Malinche: A Judas do México

Tida como responsável pelo extermínio dos astecas, seu nome ainda hoje é sinônimo de 'traidor entreguista'

Flávia Ribeiro

Obra representa Malinche | <i>Crédito: Domínio publico
Obra representa Malinche | Crédito: Domínio publico

Em 1519, um navio espanhol aportou em Tabasco, na costa do golfo do México. Seus ocupantes, todos estrangeiros, receberam dos nativos diversos presentes de boas-vindas. Pães, frutas, aves, ouro e pedras semipreciosas foram entregues aos desconhecidos navegantes. Entre os regalos estavam 20 mulheres escravas. Elas deveriam preparar-lhes a comida e, claro, prestar outros favores que tornariam sua vida ali mais agradável. Inclusive sexuais.

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Entre as escravas, uma virou polêmica. Fluente em maia e asteca, a moça serviu de intérprete para os estrangeiros e os ajudou na comunicação com os índios locais. Chegou a ter um filho com um dos europeus. O mestiço Martín é considerado o primeiro "mexicano" da história. Malinche, seu nome, continua a ser considerada uma traidora, espécie de Judas de sua nação. Seu envolvimento, afinal, foi com Hernán Cortés, o homem que destruiu o Império Asteca e deu início ao extermínio do povo de sua própria amante.

Pouco se sabe sobre Malinche, citada apenas duas vezes nas cartas que Hernán Cortés escreveu para o rei espanhol Carlos I. Acredita-se que ao nascer, por volta de 1496, tenha sido chamada de Malinalli, nome de uma erva que, trançada, era usada para fazer roupas, e também de um dos dias do calendário da época, exatamente aquele em que ela nasceu. Era uma índia nahua, uma das diversas etnias que compunham o México pré-colombiano, provavelmente de Xalixco, na divisa entre o Império Asteca e estados maias. Francisco López de Gómara, que escreveu em 1552 Historia de las Indias, conta que a menina era filha de pais ricos, mas que foi sequestrada ainda criança e vendida para índios de ascendência maia, de Xicalango. Eles a teriam passado para o povo de Tabasco até ela ser dada para os espanhóis.

Há outra versão, contada em 1560 pelo conquistador espanhol Bernal Díaz del Castillo, que acompanhou Cortés e escreveu La Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España. Segundo ele, os pais da índia eram caciques em uma cidade chamada Paynala. Após a morte de seu pai, a mãe teria se casado com outro cacique e tido um filho com o novo marido. Para que o bebê tivesse direito à herança, o casal resolveu dar a filha mais velha para os índios de Xicalango. Assim, ela teria aprendido tanto o idioma maia quanto o náuatle, a língua asteca. Habilidades que a tornariam indispensável para Hernán Cortés.

O batismo do mito

Malinche virou Malinche após o encontro com os espanhóis. Ela e as 19 outras escravas oferecidas aos conquistadores foram as primeiras pessoas batizadas na América. Após o ritual, ganharam nomes cristãos. A índia foi chamada de Marina e, sem conseguir pronunciar o "r", aos poucos foi sendo transformada em Malintzin. Por sua vez, os espanhóis, com dificuldade para falar como os índios, passaram a chamá-la de Malinche.

Jerónimo de Aguilar, um religioso espanhol que naufragara por aquelas bandas provavelmente em 1511 e falava náuatle, era o intérprete oficial de Cortés. Quando descobriram que Malinche falava maia, ela começou a ser usada para fazer Cortés entender o que os povos daquela origem falavam. Ela ouvia as frases em maia, passava para o asteca e Aguillar fazia a tradução do asteca para o espanhol. De tanto fazer isso, a jovem logo aprendeu o espanhol e ganhou nova alcunha: era agora "a Língua", aquela que intermediava a comunicação entre os indígenas e os recém-chegados. A escrava começou a ganhar importância, a ponto de se tornar amante de Cortés e ter um filho com ele, Martín.

Por suas habilidades linguísticas, Malinche passou a ser usada nas operações de conquista por Cortés, que a infiltrava em várias tribos. Ela inclusive esteve presente no primeiro encontro entre o espanhol e Montezuma II, o imperador asteca, um momento decisivo na história mexicana, em 8 de novembro de 1519. Também foi graças a ela que Cortés conseguiu se comunicar com diversos outros índios. ➽ 


Profissão: tradutor

Espanhóis treinavam pessoas para conseguirem comunicar-se com nativos do Novo Mundo

Hernán Cortéz sendo introduzido aos astecas / Domínio publico

A língua foi uma barreira muito grande para os conquistadores espanhóis. Quando os primeiros europeus chegaram por aqui, nativos de diversas etnias falavam milhares de idiomas (só no atual Brasil eram mais de 1000 línguas). Já prevendo a dificuldade, Cristóvão Colombo trouxe com ele, em sua primeira viagem em 1492, dois intérpretes, Rodrigo de Jerez e Luis de Torres, que falavam outras línguas além do espanhol. No fim, eles não foram de serventia alguma, já que não conheciam os idiomas locais. Mas a experiência mostrou aos colonizadores a necessidade de treinar intérpretes. Assim, segundo Gorges L. Bastin, autor de um estudo sobre tradutores no Novo Mundo, Colombo levou dez nativos de volta para a Europa para que pudessem aprender a cultura e a língua espanholas, política mantida em expedições seguintes, como a de Américo Vespúcio, em 1499. O próprio Hernán Cortés, além de Malinche e Jerónimo de Aguilar, teve, no começo, a ajuda de Orteguita, um garoto mexicano que checava se as palavras que Malinche traduzia correspondiam mesmo ao que o espanhol havia dito.


Numa de suas andanças, a índia reencontrou a mãe e o irmão mais novo. Bernal Díaz conta que, após a chegada dos espanhóis à tribo, os parentes de Malinche foram batizados. A mãe passou a se chamar Marta e o irmão, Lázaro. Ele era o cacique da tribo, assim como o pai fora. Ao reconhecerem Malinche, a mãe e o irmão ficaram apreensivos. "Tiveram medo dela, pois acreditaram que os chamava para matá-los, e choravam. E, assim como os viu chorar, dona Marina os consolou e disse que não tivessem medo, que quando a entregaram aos xicalangos não sabiam o que faziam, e os perdoava, e lhes deu muitas jóias, ouro e roupas, e disse que voltassem a seu povoado", escreveu Díaz. "Dona Marina tinha muita personalidade e autoridade absoluta sobre os índios de toda a Nova Espanha."

Malinche foi, na época da conquista, apresentada pelos cronistas como uma mulher poderosa a ponto de fazer um cacique e sua mãe chorarem de medo. E piedosa na medida em que perdoava os abandonos passados. Mais que isso: era uma senhora respeitada e influente. Mas sua imagem mudou muito com o tempo.

Espanhóis x astecas

A ajuda dos povos dominados e a superioridade técnica, com armas mais poderosas e o domínio da pólvora, são duas das possíveis razões para a queda do Império Asteca diante de Hernán Cortés e seus homens. Outra teoria diz respeito aos deuses, que tinham enorme importância naquela sociedade, o que pode explicar a fácil rendição do imperador Montezuma diante do invasor num momento interpretado por ele como o fim de um ciclo, cercado de profecias que apontavam para a volta do deus Quetzalcoatl para retomar seu reino. Montezuma teria enxergado Cortés como o próprio Quetzalcoatl. Como a teoria fatalista não seria compartilhada por todos os astecas, a rendição do imperador não foi bem aceita " e ele foi morto com uma pedrada de origem incerta.

Malinche e Hernán Cortéz / Domínio publico

Cortés teve de enfrentar o novo imperador, Cuauhtémoc, que não aceitava o domínio estrangeiro. Aí entrou a superioridade tática: "Cortés contraria a chamada "guerra florida" dos astecas, uma espécie de balé com hora marcada, em vez da emboscada, por exemplo", diz Leandro Karnal, autor de Teatro da Fé: Representação Religiosa no Brasil e no México do século XVI. "Com isso, em 13 de agosto de 1521, Tenochtitlán [a capital do império] cai. Cortés foi um homem hábil politicamente, muito carismático, que soube arregimentar a simpatia dos índios."

Malinche tornou-se fundamental para os planos do conquistador porque, como diz Bernal, "Cortés, sem ela, não podia entender os índios". Apesar da importância estratégica e de ser mãe do filho do espanhol, Malinche foi novamente entregue. Dessa vez, por Cortés para um companheiro de expedição, Juan Jaramillo. Ela se casou, ganhou a liberdade e teve uma filha, Maria. Não se sabe quando Malinche morreu, acredita-se que foi em 1529, mas algumas fontes falam em 1551.

Mais de três séculos depois de sua morte, o ex-linguista Tzvetan Todorov afirmou em seu livro A Conquista da América: "É verdade que a conquista do México teria sido impossível sem ela". Todorov destacava a importância da linguagem em todo o processo de domínio da civilização asteca e dos povos ao redor por Cortés. E explicava, assim, a dimensão que o nome de Malinche tomou no país.

Não só sua imagem mudou ao longo dos séculos, mas também a importância atribuída a ela. "Na época da conquista, ela era respeitada. Não foi só tradutora e amante, tinha influência", afirma Leandro Karnal. "Depois da independência, o México construiu a identidade do asteca como ancestral de sua nacionalidade, como um povo feliz, o que é uma visão romântica. Então ela vira a traidora. Sua imagem só começa a ser reabilitada nos anos 80, quando a importância da comunicação, da mulher e dos aliados indígenas cresceu nas análises históricas."

Houve muita violência na conquista da América. Mas o que alguns especialistas contestam hoje é que a chamada "visão romântica" nega o outro lado: a crueldade dos astecas com os povos dominados, que incluía uma enormidade de sacrifícios humanos em nome dos deuses. "A figura do espanhol não foi vista como a de conquistador num primeiro momento, por isso tantos povos se uniram a ele. Cortés liderou um exército de indígenas, Malinche não era a única ao seu lado", afirma o historiador José Alves de Freitas Neto, da Unicamp.

Para Todorov, a índia que ajudou a Espanha a dominar o México "anuncia o estado atual de todos nós, inevitavelmente bi ou tri culturais". O problema é que a mistura que Malinche representa é vista até hoje como impura em seu país, atrelado ao passado romântico. Com isso, a população não reconhece nela o que Octavio Paz chama de "Eva mexicana" ou a "mãe simbólica" de todo um povo.


O primeiro mestiço

Filho de Malinche com Hernán Cortés é considerado o mexicano número 1

Quando Martín Cortés nasceu, em 1522, seu pai já havia conquistado o Império Asteca. Mas já não vivia mais com Malinche. Martín foi o primeiro filho de Hernán Cortés e recebeu o nome do avô paterno, apesar de ser ilegítimo. De fato, acredita-se que um náufrago, Gonzalo Guerrero, tenha tido filhos com nativas antes de Cortés e Malinche, mas nenhum deles ganhou fama. Martín foi afastado da mãe ainda pequeno e, aos 6 anos, levado para a Espanha pelo pai. Lá, foi criado por parentes paternos e, aos 10, ganhou um irmão, também Martín, do casamento de seu pai com a espanhola Juana de Zúñiga e, mais tarde, outro, Luís. Adulto, tornou-se membro da ordem Cavaleiro de Santiago e passou anos lutando pela Espanha, onde era conhecido como El Mestizo. Quando Hernán morreu, em 1547, deixou dinheiro e títulos para os três filhos, que se uniram contra o rei da Espanha, Filipe II, na década de 1560, numa conspiração para conseguir a independência da Nova Espanha, com o Martín branco como seu rei. Foram presos, torturados e condenados a desterro eterno. O filho de Malinche morreu em 1568, longe tanto do México quanto da Espanha.


Saiba mais

O Labirinto da Solidão, Octavio Paz, 2006

La Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España, Bernal Díaz del Castillo, 2000

Malinche, Laura Esquivel, 2007


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