Game of Thrones vs a Idade Média, parte 1: A muralha, os patrulheiros e os selvagens

Selvagens do norte isolados por um grande muro sob constante vigilância e guerreiros com voto de castidade - tudo real

Pedro Ivo

Na vida real, era para parar gente | <i>Crédito: HBO/Reprodução
Na vida real, era para parar gente | Crédito: HBO/Reprodução

Nos anos 1980, numa viagem à Inglaterra, George R. R. Martin, autor de As Crônicas de Gelo e Fogo, origem da série de TV, se impressionou com os restos da Muralha de Adriano, concluída pelos romanos no ano de 126 para separar o mundo civilizado dos bárbaros do norte, que viviam na atual Escócia. Essa tensão fronteiriça entre Roma e os outros povos marca a transição para a Idade Média: a Idade Antiga termina em 476, quando é expulso da cidade Rômulo Augusto, o último imperador romano, substituído pelo rei bárbaro Odoacro. 

Naquele momento, Roma já era apenas uma sombra de seu passado. Fazia cerca de dois séculos que a falta de controle sobre as províncias era um problema crescente, e os vizinhos ameaçavam o domínio do império, que, na prática, já caíra várias vezes. Desamparados pelo poder central e acossados por ondas de guerras e saques, os camponeses preferiam estabelecer vínculos com os grandes donos de terra das redondezas, vendendo seu trabalho em troca de proteção. ➽


Sucesso inesperado

Quando surgiu, num longínquo 1996, o então fenômeno editorial As Crônicas de Gelo e Fogo, iniciado pelo volume Game of Thrones, foi visto como um sucessor mais apimentado e violento de O Senhor dos Anéis. Ao chegar, quinze anos depois, ao canal HBO, ninguém esperava que um gênero tão nerd, a fantasia medieval, daria origem à série mais cara de todos os tempos, que quebrou vários recordes de audiência e, com 10 estatuetas, assumiu a liderança dos prêmios no Emmy, a premiação mais importante da TV. 

Dragões dão as caras, mas não há elfos e anões em Game of Thrones. Apenas humanos e seus horrendos defeitos. E a inspiração são humanos que pisaram por este mundo um dia.  George R. R. Martin já disse ser fã de livros de história e coleciona cavaleiros medievais em miniatura. Foi na bruta e sangrenta rotina da Idade Média que ele se inspirou. Conhecer o período revela muito sobre a trama. E a ficção, por mais que seja uma fantasia, ajuda a entender aspectos da Idade das Trevas.


➽ A Muralha de Adriano foi a inspiração para uma das presenças mais marcantes da trama de As Crônicas de Gelo e Fogo: o paredão de gelo no norte do continente Westeros, que separa os habitantes dos Sete Reinos dos selvagens do norte. 

É também uma bela metáfora para a situação geográfica do homem medieval, associado no nosso imaginário a castelos fortificados. As pessoas tinham medo de mares e florestas, territórios povoados por monstros e seres malignos. O mundo na Idade Média, para a maioria, não ia além de alguns quilômetros quadrados de casa, entre os muros do castelo ou nas redondezas. 

O imobilismo, porém, não era total, como se costuma imaginar. "Algumas poucas vezes na vida, as pessoas se deslocavam por distâncias mais longas", afirma a historiadora Martha Carlin, professora da Universidade de Wisconsin. "Isso aconteceu principalmente em períodos de Cruzadas ou durante visitas a feiras, que se tornaram cada vez mais comuns a partir do século 10." Na ficção de Martin, as viagens quase invariavelmente têm finalidades guerreiras.

Entre os núcleos de personagens da trama, os Patrulheiros do Norte são responsáveis por guardar a muralha de gelo. Vestem preto, obedecem a uma hierarquia rígida e juram fidelidade vitalícia à causa. O modelo é inspirado nas ordens militares e religiosas medievais, como a dos Templários. Fundada em 1118, chamava-se Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão. 

Seus membros eram monges-guerreiros vestidos com mantos brancos e uma cruz vermelha no peito. Eles foram forçados a encerrar suas atividades em 1312 pelo papa Clemente 5o, sentindo-se ameaçado pela riqueza e pelo poder acumulado pela ordem. Mas as organizações desse tipo se multiplicaram. "Os costumes dos monges eram seguidos à risca. Os cavaleiros cristãos faziam voto de castidade, por exemplo. Trocavam a dedicação à cultura e aos necessitados por ações militares em defesa dos fiéis", afirma Paul E. Szarmach, da Academia Medieval da América.


AH especial Game of Thrones - Parte I

+ Parte II:  Como os combates de Game of Thrones se comparam com os da Idade Média?

+ Parte III: Como a política de Game of Thrones se compara com a da Idade Média?



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