Cartas de um sedutor

As missivas de Pedro I à Marquesa de Santos

Cíntia Cristina da Silva

Dom Pedro I e Marquesa de Santos | <i>Crédito: Wikimedia Commons Images
Dom Pedro I e Marquesa de Santos | Crédito: Wikimedia Commons Images

"Nada mais digo senão que sou teu, e do mesmo modo quer esteja no céu, no inferno ou não sei onde. Tu existes e existirás sempre em minha lembrança, e não passa um momento que meu coração me não doa de saudades tuas..." Essa doce declaração foi enviada em 29 de novembro de 1826 por um homem que assinava como Fogo Foguinho – também chamado de dom Pedro I – para a mais importante de suas amantes. Durante os sete anos em que o imperador do Brasil manteve um romance com Domitila de Castro Canto e Melo, mais tarde elevada a marquesa de Santos, escreveu 143 cartas a ela. Recheadas de arroubos imperiais de paixão e até detalhes sobre a saúde do pênis de dom Pedro, as cartas mostram a história íntima e não oficial do líder mais sedutor que o Brasil já teve.

O namoro entre os dois começou em 1822, às vésperas da independência do Brasil. Morando no Rio mas frequentando muito São Paulo, quando visitava a marquesa, dom Pedro tinha mensageiros encarregados exclusivamente da troca de cartas com Domitila. Sedutor contumaz, o imperador teve sete filhos com a primeira mulher, dona Leopoldina, um com a segunda, cinco com a marquesa (dos quais apenas duas filhas chegaram à idade adulta) e mais cinco com outras mulheres – incluindo a irmã da marquesa de Santos e uma monja portuguesa! Nos anos em que trocou fluidos e palavras com Domitila, ele ainda se divertiu com 16 amantes. Por isso, além de lembrar os encontros com a amante e falar sobre suas filhas, dom Pedro valia-se das correspondências para dar explicações sobre tamanha atividade sexual. E também para informá-la das doenças que frequentemente atacavam seu pênis – que ele chama de “tua coisa”. Em algumas das missivas, dom Pedro chegou a esquecer o título imperial e assinar as fervorosas declarações de amor como “Demonão” ou “Fogo Foguinho”. Conta-se que, em outras, chegou a desenhar o aspecto de seu pênis ao redor do texto, mas essas figuras nunca foram encontradas.

“Para quem se aproxima da correspondência, causa surpresa (num bom sentido) o tom desabusado das cartas. Nota-se que o imperador era uma figura simpática, direta, sem pompa ou circunstância”, afirma o professor de literatura Flávio Aguiar, da USP. O próprio soberano reconhecia essa simplicidade. Em 4 de maio de 1824, ele escreveu à marquesa: “Eu sou imperador, mas não me ensoberbeço com isso, pois sei que sou um homem como os mais, sujeito a vícios e a virtudes como todos o são”.

Também foi por meio de uma carta que dom Pedro rompeu com Domitila, em 1829. Ele precisava se mostrar um homem sério para se casar com Amélia de Beauharnais, duquesa de Leuchtenberg, Áustria, e renovar a aliança familiar com os Habsburgo, uma das dinastias mais importantes da Europa. Do século 15 ao século 20, eles governaram a Áustria, tiveram o poder sobre a Hungria e Boêmia (1526-1918) e também sobre a Espanha, por quase dois séculos (1504-1700). Em 27 de dezembro de 1827, dom Pedro escreveu à marquesa: “Eu te amo; mas mais amo a minha reputação agora também estabelecida na Europa inteira pelo procedimento regular, e emendado que tenho tido”. A despedida definitiva viria dois anos depois, em uma carta datada do dia 1º de junho de 1829, em que o imperador manda um abraço, um “beijo para minha coisa” e assina: “Teu filho, amigo e amante até a morte, Pedro”.


O lado erótico da corte brasileira
Alguns trechos das cartas

Amor ardente

"Meu bem, forte gosto foi o de ontem à noite que nós tivemos. Ainda me parece que estou na obra. Que prazer!! Que consolação!!! Que alegria foi a nossa!!!!Tenho o prazer de lhe ofertar essas rosas e essas duas trocazes, que comeremos à noite. Aceite os mais puros e sinceros votos de amor do coração deste seu amante constante e verdadeiro e que se derrete de gosto quando... com mecê,

O Fogo Foguinho"

24 de novembro de 1826


"A tua coisa"

"Filha, quero saber como passaste o resto da noite. Eu cheguei bem, por baixo d’água, e como estavam as rondas a renderem-se na encruzilhada, vem entrar na minha chácara de frente do Queirós, onde se está fazendo um muro novo. Para veres a esquisitice de tua coisa, remeto a camisa, e onde vai pregado um alfinete verás o que deitei espremendo às seis horas, e mais acima o que espremi depois, que já não é nada. Creio pelo dia adiante ela se portará como ontem; não tem nada que nos impossibilite de fazermos amor, não importa que o tempo e cautela a há de pôr boa e serei.

Teu filho, amigo e amante fiel, constante, desvelado, agradecido e sempre verdadeiro Imperador

PS: Estou suspirando pela ópera para te ver, e pelo fim dela muito mais para te apertar nos meus braços."

18 de novembro de 1827


Ele se explica

"Marquesa de Santos, não tenho nenhum passeio destinado, mas como me não deu a resposta que nas minhas cartas lhe exigi há nove dias, a fim de poder continuar a lá ir, fiz tenção de te amar sempre como te amo e amarei. Mas ao mesmo tempo fiz tentação de não voltar lá para te não mortificar nem ser mortificado. Passando a dar uma razão plausível para não ir lá, posto que a vontade seja boa, é que tu não poderás jamais ter prazer comigo, pois eu já me tenho fumentado com algumas mulheres e assim não tenho cara de aparecer para semelhante fim.

Perdoa se nesta resposta te ofendo, mas eu hei de dizer a verdade

Imperador"

25 de dezembro de 1827


Ele se despede

"Eu te amo; mas mais amo a minha reputação agora também estabelecida na Europa inteira pelo procedimento regular, e emendado que tenho tido. Só o que te posso dizer é que minhas circunstâncias políticas atualmente estão ainda mais delicadas do que já foram. Tu não hás de querer a minha ruína nem a ruína de teu, e meu País e assim visto isto além das mais razões me faz novamente protestar-te o meu amor; mas ao mesmo tempo dizer-te que não posso lá ir."

Maio de 1829


Ela se despede

"Senhor, eu parto esta madrugada e seja-me permitido, ainda desta vez, beijar as mãos de V.M. por meio desta, já que os meus infortúnios e minha má estrela me roubem o prazer de o fazer pessoalmente. Pedirei constantemente ao céu que prospere e faça venturoso ao meu Imperador. E quanto à marquesa de Santos, senhor, pede por último a Vossa Majestade que, esquecendo como ela tantos desgostos, se lembre só mesmo, a despeito das intrigas, que ela em qualquer parte que esteja saberá conservar dignamente o lugar a que V.M. a elevou, assim como ela só se lembrará muito que devo a V.M., que Deus vigie e proteja como todos precisamos.

De V.M. súdita, muito obrigada, marquesa de Santos"

15 de julho de 1829


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 Prezado Senhor, Prezada Senhora - Organização Walnice Nogueira Galvão e Nadia Gotlib, 2001.



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