O julgamento do macaco: A evolução no banco dos réus

Em 1925, no interior dos EUA, professor foi ao tribunal por ensinar a evolução

Reinaldo Lopes

Ilustração da história 'Os três macacos sábios' | <i>Crédito: Shutterstock
Ilustração da história 'Os três macacos sábios' | Crédito: Shutterstock

Não é tão incomum um julgamento se transformar num circo. Mas em Dayton, cidadezinha no estado americano do Tennessee, isso aconteceu quase literalmente. Naquele verão de 1925, bandeirinhas e camelôs vendendo limonada lotavam as ruas em volta do tribunal, enquanto chimpanzés realizavam truques para divertir a multidão. Os donos dos bichos diziam que a macacada estava ali para ser testemunha no julgamento. Até que a piada fazia sentido: o que estava em jogo na corte era a teoria que defende o parentesco entre os símios e os seres humanos.

Quem estava sentado no banco dos réus era John Thomas Scopes, professor do ensino médio. A acusação? Ter ensinado as ideias do naturalista Charles Darwin numa escola pública. Naquela época, a teoria da seleção natural, proposta pelo cientista inglês no século 19 para explicar a origem das espécies, já era amplamente aceita pelos cientistas. No senso comum, entretanto, a coisa era bem diferente: o julgamento foi o primeiro de uma série interminável de brigas entre fundamentalistas cristãos e defensores da teoria da evolução. A polêmica de Dayton acabou opondo um dos maiores políticos dos Estados Unidos ao advogado mais famoso do país. E foi um dos primeiros casos de interesse público a ser acompanhado em “tempo real”, graças às transmissões de rádio feitas a partir da cidadezinha de 2 mil habitantes.

O professor John Scopes entrou meio de gaiato na história. Ele era agnóstico e parecia simpatizar com a teoria darwinista, mas não há nenhuma indicação de que ele tivesse feito disso uma bandeira quando começou a dar aulas. Aliás, ele era professor de Educação Física: só havia ensinado Biologia quebrando o galho como professor substituto.

Ao longo dos anos 1920, 15 estados americanos criaram projetos de lei que restringiam de alguma forma o ensino da evolução. O Tennessee foi o primeiro a proibir o ensino em escolas públicas de “qualquer teoria que negue a história da criação divina conforme ela é contada na Bíblia, e que ensine que o homem descende de uma ordem inferior de animais”, segundo dizia o texto legal. A situação do Tennessee logo fez do estado um alvo da ACLU ("União Americana das Liberdades Civis"), ferrenha opositora de intervenções religiosas no governo.

A ACLU se ofereceu publicamente para bancar os custos judiciais de qualquer pessoa que desafiasse a lei. Foi aí que entrou em cena George Rappalyea, dono de uma empresa de mineração em Dayton. Rappalyea achou a legislação um absurdo e convenceu vários moradores importantes da cidade de que um julgamento sobre a questão iria atrair publicidade e, quem sabe, melhorar a sonolenta economia de Dayton. O professor Scopes, então com 24 anos, foi chamado para uma reunião. “Você andou dando aulas com este livro?”, teria lhe perguntado Rappalyea, mostrando uma cópia do livro didático A Civic Biology (“Uma Biologia Cívica”). Diante da afirmativa de Scopes, ele propôs que o professor fosse o pivô de um processo.

Desde o início, tudo estava planejado para ser um grande debate público. Os dois promotores da cidade, amigos de Scopes, concordaram em abrir processo contra ele. O mais engraçado é que ninguém sabe se as tais aulas sobre evolução realmente aconteceram. O professor admitiu que pediu aos alunos para lerem o capítulo do livro sobre o tema em casa, mas parece não ter dado uma aula a respeito em classe. De qualquer jeito, naquela altura do campeonato, isso era o que menos importava.

Mentes estreitas

“Essa controvérsia é tão tipicamente americana quanto a torta de maçã e o Tio Sam”, disse o falecido paleontólogo e divulgador científico Stephen Jay Gould ao comentar o julgamento de 1925 (e os casos seguintes que se espelharam nele) em seu livro Pilares do Tempo. Depois dos embates que aconteceram na Inglaterra após a publicação das ideias de Darwin no livro A Origem das Espécies, em 1859, a discussão sobre a teoria evolutiva logo se acalmou na Europa, e acabou virando mero papo de cientista. Os biólogos podiam discordar sobre os detalhes, e até desafiar Darwin em um ou outro particular, mas sem duvidar de que a evolução fosse um fato.

A situação nos Estados Unidos, porém, era outra, principalmente a partir do fim do século 19. Primeiro, por causa do movimento fundamentalista cristão: várias igrejas protestantes americanas estavam passando por um processo profundo de reinvenção, na tentativa de reafirmar sua fé. Para ganhar força, elas apostavam em uma leitura literal da Bíblia, deixando de lado a tradição de interpretar histórias como a de Adão e Eva como alegorias. Assim, segundo os religiosos, não poderíamos ter parentesco algum com um reles macaco.

Por outro lado, muitos defensores do darwinismo não ajudavam a atrair simpatizantes para suas ideias. No início do século 20, tornaram-se comuns as aplicações esdrúxulas da teoria de Darwin. Segundo o naturalista, os indivíduos que nasciam mais adaptados ao seu ambiente, venciam seus competidores e passavam suas características para as gerações seguintes. Mas alguns sociólogos transformaram a ideia da seleção natural numa regra para a humanidade. Certas “raças”, segundo eles, eram naturalmente inferiores. Já pessoas pobres, ou com problemas físicos e mentais, deviam ser esterilizadas – ou eliminadas –, para permitir que a nossa evolução continuasse. Vale a pena dar uma olhada num trechinho do livro didático A Civic Biology, aquele mesmo que Scopes usou em suas aulas em Dayton, para mostrar que esse pessoal não estava brincando quando discriminava seus semelhantes: “Se tais pessoas fossem animais inferiores, nós provavelmente as mataríamos para evitar que se reproduzissem. A humanidade não permite isso, mas temos a possibilidade de separar os sexos nos asilos ou outros lugares e de evitar de diversas maneiras o casamento e as possibilidades de perpetuar uma raça tão degenerada.”

Errou o juiz

Do lado da acusação, o julgamento atraiu o principal inimigo de Darwin em território americano, o político William Jennings Bryan, do Partido Democrata. Bryan era um populista (apelidado de “o Grande Plebeu”), defensor dos direitos dos trabalhadores e das minorias. Tudo indica que sua antipatia pela evolução foi causada pelas doutrinas quase nazistas que se aproveitavam do darwinismo.

Famoso pela religiosidade e pela oratória capaz de emocionar multidões, o democrata Bryan tinha sido três vezes candidato a presidente dos Estados Unidos (na primeira, foi o mais jovem político a concorrer ao cargo, aos 36 anos). No auge da carreira, chegou a ser secretário de Estado. Em 1925 ele já estava decadente, mas continuava sendo uma celebridade. Bryan tinha sido, inclusive, o principal articulador das várias leis anti-Darwin que foram esboçadas no país durante aquela década. Com esse conhecimento de causa, ele se ofereceu para auxiliar a acusação no julgamento.

O democrata Bryan foi obrigado a encarar, do lado oposto, um homem que tinha sido seu colega de partido na primeira vez em que se lançara à presidência. Era Clarence Darrow, um dos advogados mais famosos do país, agnóstico militante e intelectual respeitado. Ele tinha acabado de conseguir a absolvição de dois assassinos em série e ficou entusiasmado em poder enfrentar Bryan. Darrow foi aceito para fazer a defesa de Scopes, ao lado de mais dois advogados.

Quando o juiz John Raulston iniciou o julgamento, no dia 10 de julho, o tom circense da coisa estava mais do que claro. Por causa do calor e das mil pessoas (300 delas em pé) presentes no tribunal, dois policiais foram escalados para abanar leques enormes, refrescando a sala. O próprio Bryan usava um grande leque de folhas de palmeira. Com isso, ele declarou pretender demonstrar “o grande plano eterno de adaptar toda a natureza ao uso do homem”.

O professor americano John Thomas Scopes durante o julgamento / Getty Images

O evento logo ganhou o apelido de “Julgamento do Macaco de Scopes”, em referência ao parentesco entre o homem e os outros primatas. Mais de 100 repórteres estavam cobrindo o evento, entre eles H.L. Mencken, do Baltimore Sun, que traçou um retrato nada elogioso de Bryan: “Ele já teve um pé na Casa Branca, e a nação tremeu ao som de suas palavras. Agora ele é um papa de araque, irmão dos pastores esquecidos que convencem ignorantes em tabernáculos de ferro atrás dos pátios de estações de trem. Que tragédia, começar a vida como herói e terminá-la como bufão”.

Conforme o julgamento se desenrolava, ficou claro que a estratégia da defesa – transformar o caso Scopes num debate sobre a verdade científica da evolução e mostrar que a lei do Tennessee era inconstitucional – não ia funcionar com o juiz Raulston. Ele declarou que a única coisa que importava era saber se Scopes tinha ou não dado aulas sobre darwinismo. Enquanto isso, a briga entre Bryan e Darrow ficava cada vez mais parecida com uma disputa pessoal de oratória. O primeiro chegou muito perto de negar que os seres humanos fossem mamíferos em sua fala. Já Darrow pediu para interrogar Bryan e mostrou que o líder populista não era tão religioso assim: ele não acreditava, por exemplo, que o Universo tivesse sido criado em seis dias, como diz a Bíblia. Raulston interveio e declarou que o depoimento de Bryan era irrelevante e seria apagado dos registros do julgamento.

Darrow então revelou a verdadeira estratégia da defesa: pediu que declarassem Scopes culpado – o que o juiz acabou fazendo no dia 17 de julho. O objetivo era levar o caso até a Suprema Corte do Tennessee, para que a instância máxima da justiça estadual definisse de uma vez por todas que a lei era inconstitucional, pois interferia na separação entre a religião e o Estado. Mas o tiro saiu pela culatra. Quando o caso chegou aos juízes da Suprema Corte, eles se apegaram a um detalhe técnico do veredicto: após decidir que Scopes era culpado, Raulston o havia multado em 100 dólares (valor que foi pago pela ACLU). Mas a lei estadual do Tennessee estipulava que todas as multas acima de 50 dólares tinham de ser fixadas por um júri, não apenas por um juiz. Baseados nisso, eles anularam a sentença, mas acabaram não julgando o mérito da lei anti-Darwin. Ela só seria definitivamente derrubada mais de 40 anos depois, em 1968. Scopes morreu dois anos depois disso, em 1970.


 Evolução obstruída

Em algumas partes dos Estados Unidos, o ensino religioso competia com Darwin

É preciso reconhecer uma coisa em relação aos americanos que brigam contra a teoria da seleção natural: persistência não lhes falta. Prova disso é que o país sempre foi palco de conflitos sobre o ensino de Darwin na educação formal. Nos anos 1970, por exemplo, dois estados do Sul – Arkansas e Louisiana – aprovaram estatutos que estabeleciam tempo igual nas aulas de biologia para a evolução e a chamada “ciência da criação”. Só havia um problema: essa teoria, uma suposta validação dos relatos da Bíblia por meio de pesquisas, não tinha nenhuma evidência científica que apoiasse suas ideias. Finalmente, em 1987, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou todas as tentativas de incorporar a ciência da criação ao currículo escolar. Nem assim os criacionistas desistiram: em 1999, a teoria de Darwin foi retirada do currículo escolar obrigatório das escolas do Kansas, numa decisão que acabou derrubada em 2001. A teoria do design inteligente – que a imensa maioria dos cientistas considera uma nova tentativa de emplacar o ensino religioso disfarçado de ciência  – ganhou força nos Estados Unidos. Ela propõe que a vida é complexa demais para que tenha surgido graças ao processo aleatório da seleção natural. Todos os seres vivos seriam fruto de um design ou “projeto” original. Embora os proponentes da teoria não digam que o “projetista” seja necessariamente o Deus da Bíblia, muitos dos seus defensores são cristãos fundamentalistas. Uma escola da pequena Dover, na Pensilvânia, tentou incluir a nova teoria em seu currículo. Mas uma decisão judicial considerou o ato inconstitucional.


Saiba mais

Pilares do Tempo, Stephen Jay Gould, Rocco, 2002


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