Dois minutos para meia-noite: A era do pânico nuclear

Por décadas, um mundo aflito via EUA e União Soviética desenvolverem armas cada dia mais devastadoras

Fabiano Onça

Explosão nuclear | <i>Crédito: Shutterstock Images
Explosão nuclear | Crédito: Shutterstock Images

Em fevereiro de 1946, o comodoro americano Ben H. Wyatt, governador militar das ilhas Marshall, pediu ao rei Juda, líder dos 167 habitantes do atol de Bikini, se eles poderiam sair temporariamente da área, para que os Estados Unidos pudessem realizar ali seus testes atômicos. A ilha era o local ideal porque ficava longe das rotas marítimas e aéreas. O rei hesitou com o pedido, mas Wyatt usou um argumento decisivo: os testes seriam feitos “para o bem da humanidade e para acabar com todas as guerras”. O velho rei, então, acedeu. Ele e seu povo foram confinados em várias ilhotas inférteis ao longo dos anos, padeceram por falta de suprimentos e terminaram espalhados por diversas ilhotas da região. Quanto à humanidade, o teste dessas duas bombas atômicas foi o disparo inicial de uma corrida armamentista que culminou não com um bem maior, como havia prometido o comodoro, mas sim com a inédita ameaça de extinção da própria raça humana.

Teste com a bomba Able no atol de Bikini / Wikimedia Commons

Em 1º de julho de 1946, os americanos iniciaram a operação Crossroads: detonaram a bomba Able, de 21 quilotons, a  158 metros de altitude. No dia 25, foi a vez da Baker, 27 metros submersa. O alvo real: 252 vasos de guerra antigos, 156 aviões e um exército de 5,4 mil ratos, bodes e porcos que circundavam o atol. O alvo simbólico: a União Soviética. As consequências do teste foram imediatas. A mais inofensiva foi que, quatro dias após o teste, o estilista francês Louis Reárd causou furor em Paris com sua roupa de banho em duas peças, oportunamente batizada de biquíni. A mais perigosa foi que o teste incitou ainda mais os soviéticos a buscarem paridade em termos nucleares.

Projeto bomba

A partir de 1945, o projeto da bomba foi considerado “prioridade máxima de segurança nacional” por Josef Stalin, a ponto de o truculento Lavrenti Beria, o comandante do serviço secreto, ser alocado para supervisionar o projeto. A montanhosa vila de Sarov, nos Urais, no coração da União Soviética, foi designada para abrigar o centro de pesquisas atômicas. Ato contínuo, o aglomerado tornou-se uma cidade fechada e sua localização foi apagada de todos os mapas. No front externo, o líder da espionagem soviética construiu uma rede de informantes – como Alan Nunn May, Klaus Fuchs, Theodore Hall e o famoso casal Rosenberg – que, rapidamente, subtraiu informações vitais do projeto Manhattan, o projeto da bomba americana.

O resultado desse esforço apareceu em 29 de agosto de 1949, em Semipalatinsk, no deserto do Casaquistão, onde os soviéticos testaram com sucesso sua primeira bomba atômica, a RDS 1, apelidada pelos rivais americanos de Joe 1, em alusão a Josef Stalin. O artefato, de 22 quilotons, era praticamente uma réplica da bomba americana que arrasara Nagasaki em 1945.

A RDS 1 apelidada como 'Joe 1' / Wikimedia Commons

O lançamento da bomba soviética, obviamente, não caiu bem no estômago dos americanos. Menos de cinco meses depois, em 31 de janeiro de 1950, o ex-presidente Harry Truman anunciou ao mundo sua decisão de investir numa bomba ainda mais potente. No front interno, o macartismo – paranoia anticomunista liderada pelo ex-senador Joseph McCarthy – chegou às raias da histeria. Em 17 de julho, durante a caça às bruxas, Ethel Rosenberg e seu marido, Julius, foram presos, acusados de passarem segredos da bomba aos soviéticos. Três anos depois, o casal seria executado.

O clima era de alta tensão. Em 24 de setembro de 1951, a União Soviética havia detonado sua segunda bomba atômica, a “Joe 2”. Tinha metade do tamanho da primeira, mas fez o dobro de estragos. Menos de um mês depois, os soviéticos lançaram outra, a “Joe 3”, dessa vez, de um avião. Os americanos ficaram enfurecidos.

Assim, aumentando o cacife das apostas, em 1º de novembro de 1952 os EUA demonstraram ao mundo que seu poder de destruição era incomparável. “Mike”, a primeira bomba de hidrogênio da história, com poder equivalente a 10,4 megatons (a de Hiroshima não tinha mais do que 15 quilotons), simplesmente varreu do mapa a ilha de Elugelab, no Pacífico Sul. A supremacia americana, entretanto, durou pouco. No ano seguinte, em 1953, utilizando apenas tecnologia caseira (isto é, sem recorrer à espionagem), os russos deram o troco e detonaram a “Joe 4”, uma bomba “improvisada” de hidrogênio, com meros 400 quilotons. Embora muito inferior em potência, a bomba soviética era “transportável” por aviões – ou seja, estava pronta para uso.

Isso, porém, não intimidou os EUA. Em 1954, o secretário de Estado americano, John Foster Dulles, não hesitou em dizer que seu país adotaria uma nova estratégia, a de retaliação massiva – qualquer ataque soviético seria repelido com uma resposta nuclear em grande escala. Para provar o que diziam, os americanos arrebentaram de vez com o atol de Bikini, ao despejar ali, em 1º de maio, a bomba termonuclear Castel Bravo. Foi o maior artefato já utilizado pelos EUA, com 15 megatons.

Mísseis intercontinentais

Durante a década de 50, não era apenas a potência das bombas que interessava, mas também como fazê-la chegar ao inimigo. Até então, a única maneira de realizar um ataque atômico era com o uso de bombardeiros estratégicos, como os B-52, que não estavam imunes aos recém-desenvolvidos caças de interceptação a jato. Assim, foi com grande desconcerto que os americanos viram o lançamento bem-sucedido do primeiro satélite orbital da história, o soviético Sputnik 1, em 4 de outubro de 1957. O perigo, claro, não estava no satélite, mas sim no veículo que o impulsionara até a órbita terrestre, um foguete R7 – o mesmo que podia ser também utilizado para lançar uma bomba nuclear. A URSS inaugurava a era dos ICBMs, os mísseis balísticos intercontinentais.

Pressionados pelo sucesso soviético, os americanos se viram nas cordas. Em setembro de 1961, o ex-presidente John Kennedy alertou os americanos a construírem abrigos nucleares. O aviso pareceu ainda mais acertado quando, no mês seguinte, na remota ilha de Novaya Zemlya, no mar Ártico, os russos detonaram a maior bomba já testada pelo homem, a Tsar. Seu impacto, que foi propositadamente reduzido pela metade, foi de 50 megatons, capaz de provocar queimaduras de terceiro grau em pessoas a 100 km da explosão.

E se alguém tinha dúvida de que a era do pesadelo nuclear havia chegado, elas se dissiparam após a crise dos mísseis de 1962. “Kennedy era uma pessoa racional. Krushev era racional. Castro era racional. Ainda assim, o mundo esteve por um triz de explodir”, resumiu o ex-secretário da Defesa Robert McNamara. Foi ele, aliás, quem cunhou o termo que exprimia bem o impasse em que, na época, se encontravam as superpotências: MAD (Mutual Assured Destruction – destruição mútua assegurada). A teoria era simples. Significava que, mesmo após sofrer uma primeira leva de ataques atômicos, qualquer uma das duas potências ainda teria condições de infligir uma poderosa retaliação, assegurando a destruição de ambos os pelejantes.

A partir desse ponto, em que ambos os países perceberam tal condição, eles iniciaram conversações para controlar seus arsenais. Isso resultou, por exemplo, no Tratado de Banimento Parcial de Testes Nucleares (1963), no Tratado de Não-Proliferação Nuclear (1968) e, mais recentemente, no Strategic Arms Reductions Talks (START), um tratado de redução dos arsenais estratégicos (1991).

Essas iniciativas, entretanto, não impediram que as duas potências continuassem investindo em seus arsenais. Segundo o National Resources Defense Council (EUA), em 1965, os americanos possuíam 31 265 armas atômicas, contra 6 129 soviéticas. Três décadas depois, em 1995, os americanos possuíam 22 941 bombas, enquanto os soviéticos armazenavam 39 197 artefatos. Atualmente, mesmo com o fim da Guerra Fria, os EUA mantêm 4018 artefatos ativos, e 6800 no total, enquanto a Rússia, herdeira do legado nuclear soviético, mantém 4500 mil operacionais e cerca de 7 mil inativas. Que isso, entretanto, não engane ninguém. Os modernos mísseis balísticos intercontinentais, como o americano Trident e o russo SS-N-18, carregam hoje múltiplas ogivas e podem ser lançados de submarinos nucleares. A paz armada continua. E o mundo, depois de Bikini – e do biquíni –, jamais foi o mesmo.


Por um triz

Modelo do avião de caça MiGs-15/ Domínio publico 

Ao longo da história, houve momentos em que o pesadelo do holocausto nuclear deixou de virar realidade por muito pouco – e por bobagem. Um desses episódios ocorreu na noite de 5 de novembro de 1956, quando o Comando de Defesa Aeroespacial Norte-Americano (Norad) recebeu um informe assustador: objetos voadores não identificados tinham invadido o espaço aéreo turco, 100 MiGs-15 estavam sobre a Síria, um avião britânico Camberra havia sido abatido e a frota soviética estava se movendo através do estreito de Dardanelos. Os planos de retaliação nuclear foram ativados. Logo depois, os americanos descobriram: os objetos voadores eram gansos, os MiGs eram muito menos unidades (apenas a escolta do presidente sírio que voltava de Moscou), o avião inglês havia caído por falha mecânica e a frota soviética estava realizando apenas exercícios programados de rotina.


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