O rock contra Noriega

Ex-ditador teve de se render diante do poder do metal

Maurício Moraes

Metaaaaal | <i>Crédito: Shutterstock
Metaaaaal | Crédito: Shutterstock

O Natal de 1989 foi diferente de todos os outros na embaixada do Vaticano no Panamá. Ao fim da tarde quente de 25 de dezembro, o grunhido da guitarra do Judas Priest e outras bandas começou a bombardear o edifício, vindo de poderosos alto-falantes do lado de fora. Dentro, sob a proteção diplomática, Manuel Noriega negociava sua fuga do país. Ex-informante da CIA e ligado ao tráfico de drogas, o excêntrico general estava encurralado por tropas americanas. Cinco dias antes, a operação Justa Causa dava início à invasão do Panamá pelos Estados Unidos. Com a nação controlada por 27 mil militares, faltava pegar o ditador. A arma para pressionar psicologicamente Noriega e os diplomatas da Santa Sé foi o som pesado de Black Sabbath, Alice Cooper, Kiss e vários grupos de heavy metal, rock’n’roll, funk e até estilos mais amenos, mas todos tocados em um volume ensurdecedor. A batalha durou três dias, sem pausa.

Os americanos desembarcaram na madrugada de 20 de dezembro. Em seguida, veio o bombardeio do comando das Forças Armadas e outros 26 pontos vitais da Cidade do Panamá e da Zona do Canal. Em quatro horas, os 16 mil militares panamenhos se renderam, mas as cenas de violência continuaram até a saída dos americanos, em 31 de janeiro de 1990. Segundo a ONU, 2,5 mil pessoas morreram, a maioria civis (ONGs falam em até 4 mil), e 20 mil ficaram desabrigadas. O objetivo era depor e caçar o ditador, acusado de transformar o país em uma escala do tráfico de drogas da Colômbia para os EUA. A guerra ao narcotráfico era uma prioridade do então presidente George Bush, pai, que recorreu à antiga política americana de ocupar países caribenhos como se parte do seu quintal fossem. Bush e o general eram velhos conhecidos.

Noriega trabalhou como informante da CIA a partir do fim dos anos 1960. Em tempos de Guerra Fria, os EUA queriam conter a influência comunista no continente - bastava Cuba. Custeado pela agência, o oficial fornecia armas a milícias de direita na América Central, como as da Nicarágua e da Costa Rica. De acordo com o documentário The Panama Deception ("A Decepção Panamenha"), de Barbara Trent, vencedor do Oscar da categoria em 1992, o salário anual de Noriega passava de 100 mil dólares em 1976. À época, Bush dirigia a CIA e teria, inclusive, lhe dado um aumento. Dali a 13 anos, presidente, ele ordenaria a caça do antigo colaborador. Consta que o general também trocava informações com os cubanos. "Todo mundo sabe que Noriega era meio psicopata. Ele era um homem muito rápido, que aprendia as coisas depressa", diz o historiador panamenho Jorge Kam, da Universidade Católica Santa Maria la Antigua.

Jovem promissor

O caminho até assumir o comando das Forças Armadas e se tornar o ditador da vez foi impressionante. Nascido numa família pobre da capital panamenha, em 1934, Manuel Antonio Noriega Moreno ganhou uma bolsa de estudos de uma escola militar em Lima, Peru. Quando voltou ao país, ingressou na Guarda Nacional com o posto de subtenente. Na função, aproximou-se de Omar Torrijos Herrera, que assumiu o poder após o golpe de 1968 contra o presidente, Arnulfo Arias. Pouco depois, ao ajudar a desbaratar uma tentativa de apear Torrijos do comando, foi promovido a tenente coronel e tornou-se chefe do serviço de inteligência militar. Foi quando estreitou suas relações com a CIA.

À frente da "revolução panamenha", Torrijos implementou medidas sociais visando a população mais pobre e negociou com os Estados Unidos, em 1977, o tratado que previa a devolução gradual do controle do canal. Torrijos morreu num acidente aéreo, em 1981 (há quem diga que foi um ataque da CIA, mas a tese de conspiração nunca prosperou a ponto de mudar a versão oficial). O controle do país seguiu na mão dos militares, que se revezavam no poder.

Até que, em 1983, Noriega recusou-se a entregar o posto de chefe das Forças Armadas e tornou-se ditador, de fato. O grupo preterido na Junta Militar acabou revelando casos de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo o general. Ele foi acusado de narcotráfico na Justiça dos EUA. As fraudes nas eleições de fachada de 1989 (havia presidentes "laranja", mas quem mandava mesmo eram os militares) e a violência dos protestos detonaram a invasão americana. Noriega já não interessava muito aos gringos, mas o Panamá sim. Na prática, o país era um protetorado americano por causa do estratégico canal, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico, construído e controlado por Washington. Na época, milhares de americanos viviam num enclave entre os 8 km que comandavam de cada lado da hidrovia.

Cher guerrilheira

O núncio ("embaixador") do Vaticano no Sri Lanka, o arcebispo dom Joseph Spiteri, passou três Natais no Panamá. Em 1989, ele era o segundo secretário da Nunciatura Vaticana no país. Apesar das incertezas por causa da invasão, o clima era de festa na mansão no centro da capital, no dia 24 de dezembro, até o momento em que o núncio monsenhor Juan Laboa recebeu uma ligação de Noriega pedindo abrigo. Por volta das 15 horas, o ditador (a recompensa por informações sobre seu paradeiro já valia 1 milhão de dólares) chegou à embaixada, acompanhado de dez pessoas. "Nós tínhamos pouco contato", afirma dom Spiteri. "O núncio deu-lhe um quarto pequeno e ele pouco saía de lá." Segundo o religioso, a preocupação de seu superior era evitar o derramamento de mais sangue.

Os americanos descobriram o refúgio de Noriega no dia seguinte. O comandante americano, general Maxwell Thurman, foi pessoalmente à Nunciatura e acabou sendo recebido no portão. Segundo um relatório oficial do Joint Chiefs of Staff, a assessoria militar da Casa Branca, temendo que "poderosos gravadores pudessem captar as delicadas negociações, Thurman ordenou que uma barreira de música fosse instalada ao redor do edifício." Ao fim daquela tarde, a trilha sonora da SCN 98.3 FM incluía Screamming for Vengeance, do Judas Priest, War Pigs, do Black Sabbath, Prisoner of Rock n’ Roll, de Neil Young, Helter Skelter, dos Beatles, e até Just Like Jesse James, da performática Cher.

O bombardeio de rock durou três dias e repercutiu mal na imprensa dos EUA. Pressionado pelo Vaticano e desgastado com a tática, Bush mandou suspender a música no dia 28. Thurman definiu a estratégia como "uma ferramenta psicológica efetiva". Para dom Spiteri, a trilha sonora não determinou a rendição de Noriega, dias depois. "Mas não me parece que ele gostasse daquela música", diz o religioso. Tampouco o monsenhor Laboa, que já se preparava para dormir em outro lugar no momento do "cessar-fogo".

Bruxos do Brasil

De acordo com o jornalista John Dinges, autor da biografia Our Man in Panama ("Nosso Homem no Panamá"), o ataque musical "fazia parte da operação para desacreditar Noriega perante a opinião pública americana".

Em 22 de dezembro, à caça do general, os militares vasculharam sua casa. Além de dinheiro e comprovantes de contas na Suíça e nas ilhas Cayman, o que mais chamou a atenção da imprensa americana foram a coleção de pornografia, retratos de Adolf Hitler e uma grande quantidade de pó branco descrito como cocaína. "Ele era traficante de drogas. Isso estava claro", diz Dinges. "Mas depois descobriu-se que se tratava de talco." A mídia também registrou sua ligação com "bruxos do Brasil", que faziam trabalhos de "magia negra" para o ditador. "Noriega tinha um gosto variado e seguia religiões africanas", afirma o biógrafo. "Entretanto, esses eram detalhes irrelevantes. A invasão foi um evento muito importante na história recente da América Latina." Teve péssima repercussão internacional e marcou a última grande intervenção americana no Caribe. Segundo Kam, graças aos acontecimentos, o Panamá adotou a democracia e aboliu o Exército.

De acordo com o historiador, o bruxo em questão é o esotérico Ivan Trilla, radicado em Miami, conhecido no Panamá por sua proximidade com o general. Quem também prestou serviços ao ditador foi Oneida Maria da Silva Oliveira, a mãe Gigi, que ele conheceu por intermédio da cônsul panamenha em Belo Horizonte. Noriega levou a ialorixá ao país várias vezes e encomendou sucessivos trabalhos nos anos 1980. Independentemente de seus credos, Manuel Noriega teve abrigo na nunciatura do Vaticano por dez dias. Sem saída, ele se entregou no dia 3 de janeiro de 1990, sendo extraditado imediatamente aos EUA, onde foi julgado e condenado a 40 anos de prisão em 1992. Segundo o neto do ditador, Jean-Manuel Beachump, que vive em Nova York, seu avô se rendeu "não por causa da música alta, mas pelas vítimas inocentes": "Ele é muito maior que as pessoas que ouvem Metallica. É louco como a história tem sido escrita."

A invasão provoca controvérsia até hoje. Os EUA fizeram um favor aos panamenhos ao derrubar seu ditador ou agiram de modo abusivo? Seja qual for a resposta, famílias ainda choram os parentes mortos durante o ataque. Para Noriega, a trilha incidental de seus últimos dias de liberdade guardou algumas ironias. Entre as canções que ouviu, está I Fought the Law and the Law Won ("Eu Combati a Lei e a Lei Venceu"), de Bobby Fuller, e If I Had a Rocket Launcher ("Se eu Tivesse um Lançador de Foguetes"), de Bruce Cockburn.


Que fim levou o ex-ditador

Manuel Noriega após ser preso na Flórida / Foto: Wikimedia Commons Images

Após o acerto de contas com a justiça, Manuel Noriega ficou 20 anos preso na Flórida, entre 1990 e 2010. Foi extraditado para a França, onde já havia sido condenado por lavar 7 milhões de dólares em renda ilícita do narcotráfico, comprando apartamentos de luxo em Paris. Foi sentenciado a mais sete anos, mas só ficou um: os franceses aceitaram um pedido de sua terra natal para outra extradição. No Panamá, foi julgado por vários crimes, entre eles corrupção e assassinato de membros da oposição. No dia 11 de dezembro de 2011 e devido problemas de saúde teve direito a prisão domiciliar para se recuperar de cirurgias. Em estado grave desde março, o ex-ditador morreu na noite de segunda-feira (29), aos 83 anos, no hospital Santo Tomás, na Cidade do Panamá. 


Saiba mais

Livro

Our Man in Panama, John Dinges, 1990.

Documentário 

The Panama Deception, Barbara Trent, 1992.


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