Assalto ao trem pagador: O crime compensa

Após ação espetacular, bandidão fugiu para o Brasil - e se tornou celebridade

Celso Miranda

Ronald Biggs, um dos líderes do assalto | <i>Crédito: Arquivo nacional de Londres
Ronald Biggs, um dos líderes do assalto | Crédito: Arquivo nacional de Londres

Pouco antes das 19h de 7 de agosto de 1963, uma composição parte de Glasgow, na Escócia, com destino a Euston, no Reino Unido. O TPO ("Travelling Post Office") não era um trem comum, não carregava passageiros. Em seus vagões estavam distribuídos 70 funcionários dos correios e somente um guarda. Um maquinista e o foguista seguiam na locomotiva. O vagão imediatamente atrás da locomotiva, o chamado HVP ("High Value Package"), carregava os pacotes de alto valor enviados semanalmente aos bancos de todo o país. Eles continham dinheiro, a maior parte notas usadas de pequeno valor, para ser distribuído e cobrir as reservas de cada agência. Naquela noite, graças a um feriado bancário na Escócia, a carga do vagão estava ainda mais valiosa. E não eram só os homens responsáveis pelos malotes que sabiam disso.

A 45 quilômetros de um dos pontos onde o trem passaria mais tarde, um grupo aguarda ansioso por ação. Chefiando o bando estava Bruce Reynolds, um conhecido ladrão de jóias londrino que gostava de boa vida e dirigia um Aston Martin, carro eternizado por James Bond nos cinemas. Bruce tornou-se um ladrão de lojas ainda adolescente. Aos 16 anos já estava em um reformatório e, aos 21, na temida prisão de Wandsworth, conhecida como “fábrica do ódio”. Bruce dedicou dez anos a realizar roubos lucrativos, incluindo a folha de pagamento de um aeroporto apenas um ano antes. Para aquela noite, na região rural a 200 quilômetros de Londres, ele planejou o maior de todos.

Planejamento de meses

O bando reunido por Bruce era formado por alguns conhecidos criminosos de Londres, como Charlie Wilson, Ronnie Biggs (nome de guerra de Ronald Arthur Biggs) e Buster Edwards. Na turma, a participação surpreendente de Roy James, um jovem que, embora nem de todo inocente (já havia sido preso nos anos 50), agora era um bem-sucedido piloto de corridas, tendo vencido nove das últimas 16 provas da Fórmula Junior Inglesa. Três dias antes, esse apaixonado por velocidade batera o recorde de melhor volta em Aintre.

Bruce Reynolds / Domínio publico

Pouco depois da meia-noite, o trem chega à estação de Crewe, na Inglaterra, para a troca de operadores. Jack Mills, o maquinista assume o comando da locomotiva a diesel D326 ao lado do foguista David Whitby. Logo atrás, no HVP, os malotes seguem acompanhados por Frank Dewhurst, supervisor que trabalhava nos correios havia 12 anos, e outro funcionário da companhia, Les Pen. À meia-noite e meia, Jack Mills coloca o trem em movimento rumo à estação de Euston, em Londres, passando pela região rural de Buckinghamshire.

Enquanto isso, a quadrilha de Reynolds se prepara para interceptar o trem. O grupo verificou os mapas, os relógios e todos os pontos do plano. Sem nenhum alarde, o bando deixa a fazenda Leatherslade, uma casa segura a menos de 50 quilômetros do local do crime, onde estavam escondidos para planejar a ação. Percorre a pequena e malcuidada estrada de terra até a via principal. A quadrilha veste uniforme do Exército e dirige dois Land Rovers militares usados – como havia uma base não muito distante, eles esperam não levantar suspeitas caso sejam vistos. Bruce Reynolds comanda a tropa com seu traje de major. O caminho é silencioso. Todo o trabalho, iniciado cinco meses antes, com o levantamento das rotas dos trens, número de funcionários a bordo, reuniões intermináveis no apartamento de Buster Edwards e aprendizado sobre sinalização e funcionamento dos trens, está prestes a levar o grupo a embolsar uma bolada.

São 2 horas da madrugada quando Reynolds e seu bando chegam à ponte Bridego, onde pretendem roubar o trem. O plano era tomar a composição a 800 metros dali alterando dois sinalizadores da encruzilhada para obrigar a locomotiva a parar. Os carros são estacionados sob a ponte enquanto Reynolds e Roy James cortam os cabos telefônicos. Já são quase 3 horas e o trem passará por ali em minutos. Parte do grupo toma a encruzilhada para alterar os sinais. O primeiro, composto de duas luzes, em geral está verde para permitir a passagem do trem. A quadrilha altera o sinal para amarelo, que, além de ser um alerta para que a locomotiva diminua a velocidade, também indica uma provável luz vermelha no segundo sinal. No sinal seguinte, o sinal verde é coberto com uma luva e o vermelho é aceso, ligado a quatro baterias de 6 volts. O cenário está pronto para reter o trem.

Ação de minutos

Às 3h15 o trem pagador se aproxima. Jack Mills avista a sinalização e freia a composição. A locomotiva pára a 6 metros do sinal vermelho. Como de praxe, o foguista desce do trem para telefonar ao responsável pela sinalização e verificar o problema. Descobre que os cabos estão cortados. Sozinho, no escuro, David Whitby é facilmente rendido por um dos homens do bando enquanto outros três estão sob os vagões desacoplando a locomotiva e o HVP da composição. Na pressa, deixam os cabos de força conectados.

O grupo leva David Whitby de volta à locomotiva, onde encontra Jack Mills. O maquinista havia sido agredido com golpes de barras de ferro e jogado no chão, sangrando muito. A missão agora era mover a locomotiva e o HVP até a ponte Bridego, onde o resto do grupo esperava. Mas, embora com todo o treinamento que puderam receber, os ladrões não souberam operar o trem e recorreram a Jack Mills. Debilitado, o maquinista coloca o trem em movimento. Nesse momento, no vagão dos pacotes valiosos, os dois funcionários dos correios percebem que algo está errado, pois ouvem o tubo de vapor se romper. Mesmo com a avaria, Jack Mills consegue levar o trem até a ponte. Os bandidos algemam o maquinista e seu assistente na casa das máquinas e partem para tomar o vagão do dinheiro.

Liderados por Charlie Wilson, outros sete membros da quadrilha invadem o vagão dos malotes, atacando os funcionários Frank Dewhurst e Les Pen com vários golpes com o cabo de uma machadinha, usada ainda para quebrar os armários onde estão os pacotes. Uma corrente humana inicia a retirada dos pacotes de dinheiro do vagão, levando-os até os carros embaixo da ponte. No tempo controlado por Reynolds, 20 minutos, conseguiram descarregar 120 dos 128 malotes que o vagão levava. Não era prudente continuar a operação, pois seria dado o alarme se o trem não chegasse à estação de Midlands. Além disso, os funcionários dos correios nos vagões que foram deixados para trás poderiam começar a desconfiar de algo.

A quadrilha foge carregando os 120 malotes, cada um com 636 pacotes contendo o dinheiro que seria entregue aos bancos. Apesar da sugestão de alguns deles de fugir direto para Londres, Reynolds prefere voltar ao esconderijo a arriscar serem pegos no longo caminho para a cidade. No rádio do carro, ouvem a notícia sobre o roubo. “Vocês não vão acreditar”, dizia o locutor. “Roubaram o trem!” Às 4 e meia chegam à fazenda Leatherslade. Os malotes são empilhados nos fundos da casa e a comemoração começa. Os bandidos celebraram também o aniversário de 34 anos de Biggs, naquele 8 de agosto, com muita cerveja e charutos. Alguns começam a jogar Banco Imobiliário com as notas roubadas, contabilizando o total da ação: 2631784 libras.

No hospital em Aylesbury, Jack Mills e David Whitby aguardam que um policial retire as algemas deixadas pelos bandidos. O maquinista já recebeu cuidados médicos. Foram 14 pontos em cinco cortes na cabeça. Um deles, com 1 centímetro de profundidade, deixou Mills em choque.

Pela manhã a quadrilha se prepara para deixar a casa. Todos trabalham em uma limpeza, para apagar os vestígios de digitais. Como precaução extra, Reynolds pagou 28 mil libras para que alguém destruísse qualquer pista deixada para trás depois que o grupo saísse do local. No fim daquela manhã, os carros deixaram a fazenda levando 15 novos homens ricos para Londres.

Caçada sem pistas

Para a polícia de Londres começava uma caçada implacável, mas sem nenhuma pista, aos responsáveis pelo roubo. “Foi obviamente uma operação brilhantemente planejada”, disse o ex-detetive superintendente Jack Slipper, encarregado das investigações. As seguradoras, os correios e os bancos ofereceram recompensas de até 260 mil libras para informações que levassem aos bandidos. O caso chega ao Parlamento inglês, onde um projeto propondo aumentar o efetivo de segurança a bordo dos trens já circulava fazia dois anos. 


Os quase ricos

Veja o que o bando poderia ter comprado com o dinheiro que conseguiu no roubo

Investigadores na cena do crime / Domínio publico 

➽ 2833 Fuscas zero- quilômetro

➽ 354 mil aparelhos de televisão a cores

➽ 588 Aston Martin DB5 zero-quilômetro

➽ 1,2 milhão de discos Please Please Me, dos Beatles

➽ 1812 passagens de avião Londres-Rio de Janeiro, classe econômica

➽ 212 mansões no Jardim Europa, São Paulo


➽ Enquanto Londres fervilha com as discussões pós-crime, a polícia local recebe a indicação de um morador da vizinhança de Leatherslade, desconfiado com o repentino cessar da movimentação no local. Era 13 de agosto quando o ex-policial John Wooley seguiu para verificar a denúncia. Na casa vazia, com a porta aberta, ele encontrou muito mais que evidências. O encarregado em destruir as pistas aparentemente não fizera seu trabalho direito. Uma fogueira destruíra muita coisa, mas deixara vestígios suficientes para que a polícia ligasse as pistas ao roubo do trem e fosse atrás dos criminosos. Foram encontrados os malotes do dinheiro e algumas notas do roubo na caixa de um inocente jogo de tabuleiro. As impressões digitais nas peças do jogo ajudaram a polícia a identificar os primeiros membros do bando. Havia digitais ainda em pratos e outros utensílios. As marcas dos dedos de Roy James, que dez dias após o crime venceu duas corridas, estavam num exemplar da revista Movie Screen. Os policiais encontraram ainda etiquetas postais, pacotes registrados e as machadinhas usadas para golpear os funcionários dos correios.

Os primeiros a serem presos foram Roger Cordrey e Willian Boal, que viviam em um apartamento simples sobre uma loja de flores em Londres. A polícia chegou até eles quando pagaram três meses adiantados do aluguel de uma garagem com dinheiro vivo, tudo em notas miúdas. No dia 22 de agosto, a polícia prendeu Charles Wilson e, em dezembro, Roy James. Em abril de 1964, os policiais conseguiram pegar 11 acusados, mas recuperaram só uma pequena parte do dinheiro.

Levados a julgamento, sete deles – Ronald Biggs, Charles Wilson, Douglas Goody, Thomas Wisbey, Robert Welch, James Hussey e Roy James – foram condenados a 30 anos de prisão cada um. Outros quatro – Roger Coldrey, Willian Boal, Jimmy White e Buster Edwards – a penas entre 20 e 25 anos. Um 12º nome, o procurador John Weather, foi condenado a três anos de prisão por ter conseguido a fazenda para o grupo.

Três dos suspeitos saindo do tribunal após o julgamento / Domínio publico 

Com 12 homens condenados pelo assalto, a Justiça havia atendido rapidamente ao clamor da sociedade. Mas a polícia não estava satisfeita. Embora não fosse possível precisar o número de participantes da quadrilha, uma coisa era certa: faltava prender o líder, a mente por trás do roubo. Vivendo sob identidade falsa nos arredores de Londres e até no exterior, Bruce Reynolds ficou foragido por cinco anos antes de ser preso – em maio de 1968 – e condenado a dez anos de prisão, faleceu no dia 28 de fevereiro de 2013. E nada além de minguadas 336518 libras foi recuperado do maior roubo da História da Inglaterra até então. Um crime que durou quase o mesmo tempo que você levou para ler esta matéria.


 Tem gringo no samba

A vida mansa de Ronald Biggs

 Ronald Biggs exibindo cartaz de 'procurado' com a sua foto, durante o lançamento da sua biografia no Rio de Janeiro / Arquivo

Quinze meses após ser preso, Ronald Biggs escalou o muro da Wandsworth Prison e escapou num caminhão de mudança. Fez uma cirurgia plástica em Paris e viveu na Espanha e Austrália antes de chegar ao Brasil, em 1970. Foi considerado então o maior fugitivo da Justiça britânica. Localizado no Rio de Janeiro, em 1974, não pôde ser extraditado, pois os ingleses não aceitaram a reciprocidade, exigida pelo governo brasileiro nesses casos. Logo depois nasceu o filho brasileiro de Biggs, e a extradição tornou-se impossível. Sem poder trabalhar, Biggs vivia de sua celebridade. Cobrava por entrevistas, autógrafos e presença em festas. Vendia camisetas com frases alusivas ao grande roubo. Por 60 dólares, turistas almoçavam com o anti-herói. Um derrame em 2000 deixou sua saúde debilitada. Em 2001, anunciou que voltaria à Inglaterra. Biggs pisou novamente em solo britânico e foi preso. O jornal The Sun custeou a viagem em jato particular e teria pagado 20 mil libras a Michael Biggs, filho do fugitivo – que é o Mike do antigo Turma do Balão Mágico, programa infantil da Rede Globo nos anos 80. Advogados solicitaram a soltura de Ronald Biggs, alegando sua avançada idade mas ele veio falecer em 18 de dezembro de 2013. 


Saiba mais

The Train Robbers, Piers Paul Read, 1978

Autobiography of a Thief, Bruce Reynolds, Johnson Reprint, 1979 


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