Na Sibéria, a Israel soviética

Stalin incentivou a migração dos judeus para um estado autônomo no meio do nada - e depois mudou de ideia

Tiago Cordeiro

A estrela de Davi junto ao simbolo do Comunismo | <i>Crédito: Wikimedia Commons
A estrela de Davi junto ao simbolo do Comunismo | Crédito: Wikimedia Commons

Em 1931, Morris e Rose Becker venderam sua fazenda na Califórnia, fizeram as malas e atravessaram o mundo com os filhos Elizabeth e Mitchel. Socialistas dedicados, eles se instalaram em uma fazenda coletiva na distante Birobidjan, na União Soviética. Ele trabalhava na agricultura e ela na criação de porcos. A vida era dura, o terreno, pantanoso, e o frio podia chegar a 10 graus negativos em janeiro. Não era exatamente o que os dois esperavam, mas eles estavam felizes mesmo assim. Afinal, viviam na nova pátria judaica.

Birobidjan é a capital da primeira nação judia moderna, chamada de Estado (Oblast) Autônomo Judaico. A partir de 1928, 20 anos antes da fundação de Israel, o local passou a ser administrado só por judeus. Ali eles construíram sinagogas e escolas que ensinavam iídiche, língua oriunda do germânico, escrita com caracteres hebraicos. O estado ainda existe, mas o sonho da Terra Prometida no país de Josef Stalin durou pouco.

No fim dos anos 20, o ditador tinha um objetivo: reorganizar as mais de 100 etnias da URSS, de forma que a maioria fosse absorvida e algumas, realocadas em locais estratégicos."No processo de formação de uma cultura proletária universal, algumas nacionalidades deverão passar por um processo de assimilação", dizia ele. A população judaica era um caso à parte: com 2 milhões de pessoas, já havia comprovado que não abriria mão facilmente da própria cultura. Stalin, que não acreditava nos judeus como nação segundo os preceitos socialistas, fez duas tentativas de transferência étnica, para a Crimeia e a Ucrânia, mas a população local resistiu.

Liberdade

Foi só então que o ditador se deu conta de que a melhor forma de isolar os judeus era aproveitar um movimento migratório espontâneo, iniciado em meados dos anos 1920. "Para os judeus, perseguidos em diversos lugares do mundo, em especial na Europa, o isolamento era uma vantagem. Dava a eles a liberdade necessária para viver segundo seus conceitos", afirma o historiador Henry Srebrnik, da Universidade de Birmingham. Se era isolamento o que a comunidade queria, o lugar era perfeito. Birobidjan fica a 6400 km de Moscou, na fronteira com a China. Na época, a região ainda sofria com a ameaça do imperialismo japonês. Stalin tinha, portanto, todo o interesse em ocupar a área. Já em 28 de março de 1928, Moscou aprovou a escolha do distrito para ser uma unidade administrativa judaica. Em maio de 1934, era oficializada a criação do Estado Autônomo. Um ano depois, todas as placas de ruas eram escritas em russo e em iídiche. "A proposta por trás de Birobidjan era transformar o perfil cultural e socioeconômico dos judeus russos para que eles se tornassem cidadãos mais seculares e adotassem a agricultura. O iídiche era importante porque não tem a carga religiosa do hebraico", diz Robert Weinberg, autor de Stalin’s Forgotten Zion ("O Sion esquecido de Stalin"). "Lá, valia o lema ‘nacional na forma, socialista no conteúdo’."

Quem queria se mudar ganhava a passagem de trem e podia escolher entre um lote de terra, no campo, ou um terreno na cidade, para construir sua casa e seu comércio. No primeiro ano, a produção era isenta de impostos. A comunidade judaica internacional ficou dividida quanto à iniciativa. Ainda assim, forneceu apoio a quem precisasse. Um grupo sediado nos Estados Unidos angariou fundos usando garotos-propaganda como Albert Einstein. Técnicos da Argentina fizeram vistorias no local para identificar o tipo de cultura mais adaptado ao ambiente (trigo e batatas).

Em 1932, o estado, do tamanho da Suíça, já tinha 25 mil moradores judeus. Em 1938, eram 40 mil. Mikhail Kalinin, ex diretor do comitê central dos sovietes, afirmava que o número subiria ainda mais.

Dificuldades

O solo pouco fértil rendia colheitas irregulares. Muitos dos novos moradores estavam acostumados com o frio, mas não com a umidade pantanosa ou os enxames de mosquitos. Entre 1928 e 1932, enchentes arruinaram plantações e fecharam estradas todos os verões. A infraestrutura era mínima e a maioria dos recém-chegados não conhecia a agricultura. Rose Becker, a californiana que criava porcos, morreria em 1936 de uma infecção. Seu marido, Morris, comprou a passagem para os Estados Unidos, mas faleceu antes de retornar. Os filhos voltaram de vez. Como eles, a maioria das 1000 pessoas que vieram do exterior (como dos EUA, França e Argentina) desistiu rapidamente.

Quem evitou as fazendas coletivas e se instalou nas maiores cidades (além da capital, Khabarovsk, Obluchje e Babstovo) passou a trabalhar nas novas indústrias leves que fabricavam roupas e móveis. O trabalho era árduo e o salário, tímido. Mas havia a tão esperada liberdade. Nos primeiros anos da década de 1930, enquanto a Alemanha elegia Adolf Hitler, a região era uma espécie de oásis. "No início, Stalin cumpriu a promessa de dar uma relativa autonomia para o território. A vida cultural tornou-se muito ativa, com apenas algumas tentativas malsucedidas de restringir a manifestação religiosa", afirma Henry Srebrnik.

O relacionamento com os demais habitantes do estado (russos, ucranianos, chineses e coreanos) era amigável e com direitos iguais a todos. A campanha de propaganda para atrair moradores, lançada no fim dos anos 20, seguia firme. Incluiu um filme de ficção com atores judeus famosos, cartazes criados pelo artista Mikhail Dlugachov e panfletos jogados por avião ao longo de 5 mil km de território soviético. Mas logo tudo mudaria com os grandes expurgos de Stalin.

Entre 1937 e 1938, o ditador mandou matar cerca de 70% dos quadros do Partido Comunista, entre outros desafetos. Ao mesmo tempo, moveu a força cidades inteiras, muitas transferidas para a Sibéria. Birobidjan também foi alvo. Os líderes do território foram acusados de trotskismo ou atividades contra o proletariado. Ironicamente, uma das figuras proeminentes do partido no local, Joseph Lieberberg, teve os dentes arrancados sob a acusação de estimular o judaísmo no Estado Autônomo Judaico.

O começo da Segunda Guerra lançou 35 mil jovens (judeus, ucranianos e russos) da região para o front. Em compensação, 10 mil pessoas se mudaram para lá a fim de fugir das perseguições na Europa. Em 1945, a população judaica local chegou ao auge: 30 mil. Com o fim da guerra, o governo reduziu a repressão. Mas, em 1948, a sinagoga foi fechada. No mesmo ano, nascia Israel, um novo polo de atração para a comunidade na terra dos hebreus. Birobidjan sofreria um rápido processo de esvaziamento. Em 1954, eram apenas 14 mil judeus.

Retomada

"Birobidjan não era a solução. Era um lugar desolado e os judeus não tinham ligação histórica com ele. Para a minha geração, já era coisa superada", afirmou o falecido médico e escritor Moacyr Scliar, filho de imigrantes russos, em O Exército de um Homem Só. A partir de meados dos anos 80, porém, a crise da URSS inaugurou uma ebulição entre as etnias locais e o território autônomo começou a experimentar um revival judaico. As placas em iídiche foram recolocadas e a sinagoga, reaberta.

Os judeus ainda são minoria, mas crescem os casos de pessoas que se mudam de Israel para lá. Outros, que emigraram, voltam. "É melhor ser judia aqui que em qualquer outro lugar", disse ao Jerusalem Post Alisa Zilbershteyn, que tentou a vida na China e retornou. Essas pessoas têm um estímulo extra: Várias obras ligando a Rússia à China existem, como a primeira ponte entre os países naquele ponto da fronteira. O ultimo censo realizado mostrou que os judeus são menos de 1% de um total de 77 mil habitantes, mas em 1997 o número era bem menor. O lugar, hoje, é um verdadeiro centro de educação e cultura iídiche, com museu, escolas e universidade, a ponto de Mikhail Chlenov, secretário do Congresso Judaico para a Eurásia, ter defendido que o Estado Autônomo se torne uma república independente.


Saiba mais

Stalin’s Forgotten Zion, Robert Weinberg, 1998

Soviet Theory on the Jews, Lionel Kochan, 1978


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