquela vitória tinha um significado muito mais que especial. Quase 2 mil anos depois de serem expulsos de lá pelos romanos, 22 anos depois do Holocausto e 19 anos depois da fundação de Israel, os judeus recuperavam o Muro das Lamentações – local mais sagrado do judaísmo. Em seguida, os israelenses levaram o combate até os sírios. Em uma rápida campanha, as colinas de Golã foram tomadas.

O Egito terminou esta guerra com saldo aproximado de 10 mil mortos, 20 mil feridos e 5,5 mil soldados capturados. Mais de 500 tanques egípcios foram destruídos, sem contar a grande quantidade de equipamento que acabou caindo nas mãos dos israelenses: 300 tanques e outros 10 mil veículos. A Jordânia sofreu aproximadamente 6 mil baixas e a Síria, outras mil. Israel contabilizou “apenas” 764 mortos.

4. Guerra de Atrito

Depois da Guerra dos Seis Dias, o canal de Suez foi fechado para a navegação. O Egito dominava uma de suas margens, enquanto Israel controlava a outra. Esse foi o foco da chamada Guerra de Atrito, uma espécie conflito militar em câmera lenta. Israelenses e egípcios duelavam com artilharia, aviões e ataques de forças especiais.

Um dos episódios mais marcantes dessa guerra ocorreu no dia 21 de outubro de 1967, quando o Egito atacou o destróier israelense Eilat. Dois barcos lança-mísseis egípcios da classe Komar, de fabricação russa, dispararam quatro mísseis Styx, dos quais três acertaram a embarcação. Esse ataque levaria a Marinha israelense a investir mais recursos no desenvolvimento de tecnologia militar, criando, por exemplo, o poderoso míssil mar-mar Gabriel. Com ele, Israel daria o troco na guerra que viria a seguir, afundando uma grande quantidade de barcos egípcios e sírios.

5. Guerra do Yom Kippur

Em 1973, foi a vez da Guerra do Yom Kippur – batizada com esse nome por ter sido deflagrada no dia 3 de outubro, que marca o início do Kippur – uma das datas mais importante do calendário judaico. Israel foi pego de surpresa e pagaria um preço elevado pela autoconfiança cristalizada após a Guerra dos Seis Dias. “Esse conflito acabou com aquelas curiosas férias da realidade, uma euforia em que muitos de nós flutuávamos depois do conflito de 1967”, diz o escritor Amos Elon.

A morte de Nasser, em 1970, não evitou mais uma guerra entre árabes e israelenses. Seu sucessor, Anuar Sadat, manteve os planos de ataque. O Egito atravessou o Canal de Suez enquanto a Síria invadiu as colinas de Golã. A estratégia árabe era usar foguetes para neutralizar os ataques conjugados de Israel – por terra, com tanques de guerra, e pelo ar, com a aviação de combate. Mísseis soviéticos como o Sagger destruíram dezenas de blindados israelenses, brecando as primeiras contra-ofensivas. E um complexo sistema de defesa antiaérea conseguiu anular a Força Aérea de Israel.

Mas a “quantidade” árabe acabou superada pela “qualidade” israelense. Na noite de 15 para 16 de outubro, uma genial jogada estratégica impediu a vitória do Egito no Sinai. Uma força israelense de tanques e infantaria blindada cruzou o canal de Suez e cercou o Terceiro Exército egípcio. Ao mesmo tempo, Israel avançou na direção de Damasco. EUA e URSS, mais uma vez, pressionaram por um cessar-fogo – que entrou em vigor no dia 24 daquele mesmo mês. Ao contrário do que ocorrera na Guerra dos Seis Dias, desta vez os árabes – especialmente os egípcios – não sofreram uma derrota humilhante, o que facilitaria um acordo. Com intermediação americana, Israel e Egito assinariam um tratado de paz em março de 1979.

6 e 7. Guerras do Líbano

Como o Egito – o mais poderoso país árabe – agora estava em paz com Israel, restou aos demais oponentes do Estado judeu o recurso “assimétrico” do terrorismo. Em 1978, os israelenses invadiram o sul do Líbano, na tentativa de estancar os ataques terroristas que vinham de lá. Quatro anos mais tarde, em junho de 1982, Israel voltou a empreender uma ofensiva militar em território libanês – desta vez, para expulsar a OLP de Yasser Arafat. Os ataques ao Líbano, no entanto, acabariam criando mais problemas. O maior deles é o Hezbollah, grupo islâmico que não esconde seu objetivo fundamental: varrer Israel do mapa.

Paralelamente, os israelenses seriam obrigados a lidar com mais uma encrenca de origem árabe – desta vez, dentro de suas próprias fronteiras. Palestinos estabelecidos nos territórios ocupados da Cisjordânia e da Faixa de Gaza deram início, em 1987, a uma rebelião popular que ficaria conhecida como a Primeira Intifada e só terminaria em 1993. Outra revolta – a Segunda Intifada – explodiria sete anos mais tarde.

Israel pôs fim a ocupação do território libanês em 2000. Mas uma nova série de combates com o Hezbollah teve início em 2006 – a Segunda Guerra do Líbano. Muito da infra-estrutura reconstruída pelo Líbano depois da primeira ocupação foi posta abaixo novamente, em ataques cujo objetivo era eliminar guerrilheiros. Nos 32 dias de conflito, 4 mil mísseis Katyusha foram disparados contra Israel.


Parceiros de front

“Troco três dos meus melhores generais por Moshe Dayan”, diz o presidente americano Richard Nixon para Golda Meir. A premiê israelense responde: “OK, quero General Motors, General Electric e General Dynamics”. Essa é apenas uma piada famosa em Israel, mas que revela como líderes desse porte jamais teriam preço. Dayan era considerado um gênio da estratégia militar. Muitas das táticas que levaram Israel a uma vitória arrasadora na Guerra dos Seis Dias são atribuídas ao general. Nascido em 1925, aos 14, ele já estava pegando em armas pela causa judaica, ao engrossar as fileiras da milícia Haganah. Durante o governo de Golda Meir (1969-1974), comandou o Ministério do Defesa, ajudando-a a enfrentar a Guerra do Yom Kippur. Meir nasceu na Ucrânia, em 1898, e emigrou para a Palestina em 1921. O primeiro passaporte emitido pelo Estado de Israel foi para ela. Com o documento em mãos, viajou imediatamente para os EUA, onde tratou de angariar fundos para o financiamento da guerra que eclodiu logo no primeiro dia de vida do país.

 

O general Moshe Dayan / Foto: Wikimedia Commons Images


Saiba mais
Revista Aventuras na História 169 - Guerra dos Seis Dias. Edição junho de 2017.

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