Nascido em 4 de julho: A grande história dos EUA

Para bem e mal, um país como nenhum outro

Fábio Marton

A águia de cabeça branca, ave-símbolo dos EUA | <i>Crédito: Shutterstock
A águia de cabeça branca, ave-símbolo dos EUA | Crédito: Shutterstock

Os americanos todo mundo conhece. Qualquer um que não seja um monge vivendo na clausura e tenha TV, vá ao cinema ou ouça música consome cultura popular americana a baldadas. Fica-se com a impressão que eles são gente como a gente, o povo menos exótico do planeta. O pão branco das civilizações. Mas essa familiaridade é superficial. Americanos não pensam como brasileiros, nem como europeus. Compõem um país com uma história sem comparações, que desenvolveu suas ideias políticas, ideologias, mitos e obsessões nacionais de um jeito peculiar. Vamos tentar fazer você entrar na cabeça do americano. Entender o que move as vezes as estranhas decisões da mãe das democracias.

Terra dos livres

A mais americana de todas as palavras: freedom. Liberdade. No mito fundador, os Estados Unidos já eram livres desde a colônia. A história não começa com a descoberta do país - essa veio pelos espanhóis, que chegaram à Flórida em 1513. Os britânicos só chegariam em 1585, fundando a colônia de Roanorke, que desapareceria misteriosamente.

Pocahontas e o Capitão Smith / Getty Images

A segunda tentativa seria Jamestown, fundada em 1607. Essa seria importante até perder o status de capital, em 1699. Em Jamestown se passa a história de Pocahontas.  A jovem índia de 11 anos ficou amiga da colônia, brincando com as crianças e trazendo suprimentos. Segundo o relato do capitão John Smith, quando ele foi capturado pelos índios, Pocahontas o salvou da execução pelo próprio pai, o chefe Powhattan, colocando-se entre os dois. Smith jamais mencionou ter tido um romance com ela - o que seria no mínimo problemático, dado sua idade.

Treze anos depois de Jamestown, um navio destinado à Virginia desviou-se de rumo e foi parar milhares de quilômetros ao norte, no atual estado de Massachusetts. Era o Mayflower e, dentro dele, vinham os peregrinos, PURITANOS separatistas refugiados da perseguição religiosa na Inglaterra. Eles iniciaram outro polo de colonização em Plymouth. Os peregrinos viveriam em uma proto democracia, governando-se a si mesmos de forma igualitária. 


Puritanos

A "pureza" que eles defendiam era a de um protestantismo puro, livre do catolicismo. Puritanos não eram sexualmente reprimidos para a época, e louvavam as virtudes do sexo dentro do casamento, algo que os católicos não faziam. Havia dois tipos deles: os separatistas queriam se divorciar da Igreja Anglicana. Os não separatistas, que chegaram depois e ficaram conhecidos apenas como "puritanos", só queriam reformá-la.O abismo entre norte e sul dos EUA começa já por onde estaria o berço da nação. "Os peregrinos são ignorados no sul, que se focam em Jamestown. Os nortistas ignoram as colônias sulistas", afirma a historiadora Jane Dailey, da Universidade de Chicago.


➽ Do ponto de vista da Inglaterra, se gente inconveniente quisesse se mandar para o outro lado do mar, tanto melhor. Bem diferente de nós aqui, as colônias americanas foram basicamente deixadas ao léu até a década de 1760. A isso, os historiadores americanos chamam de "negligência salutar". Nesse século e meio, eles haviam desenvolvido uma economia altamente independente, que pouco importava ou exportava. E mal pagava impostos.

Mas então a Inglaterra havia saído da Guerra dos Sete Anos, contra a França. Essa incluiu batalhas na América, na qual estreou o próprio George Washington. Os cofres estavam vazios. E a coroa finalmente decidiu que precisava ter lucro com as colônias.

A reação foi de revolta. Surgiu o slogan "sem taxação, sem representação". Ou as colônias ganhariam o direito de eleger representantes para o Parlamento, ou nenhum imposto seria pago. O descontentamento evoluiria para a conspiração e, daí, a rebelião aberta.

Em 12 de dezembro de 1773, conspiradores liderados por Paul Revere (o famoso cavaleiro que saiu gritando "Os ingleses estão vindo!" numa madrugada de 1775, alertando) e Samuel Adams, os "Filhos da Liberdade", se disfarçariam de índios, subiriam em três navios da Companhia das Índias Orientais e jogariam 342 caixas de sua preciosa carga de chá no mar. 

A Festa do Chá de Boston era um protesto contra algo aparentemente modesto: um subsídio dado pelo governo britânico à Companhia, que prejudicava os importadores de chá locais. Mas daria início à cadeia de eventos que terminaria com a Revolução Americana. O movimento direitista Tea Party acredita estar retomando os valores da fundação dos EUA. Sua bandeira, a cascavel com as palavras "Don"t Tread on Me" ("não pise em mim"), foi criada pelo general Christopher Gadsden e usada pelas tropas revolucionárias.

Sob alerta, a coroa impôs várias medidas restritivas, que os colonos chamaram de Atos Intoleráveis. O porto de Boston foi fechado até ser paga a indenização pelo chá. Todo o governo de Massachusetts foi substituído por protegidos da coroa. Outros atos facilitavam a ocupação militar na América. Diante disso, em maio de 1774, reuniu-se o Primeiro Congresso Continental. Cinquenta e seis representantes das 13 colônias fizeram uma petição ao rei George III para abolir as medidas restritivas. O rei não apenas ignorou os colonos como mandou mais tropas. Eles reagiram se armando. Em 19 de abril de 1775, uma força britânica tenta confiscar os canhões dos colonos em Middlesex, Massachusetts. Eles reagiram com violência, e a Batalha de Lexington e Concord que se seguiu marca o início da Revolução Americana.

 Em plena guerra, um Segundo Congresso Continental foi formado em 10 de maio de 1775. Sob a presidência de Samuel Huttington, o congresso reuniria os Pais Fundadores do país, como Thomas Jefferson e Benjamin Franklin. Decidiria por criar sua própria moeda e seu próprio Exército - liderado por George Washington, o veterano do Exército britânico. Os famosos Marines surgiram então. Eram uma força de atiradores de elite usada em navios, tentando acertar oficiais e alvos prioritários a partir do mastro. Evoluiriam para um grupo de elite independente da Marinha ou qualquer outra força armada, atuando por ar, mar e terra.

E, por fim, em 4 de julho de 1776, votaria pela independência, cuja declaração começa por algumas das mais belas palavras revolucionárias já escritas: Temos por verdades autoevidentes que todos os homens são criados iguais, e que eles são dotados pelo Criador com certos direitos inalienáveis. Direitos entre esses são a vida, liberdade e a busca pela felicidade. 

Com uma mão da França, que se aliou a eles contra o velho rival, os Estados Unidos da América se tornariam a primeira colônia no continente a ganhar formalmente independência, em 3 de setembro de 1783, com o Tratado de Paris.

Um povo sob uma constituição

Criar um governo central a partir de 13 colônias com governos até então independentes não era uma tarefa fácil. Enquanto se discutia a Constituição, em 1787, uma rebelião explodiu em Springfield, Massachusetts, tentando depor o governo.

A solução foi criar um governo altamente federalista - algo que levou a muitas brigas no Congresso, e à fundação dos primeiros partidos políticos, o federalista e o antifederalista. Os estados foram autorizados a fazer suas próprias leis e sistemas legais, desde que concordassem com a Constituição.


O burro e o elefante

O Partido Antifederalista foi rebatizado de Partido Republicano-Democrata em 1800. Ele racharia em 1825, dando origem aos partidos Republicano e Democrata. No século 19, eles ocupavam lugares opostos dos atuais: republicanos eram progressistas, democratas, conservadores pró-escravidão. Isso mudaria nos anos 1930, com a oposição dos republicanos ao democrata Franklin Delano Roosevelt, que promulgou medidas intervencionistas para combater a Grande Depressão. Ainda no século 19, os partidos ganharam seus símbolos em charges políticas: o elefante republicano e o burrinho democrata. Podem ser visto de duas formas: para os adversários, o elefante significa falta de sutileza, a forma como os republicanos lidam com minorias ou a guerra - ou, para os republicanos, um animal sábio, imponente e venerável. O burro poder querer dizer teimosia e... burrice - mas também um humilde trabalhador por excelência, quem os democratas dizem defender.


➽ O federalismo americano tem um lado negativo (que veremos adiante), mas também suas vantagens. "Estados diferentes podem ter `sabores" muito diferentes", explica a Profa. Dailey. "Era um dos propósitos dos Pais Fundadores incorporar os vários estados sem passar por cima da soberania local. Hoje, a legalização da maconha é um grande exemplo de como o que acontece num estado não se aplica aos outros!"

O texto original da Constituição não definia precisamente os direitos dos cidadãos. Isso viria em 1791, com o pacote com as dez primeiras emendas. Das quais as mais célebres são a Primeira Emenda, que garante o absoluto direito de expressão e religião - e nenhum outro lugar do mundo permitiria algo como a Ku Klux Klan. Ela existe por causa da Primeira Emenda.

Os pais fundadores assinam a constituição dos Estados Unidos da América / Wikimedia Commons

A Segunda Emenda permite o porte de armas. Em seu texto, há uma razão folclórica hoje em dia: os Pais Fundadores esperavam que, se algum tipo de tirania se instalasse no país, os cidadãos pudessem usar suas armas e fazer uma segunda revolução, formando milícias. É um dos temas que mais dividem os americanos hoje.

Mas talvez a parte mais controversa seja o Colégio Eleitoral. A palavra "democracia" não constava em nenhum discurso ou documento dos Pais Fundadores. Porque eles não acreditavam nela. "A palavra `democracia" era principalmente usada pejorativamente até o século 19 - e altamente associada à anarquia", afirma a historiadora Sophia Rosenfeld, da Universidade de Yale. "As figuras principais desenhando o governo depois de 1776 estavam tentando criar uma república, não uma democracia. E certamente eles enfaticamente tentaram evitar criar um sistema de governo em que `o povo" governasse diretamente."

 O presidente da República nos EUA não é eleito por voto majoritário. São representantes de cada estado, em mesmo número que os congressistas, que depositam todos os votos no vencedor das eleições dentro do estado. O que leva à possibilidade de alguém ganhar em número de votos, mas perder as eleições - mesmo por milhões de votos, como em 2016. Agora, que fomos esmagados pelo Colégio Eleitoral, podemos começar a refletir sobre como essa instituição foi desenhada para proteger os interesses rurais de escravocratas e pequenos estados", comenta Jane Dailey.

Liberdade e escravidão

Vamos agora ao grande elefante na sala: o racismo. "A revolução de 1776 e, especialmente, seus documentos como a Declaração de Independência serviram como modelo para movimentos de independência, liberação nacional e democracia em muitas partes do mundo", diz Sophia Rosenfeld. "Mas a Revolução Americana também ajudou a legitimar e, de certa forma, acelerar uma história interna de escravidão racializada e a expropriação e exploração da terra de povos nativos."

Toda vez que o assunto vinha à tona durante os congressos constitucionais, os congressistas entravam em guerra. Acabou-se por decidir que não era a hora de legislar por isso, e a emancipação ficou por conta dos estados. Estados industriais como Nova York e Pensilvânia acabaram com a escravidão ainda no século 18. No sul, que vivia de plantações escravistas como as do Brasil, a ideia era vista com horror.

Em 1860, o abolicionista Abraham Lincoln foi eleito presidente. Apesar de ter prometido que não interviria na escravidão, nenhum escravocrata comprou a ideia. Antes mesmo de assumir a cadeira, em 4 de março de 1861, sete estados do Sul haviam se rebelado e diziam ser outro país, os Estados Confederados da América. A guerra começaria em 12 de abril e levaria mais quatro anos. Seriam entre 750 mil a 1 milhão de mortes - mais que o dobro do que os americanos perderiam na Segunda Guerra.


Estados Confederados da América

A bandeira confederada / Getty Images

A bandeira confederada foi usada pelos separatistas sulistas a partir de 1863. Suas estrelas representam os 13 estados rebeldes. Seu uso hoje é extremamente controverso. Ela é um símbolo do orgulho sulista. Isto é, o dizem os que a usam. Mas negros e pessoas de outros estados a enxergam como um símbolo racista, defendendo essa herança da escravidão.


Lincoln quebrou sua promessa e o Congresso aboliu a escravidão em 31 de janeiro de 1865. Em 9 de abril, o general Robert E. Lee, chefe das forças confederadas, se rendeu. Quatro dias depois, o presidente seria assassinado pelo fanático pró-sulista John Wilkes Booth.

Booth não podia reverter o fim da escravidão, mas impediu o presidente de prosseguir com seu plano de integrar os escravos libertos. Os sulistas reagiram ao novo status dos negros de duas formas: a primeira foi criando leis forçando sua segregação dos brancos e tentando limitar o máximo possível sua capacidade de votos, exigindo tarifas para se registrar na seção eleitoral e proibindo o voto dos analfabetos (exceto os brancos). Ou simplesmente linchando os negros que ousavam votar ou protestar por seus direitos - a Ku Klux Klan foi fundada no mesmo ano da abolição e patrocinou 400 linchamentos apenas entre 1868 e 1871. "A política do sul se orientou para a supremacia branca pela maioria do tempo desde 1865, primeiro com os democratas, agora com os republicanos", comenta Jane Dailey.

As leis segregacionistas - também conhecidas como "Leis Jim Crow", por conta de um personagem racista de comédias de vaudeville - surgiram, em parte, como consequência do próprio federalismo dos EUA. "As leis Jim Crow eram municipais e estaduais, e existiram até serem consideradas inconstitucionais", explica a historiadora Jane Dailey.

A grande vergonha nacional só começaria a ser abordada a partir de 1954, quando uma decisão da Suprema Corte acabou com a segregação nas escolas em todo o país. Tanto a esperança de mudança quanto a reação dos brancos levou a mais de uma década de debates, protestos, violência e novas leis, o Movimento dos Direitos Civis. Em 1968, havia sido proibida a segregação em quaisquer instituições públicas, no trabalho e no aluguel e compra de imóveis, e, incrivelmente, levantadas as proibições de casamentos inter-raciais, que vigoraram até 1967 em alguns estados.


Luta histórica


Foto: USIA

A campanha pelos Direitos Civis começou em 1º de dezembro de 1955. A ativista Rosa Parks (acima) pegou um ônibus segregado em Montgomery, Alabama. No meio do caminho, a seção dos brancos ficou cheia e o motorista decretou que seu assento agora era reservado para os brancos e pediu que ela saísse. Parks se recusou e acabou presa. A notícia se espalhou e deu origem ao Boicote de Ônibus de Montgomery, no qual o até então pastor Martin Luther King Jr. estreou como ativista. A história correria o país e a Suprema Corte decretaria que as leis de segregação eram inconstitucionais, forçando a integração.


A luta pelos direitos civis faria dois mártires notórios: Malcolm X, em 1965, e Martin Luther King Jr., três anos depois. O primeiro, morto pelos próprios negros da radical Nação do Islã, após ter se distanciado dela. O segundo, por um misterioso apoiador de um candidato presidencial racista - dando origem à teoria da conspiração de que teria sido vítima do FBI. Que é, aliás, defendida por sua família, que perdoou o assassino.

O racismo, não é segredo, não acabou com a conquista dos direitos civis. Mas os ativistas negros dos Estados Unidos se tornaram um lumiar para o resto do mundo - talvez, mais que em qualquer outro lugar, no Brasil, o país com a maior população negra fora da África.

Expansão: Deus mandou

Em 1789, os Estados Unidos eram uma tripa que ocupava apenas a costa atlântica do país. Ela começou a inflar em 1803, quando Napoleão, pensando a curto prazo, vendeu a Louisiana, uma enorme faixa do Golfo do México até o Canadá. A segunda grande adição seria o território do OREGON, na costa noroeste, supostamente uma área de domínio conjunto com o Reino Unido, que acabou ocupada pelos americanos e, depois de muita disputa, foi oficialmente cedida em 1846. Por essa época, começava a circular uma nova expressão: Destino Manifesto. É a ideia de que os Estados Unidos foram escolhidos pelo próprio Criador para se expandirem até o Oceano Pacífico, e, quem sabe, o resto do mundo, espalhando seu modo de vida único, a liberdade e a democracia. O termo foi criado pelo jornalista John O"Sullivan em 1845, defendendo mais uma expansão territorial.

Nas icônicas diligências, os migrantes saíam da região do Missouri e viajavam quase 3,5 mil quilômetros para a costa do Oceano Pacífico. No meio da Trilha do Oregon estavam sujeitos a cólera, escorbuto, picadas de cascavéis, ataques por tribos indígenas e até mesmo estouros de manadas de búfalos. 


Ave nacional


Wikimedia Commons

A águia da cabeça branca tornou-se a ave-símbolo dos EUA já em 1782. Mas não pelas razões que os americanos imaginam, de ser um animal "livre". É só que os Pais Fundadores queriam comparar sua república à dos antigos romanos, que usavam uma águia como símbolo.


➽ O Texas era um território mexicano que havia recebido uma vasta maré de migrantes dos EUA. Em outubro de 1835, com o apoio de mexicanos que viam o próprio governo como tirânico, eles proclamaram a independência, dando origem a uma curta guerra que acabaria em abril seguinte. A república, nunca reconhecida pelo México, propunha se unir aos Estados Unidos, mas o México dizia que isso seria uma declaração de guerra. Entre 23 de fevereiro e 3 de março de 1836, a missão do Álamo, uma igreja fortificada, foi cercada pelos mexicanos. Nenhum soldado texano sobreviveu. O termo "lembre-se do Álamo" tornou-se o grito de guerra dos texanos na revolução e depois.

Isso só acirrou os ânimos, levando à anexação do Texas , em 28 de março de 1845. Isso deu origem a uma guerra que se estenderia até 1848, terminando com a anexação de todos os territórios do norte do México, até a Califórnia. Tecnicamente foi uma compra, por US$ 15 milhões, ou US$ 482 milhões em valor atual. 

O gênio havia saído da garrafa. "O conflito foi um ato de expansionismo agressivo contra um país vizinho", afirma Amy S. Greenberg, da Universidade Estadual da Pensilvânia. "Ela transformou os EUA no senhor do continente e anunciou a chegada de uma nova potência. A primeira guerra dos EUA contra outra república decisivamente rompeu com o passado e moldou o futuro, e ainda hoje isso afeta como o país age no mundo."

Os mexicanos, que estavam lá desde o século 16, tornaram-se convidados. Ainda hoje, existem as comunidades dos tejanos e califórnios: suas famílias são extremamente antigas, da época do domínio hispânico. A culinária do Texas, o Tex-Mex, basicamente vem dessa mistura.

No meio do caminho do Destino Manifesto estavam os índios. "As tribos tinham o que os brancos queriam, então eles tomaram", afirma o antropólogo e ativista indígena Ward Churchill. Os Estados Unidos simplesmente chutaram essa pedra para o lado com o Ato de Remoção dos Índios de 1830 e medidas posteriores. Foi o surgimento da ideia das reservas indígenas, onde eles ganhariam o "privilégio" de existir. "As reservas foram concebidas como locais de outra forma inúteis em que o resto da população indígena poderia ser concentrada, convenientemente fora da visão da população colonizadora que repovoou suas terras", diz Churchill. "Tinham muito mais em comum com as `reservas judias" que os nazistas propuseram que as reservas no Brasil."

Troca de papéis

Os EUA aumentariam vertiginosamente em população e capacidade industrial ao longo do século 19. Abrigando imigrantes de todo o mundo - alguns, como os italianos e irlandeses, recebendo um tratamento de invasores. Irlandeses e italianos, católicos, não eram considerados brancos - afinal, eles não podiam se enquadrar na narrativa dos peregrinos e Pais Fundadores. "Os irlandeses frequentemente eram jogados junto com os negros livres", afirma o historiador e militante Noel Ignatiev, autor de How the Irish Became White ("Como os Irlandeses Viraram Brancos"). "Eles lutavam uns com os outros e com a polícia, socializavam e, eventualmente, casavam entre si, e desenvolveram uma cultura comum de classe baixa." Essa é uma história que deve soar familiar aos mexicanos de hoje em dia - com a diferença de que eles eram os donos originais de um quarto do país.

Quando a Europa cometeu o suicídio coletivo conhecido como Primeira Guerra Mundial, essa nação de imigrantes saiu-se credora de um continente inteiro. Os anos 1920 foram, assim, uma época de festa - inclusive na bolsa de valores, onde ações subiam sem parar.

Até que a bolha estourou. Numa quinta feira, 24 de outubro de 1929, as ações em Wall Street caíram 11%. Na segunda-feira seguinte, perderiam 13%. E mais 12% no dia seguinte - um prejuízo total de US$ 30 bilhões (ou US$ 420 bilhões em dinheiro de hoje). Falências e demissões em massa viriam a seguir.

A Grande Depressão mudou para sempre a forma como os EUA lidavam com o capitalismo. Como vimos lá atrás, o país havia nascido de uma revolta de empreendedores contra impostos. Os peregrinos, os Pais Fundadores e os caubóis eram autossuficientes, não precisavam do Estado. A liberdade política andava de mãos dadas com a liberdade econômica. A tradição política dos EUA dogmaticamente defendia o livre mercado.

Não mais. Em 1933, Franklin Delano Roosevelt foi eleito pelo Partido Democrata prometendo acabar com a crise. Seu partido era, até então, o reduto do conservadorismo dos estados sulistas - os republicanos, afinal, são o partido de Lincoln. Com o New Deal (algo como "novo acordo"), o presidente interferiu profundamente na economia, criando leis trabalhistas, um sistema de assistência social e obras públicas para garantir o emprego. Democratas e republicanos trocariam de lado, com os primeiros representando o progressismo das cidades grandes, o segundo, o conservadorismo do interior.

Medo e terror

O velho Destino Manifesto falou alto da Segunda Guerra até o fim da União Soviética. O país moveria suas pecinhas no tenso tabuleiro da Guerra Fria, manipulando forças e se envolvendo em guerras locais. Perderia sua única guerra - a do Vietnã  - por abandono. Os EUA nunca declararam guerra aos comunistas do Vietnã do Norte. Em tese, estavam lá apenas dando "assistência" a seus aliados do sul numa guerra civil. Mais de dez comunistas morreram para cada americano - até 1,160 milhão contra 58 mil. Mas os EUA seriam derrotados moralmente, por pressão interna, diante da massiva campanha contra o conflito, que então andava de braços dados com a dos Direitos Civis. Deixaram o país em 1973. 

Atingida por suas contradições internas, mais que qualquer esforço americano, a União Soviética desabou em 1991. Os EUA emergiam, incontestados, como a única superpotência do mundo. A década de 1990 parece um período bucólico perto do que veio depois. Foi quando o cientista político Francis Fukuyama - americano nascido em Chicago - decretou que a história havia acabado. A democracia e o capitalismo haviam vencido para sempre.

Mas a roda da História, se estava realmente enguiçada na última década do século 20, voltou a girar violentamente em 11 de setembro de 2001, quando dois aviões civis botaram abaixo os dois prédios mais altos de Nova York, com 2 606 de seus ocupantes - no maior ato de terrorismo da História. A ÁGUIA seria atingida em seu mais profundo orgulho. Militantes radicais se tornariam os novos comunistas.

E chegamos, com isso, ao país que tomou a peculiar decisão nas eleições de novembro e, mais que nunca, se encontra dividido em torno dela. É um país com um passado racista e imperialista, profundamente dividido e com leis arcaicas. Mas também aquele que venceu tiranias, levou o ser humano à Lua, inspirou a independência de toda a América e fez com que a democracia se tornasse uma ideia universal.

A pátria da Ku Klux Klan é a mesma dos direitos civis. O país da Igreja Batista de Westboro, que tenta constranger amigos de gays durante seus funerais, é também a mesma da contracultura, do jazz, rock"n"roll, hip hop, dos hippies e punks. Ninguém precisa tornar os EUA grandes de novo. Nunca deixaram de ser. Para bem e para mal.


Ponto fraco

Um dos pôsteres criados na tentativa de recrutar intelectuais negros / Wikimedia Commons

A opressão aos negros, óbvia inconsistência no ideal americano, seria explorada por seus inimigos. Nazistas e japoneses soltavam cartazes de aviões pedindo que os negros se juntassem a eles. A União Soviética tentou capitalizar o máximo possível a situação, criando pôsteres e tentando recrutar intelectuais negros. Este pôster incrivelmente hipócrita circulou pela Alemanha nazista em 1944. Os EUA são um monstro com o capuz da Ku Klux Klan, com os negros dentro de uma gaiola. E segurando uma bolsa de dinheiro onde se apoia uma caricatura de... judeu.


Saiba mais

America"s Hidden History, Kenneth C. Davis, 2009, Harper Collins


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