O que há com a Coreia do Norte?

Entenda como surgiu o reino ermitão e como sua história explica a obsessão atômica

Carlo Cauti

Crianças destruindo soldado americano em cartaz norte-coreano | <i>Crédito: Wikimedia Commons
Crianças destruindo soldado americano em cartaz norte-coreano | Crédito: Wikimedia Commons

Quando Kim Jong-il nasceu, dois arco-íris foram vistos no céu. Com 3 semanas de idade, já era capaz de andar. Na primeira vez em que pegou um taco de golfe, em 1994, fez 11 buracos numa tacada só. Durante sua vida, seria um ícone da moda mundial e inventaria o hambúrguer. Seu filho, Kim Jong-un, que assumiu em 2011, mais modestamente aprendeu a dirigir aos 3 anos e ganhou uma corrida de iate aos 9. Já o patricarca Kim Il-sung espantou um navio japonês com pedrinhas e ganhou a guerra praticamente sozinho, matando centenas de soldados inimigos pessoalmente, estilo Rambo. 

Esta é a verdade alternativa sob a qual vive o Estado da Coreia do Norte. Um país pequeno, com território menor que o Amapá, 28 milhões de habitantes e governado por uma dinastia excêntrica de “presidentes” ou “líderes” hereditários, cujo poder é visto como literalmente sobrenatural.

O rato que ruge, a bizarra ameaça nuclear do século 21. O país eremita, no qual não existe internet – segundo seus líderes, para proteger a reputação do Ocidente (isso mesmo). Afinal, há algum método nessa loucura?

No princípio era a guerra 

Domingo, 25 de junho de 1950, 4h da manhã. Um dia chuvoso no 38° paralelo, a fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Em poucos minutos, o Exército norte-coreano, treinado por meses para a invasão, com 350 mil homens, 500 tanques de guerra e 2 mil peças de artilharia, abre fogo pesado contra as posições sul coreanas. Logo em seguida, dez divisões de infantaria e uma divisão blindada atravessam a fronteira. É o começo da Guerra da Coreia, que não foi declarada – era uma invasão-surpresa, vinda de um Estado que não era reconhecido pela Coreia do Sul, nem a reconhecia.

Soldados e civis brandindo livros do Grande Líder / Getty Images

Uma guerra que quase deu certo para a Coreia do Norte. O Exército sul-coreano foi completamente surpreendido e demostrou grave desorganização. Os apenas 100 mil soldados sul-coreanos, mal equipados e com um péssimo treinamento, montaram uma pífia resistência. A notícia da invasão só chegou ao comando às 10h da manhã, seis horas após o início. Já na tarde do primeiro dia de guerra os aviões norte-coreanos bombardearam o aeroporto de Seul. Um começo fulminante.

“A divisão histórica da península coreana não foi feita pelas duas Coreias, e sim pela União Soviética e pelos EUA em 1945. E esse ponto ainda hoje é muito bem lembrado em ambas as Coreias, provocando bastante ressentimento”, explica Sangsoo Lee, pesquisador sênior especializado em questões coreanas do Instituto para as Políticas de Segurança e de Desenvolvimento de Estocolmo, na Suécia.

Foi por conta de uma extensão esquecida da Segunda Guerra. Em 9 de agosto, mesmo dia da explosão de Nagasaki, os soviéticos invadiam os territórios japoneses na Ásia continental. A Coreia havia sido engolida por uma manobra diplomática do Japão, em 1910. Como aconteceu com a Alemanha, com a derrota, a península foi dividida em duas áreas de influência: a soviética no norte e a americana no sul. A fronteira foi marcada arbitrariamente no 38° paralelo, local onde os exércitos das duas superpotências se encontraram.

O clima logo esquentou. Entre 1949 e 1950 ocorreram vários incidentes na fronteira. Escaramuças pontuais que se tornaram cada vez mais violentas. No verão de 1950, os norte-coreanos decidiram resolver esse imbróglio de vez, e, confiantes no apoio da União Soviética e da China, invadiram o sul.

Os EUA imediatamente pediram pela intervenção das Nações Unidas, e foram atendidos. As primeiras tropas da ONU desembarcaram em agosto de 1950 no sul da península.

Cena após o massacre de 300 civis do sul / Getty Images

Comandando-as, o já mítico general Douglas MacArthur, vencedor da Segunda Guerra no Pacífico, a quem o imperador do Japão havia se rendido pessoalmente. A ordem era liberar o território do sul, o que foi conseguido em poucas semanas. Mas MacArthur rebelou-se e, contra as ordens do presidente dos EUA, invadiu o norte, superando o 38° paralelo.

Apavorada pela chegada de um exército inimigo perto de seu território, a China comunista entrou de vez no jogo. Em novembro de 1950, mais de 1 milhão de soldados chineses foram enviados para lutar na Coreia contra as forças da ONU. Graças ao suporte de Pequim, as tropas norte-coreanas conseguiram novamente atravessar a fronteira com o sul. “A partir desse momento, China e Coreia do Norte mantiveram relações muito estritas, que continuam até hoje”, explica Sangsoo.

O ex-presidente americano Harry Truman decidiu afastar Mac-Arthur – que, a essa altura, estava propondo lançar bombas nucleares contra a China. Em abril de 1951 ele foi removido do comando e, em seu lugar, entrou o general Matthew Bunker Ridgway. Somente após dois anos e quase 4 milhões de baixas em ambos os lados inclusive 2,5 milhões de civis –, em julho de 1953 foi assinado um armistício. Armistício, não paz – a guerra, em tese, nunca acabou. E isso ainda assim só aconteceu graças à morte de Stalin, ocorrida poucos meses antes, que deixou Kim Ilsung sem seu maior financiador.

Eterno impasse

O sul se tornou um estado capitalista, um dos “tigres asiáticos”, que cresceram imensamente nos anos 1980, sede de megacorporações como a Samsung. No norte, Kim Ilsung criou um Estado baseado não no comunismo, mas no “Juche”, a ideologia oficial do regime. Uma mistura de marxismo com nacionalismo que se quer autossuficiente. E, obviamente, o extravagante culto à personalidade da família Kim.

O “divino” fundador Kim Il-sung é tão exaltado pela propaganda que nem a morte pôde tirá-lo do cargo. Quando faleceu, em 1994, foi proclamando “presidente eterno”. Seus sucessores, o filho Kim Jong-il, e o neto, Kim Jong-un, acabaram se contentando com títulos “menores” de “querido líder” e “líder supremo”.

A veneração da família Kim se tornou parte da pseudo religião do Estado norte-coreano. “A Coreia do Norte é, em essência, uma teocracia. Alguns elementos dessa religião laica foram tomados do stalinismo e do maoismo, mas o culto de Kim tem formas mais indígenas que vêm do xamanismo: divindades humanas que prometem a salvação. Não é por acaso que o reverendo Sun Myung Moon e sua Igreja da Unificação são coreanos”, afirma Marco Milani, pesquisador do Instituto de Estudos Coreanos da Universidade da Califórnia do Sul. “Em relação aos países comunistas da Europa Oriental, a Coreia do Norte se tornou muito mais isolada, especialmente no último período da Guerra Fria. E isso permitiu a manutenção do consenso interno, já que os norte-coreanos não ficaram expostos à influência ocidental como a Alemanha Oriental e a Hungria.”

O colapso da União Soviética em 1989 foi devastador para a Coreia do Norte tanto quanto o foi para Cuba. Nos anos 1990, o país perdeu entre 5% e 10% de sua população. Perdendo o apoio soviético, os Kim foram obrigados a se alinhar completamente com a China. Com isso, Pequim obteve o poder de destruir Pyongyang em um dia: bastaria cortar o fornecimento de alimentos ou de combustível.

Guarda do sul na fronteira entre as Coreias em 2015 / Getty Images

Isso explica a ameaça nuclear. O país decidiu investir, nas palavras de Milani, num “seguro de vida”. Segundo ele, “em Pyongyang observaram muito atentamente o que ocorreu nos últimos anos. Saddam Hussein não tinha armas nucleares, e o Iraque foi invadido pelos americanos. Muhammar Khadafi renunciou espontaneamente à bomba atômica nos anos 2000 e, mesmo assim, foi atacado pela OTAN em 2011. A Ucrânia também renunciou a suas armas nucleares em 1994 e o regime acabou sendo derrubado em 2014. A liderança norte-coreana entende que nenhum país será jamais atacado pelos americanos se tiver uma bomba atômica, mesmo que pequena, para retaliar”. A bomba, assim, é a coisa menos insana da dinastia Kim.

Armadilha de interesses

Milani também explica por que é improvável que esteja no horizonte a queda da dinastia Kim. “A China quer manter a Coreia do Norte como um “país tampão” contra os americanos e teme a chegada de milhões de refugiados em seu território em caso de colapso de Pyongyang”, diz. “Os sul-coreanos não podem pagar para absorver a Coreia do Norte, como o fez na época a Alemanha Ocidental com a Alemanha Oriental. Nem mesmo o Japão ou os Estados Unidos querem pagar para ver a implosão do país, temendo suas consequências.”

Dessa forma, a população da Coreia do Norte continuará a viver num universo paralelo, onde a fome é causada por sabotadores americanos. Hostil a quase todo o planeta, o reino ermitão manterá seus monarcas sentados sobre um trono nuclear. A ameaça de guerra continuará a pairar por sobre o 38° paralelo.

Até que algo mude e bravatas deixem de ser. Será que é isso o que o mundo deseja?


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