Coreia: Quando a Guerra Fria ferveu

Em 3 anos, até 3 milhões pereceram no pior conflito da Guerra 'Fria'

Márcio Sampaio de Castro

Artilharia dos EUA em ação | <i>Crédito: Getty Images
Artilharia dos EUA em ação | Crédito: Getty Images

Ao final da Segunda Guerra Mundial, o espólio japonês disputado entre os vencedores incluía a península coreana, no sudeste asiático, onde o Exército Imperial havia permanecido por muito tempo como força de ocupação. Na corrida que se seguiu aos últimos dias do conflito, os até então aliados soviéticos e americanos ocuparam a Coréia, dividindo-a ao meio, na altura do paralelo 38. A alegria da população local pelo fim da presença japonesa seria rapidamente substituída pela dura realidade da luta de interesses entre os dois blocos ideológicos, que travariam nesse território o pior conflito da Guerra Fria, na qual morreriam até 2,5 milhões de civis mortos, mais 550 mil militares em ambos os lados.

Ao norte do paralelo, os soviéticos trataram de rapidamente implementar a doutrina comunista nos campos político e econômico, enquanto no sul a Organização das Nações Unidas (ONU), capitaneada pelos Estados Unidos, promoveu, em 1948, eleições que tiveram como resultado a vitória de um candidato simpático aos interesses americanos. A divisão do país acelerou-se e, em agosto daquele ano, debaixo de muito ressentimento de lado a lado, nasciam a República da Coréia (Coréia do Sul) e a República Democrática Popular da Coréia (Coréia do Norte).

Para o ex-líder da nova república comunista, Kim Il-sung, a reunificação do país era uma questão de tempo. Amplamente auxiliado por armas e instrutores soviéticos, Kim criou uma máquina de guerra, o Exército Popular da Coréia do Norte (EPCN), que tentaria resolver à força o que a diplomacia não havia conseguido. Contando com 135 mil homens, reunidos em oito divisões, 150 unidades do veterano, mas ainda eficiente, tanque soviético T34, diversas peças de artilharia e vários caças-bombardeiros, o EPCN era, em meados de 1950, muito superior ao seu rival sul-coreano.


O tanque soviético T34 / Wikimedia Commons

Do outro lado do mundo, no dia 25 de junho daquele ano, alheio às maquinações de Kim, o norueguês Trygve Lie, o primeiro secretário-geral da ONU, foi despertado, às 3 horas da madrugada nova-iorquina, pelas chamadas insistentes de seu telefone. Um representante do governo dos Estados Unidos procurava-o para comunicar-lhe que o exército norte-coreano havia cruzado um dia antes o paralelo 38 e marchava rapidamente em direção a Seul, a capital sul-coreana. O governo americano exigiu que Lie reunisse imediatamente o Conselho de Segurança e tratasse da questão como uma séria ameaça à paz mundial.

Contra a vontade soviética, que protestava, entre outras coisas, pelo fato de a República Popular da China ser representada por um embaixador de Taiwan, e não por um enviado do governo comunista de Mao Tsé-tung, o conselho se reuniu no início da tarde daquele mesmo dia para condenar as ações norte-coreanas e exigir o retorno de suas forças militares acima do paralelo 38. Absolutamente ignorado pelo governo de Kim Il Sung, o conselho voltaria a se reunir dois dias depois para aprovar uma proposta americana:“fornecer toda assistência necessária à República da Coréia para repelir o ataque e restabelecer a paz e a segurança internacionais na área”.

Plano de emergência

Enquanto aguardavam as deliberações diplomáticas, os americanos já montavam seu plano de emergência para intervir na península, com ou sem a aprovação da ONU. Eles não admitiriam sob nenhuma hipótese que os soviéticos pudessem ter na Ásia uma área de influência que fosse além do paralelo 38 coreano. Não seria preciso, contudo, contrariar a vontade da maioria. A exemplo do que fariam 41 anos mais tarde, no Iraque, os Estados Unidos conseguiram liderar uma coalizão internacional, que contou com o apoio de 53 países na Assembléia Geral e a participação ativa de 20 deles no confronto armado que se desenhava. Ingleses, canadenses e australianos formariam o grosso do contingente auxiliar de 45 mil homens que se somaram aos 300 mil americanos enviados para a península asiática.

A intenção dos norte-coreanos era transformar sua invasão em um fato consumado muito antes de qualquer reação internacional. Em pouco mais de um mês, eles haviam empurrado o Exército sul-coreano e as tropas americanas baseadas no Japão, que vieram em seu auxílio, para um perímetro pouco maior do que 150 quilômetros quadrados em torno da cidade portuária de Pusan.

O ex-presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, designou um herói da Guerra no Pacífico para comandar a reação. Douglas MacArthur, um especialista em invasões anfíbias, manteve-se fiel a suas convicções e informou ao ex-presidente e a seus subordinados no comando militar da ONU que a estratégia seria um desembarque de tropas na cidade de Inchon, próxima a Seul, com o objetivo de cortar as comunicações entre as tropas do EPCN que cercavam Pusan e sua retaguarda em território norte-coreano. O plano deu certo e, em 27 de setembro, exatamente 12 dias após o início das operações em Inchon, a capital sul-coreana era declarada livre da presença comunista. Uma semana depois da reconquista de Seul, com o colapso do EPCN ao sul do paralelo 38, Truman autorizava a invasão do norte. Agora, eram os americanos que queriam liquidar a guerra em tempo relâmpago e implantar em toda a Coréia um regime pró-Ocidente.

Preocupados em desmoralizar os soviéticos com a aniquilação do EPCN, os americanos esqueceram-se de considerar uma outra variável na equação daquela guerra. No dia 2 de outubro, o ministro do Exterior chinês, Chu-En-lai, enviou um curto e objetivo recado para o mundo. Se o paralelo fosse cruzado em direção ao norte, os chineses interviriam.

Embriagadas pelo gosto da vitória que lhes parecia muito próxima, as tropas da ONU não só cruzaram a linha imaginária como também levaram os combates para as cercanias do rio Yalu, na fronteira entre a Coréia e a China. Dois meses depois, o general MacArthur ordenava a seus homens que formassem uma linha de defesa no mesmo paralelo 38 para resistir ao avanço de 300 mil chineses que investiam furiosamente contra seu exército.

Sucessão de ataques

A partir desse momento, o conflito se transformaria numa sucessão de ataques e contra-ataques que levariam MacArthur a defender publicamente a guerra total contra os chineses, mesmo que isso implicasse o emprego de artefatos atômicos. As opiniões do general contrariavam frontalmente o ponto de vista do ex-presidente Truman, que não queria aniquilar o comunismo e muito menos travar uma guerra mundial, consequência temida, caso a China fosse invadida. Sua intenção era apenas conter a expansão da influência soviética no Oriente. Como subordinado direto de Truman, MacArthur perdeu o emprego, e a guerra seguiu na Coréia conforme os desígnios do presidente: buscar uma paz honrosa ou um armistício.

De fato, ainda no ano de 1951, as conversações de paz tiveram início, mas enquanto os diplomatas não chegavam a um acordo, os homens de farda viram a eletrizante guerra de movimento transformar-se em uma infindável guerra de trincheiras, que se arrastaria pelas cercanias do paralelo 38 até o dia 27 de julho de 1953, quando o armistício finalmente foi assinado. Tecnicamente, a Guerra da Coréia jamais terminou, mas ao final do conflito a situação que a gerara em nada havia mudado: na península do sudeste asiático continuava a existir um povo e dois países.


Vietnã, a derrota

Soldados americanos no Vietnã / Wikimedia Commons

Em 1954, a Indochina (atuais Vietnã, Laos e Camboja) era um dos últimos baluartes do colonialismo francês. Como vinha ocorrendo em outras colônias, o movimento de libertação havia recorrido às armas e tinha na figura de seus líderes uma motivação marxista, o que acabaria transformando aquela guerra de independência em mais um campo de batalha da Guerra Fria.

Em março daquele ano, após a derrota para a guerrilha de Ho Chi Minh, os franceses concordaram em abandonar a região, desde que o Vietnã fosse dividido em duas áreas: o norte comunista e o sul capitalista. Assim como haviam ajudado o fracassado Exército francês, os norte-americanos apoiaram os sulistas da República do Vietnã com armas e assessoria militar. Em 1964, os Estados Unidos partiram para a intervenção militar para conter o avanço da guerrilha que, apoiada pela URSS e pela China, derrotava o Exército sul-vietnamita. Em 1975, com a tomada de Saigon, a capital do Vietnã do Sul, pelos norte-vietnamitas, os americanos conheceriam sua primeira derrota militar. Deixaram cerca de 1,5 milhão de vietnamitas mortos e um país unificado sob a bandeira do comunismo.


Saiba mais

Era dos Extremos - O Breve Século XX, Eric Hobsbawm, 1995. 

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