Onde foi parar? 8 relíquias modernas altamente cobiçadas

O revólver de Getúlio, a Guitarra de Hendrix, o divã de Freud e mais: elas passaram por muitas mãos

André Santoro e Cristina Ventura

Jim | <i>Crédito: Reprodução
Jim | Crédito: Reprodução

Durante o califado de Omar I, entre os anos de 634 e 644, instituiu-se uma lista de pensão chamada divã. Os guerreiros que tinham seu nome na tal lista eram agraciados com os bens dos povos conquistados pelo recém-formado exército islâmico. Alguns anos depois, o termo passou, por extensão, a se referir a uma instituição financeira. Durante o Império Turco-Otomano, no século 16, divã virou a sala onde se reunia o conselho de Estado. E, ufa, passado mais algum tempo, transformou-se no nome pelo qual era chamado o típico almofadão turco que mobiliava essas salas. Tudo isso para contar a história do objeto mais famoso que foi batizado com este nome. Um desses almofadões, que chegou à Europa no começo do século 18, foi parar na casa de um promissor médico austríaco. E acabou coadjuvante de um grande acontecimento.

Em 1891, Sigmund Freud ganhou um divã azul de presente de uma paciente. Nessa espécie de sofá, deitaram-se centenas de pessoas atendidas pelo neurologista. O divã foi muito mais do que reles testemunha do nascimento da psicanálise. Mas que fim levou este móvel? Nesta reportagem, além do paradeiro do divã de Freud, você vai saber por onde anda o revólver que Getúlio usou para se matar, a espada que Napoleão usava na bainha, a guitarra mais notória de Jimi Hendrix e outros pertences curiosos. São histórias de objetos que ajudaram a fazer história.


1. O divã de Freud

O divã de Freud exposto / Foto: The Freud Museum

Hoje, quase todos os psicanalistas têm em seus consultórios divãs onde os pacientes se deitam para contar suas histórias. A moda foi introduzida pelo próprio Sigmund Freud, que ganhou seu divã nove anos antes de ter publicado a parte mais conhecida de sua obra, o livro A Interpretação dos Sonhos. Em uma entrevista em 1938, sua esposa, Martha, disse que o móvel foi um presente oferecido a ele por uma paciente chamada madame Benvenisti, que, satisfeita com o tratamento recebido, resolveu dar um mimo ao doutor. Com o avanço do nazismo, Freud e sua família tiveram que deixar a Áustria e passaram a viver em Londres. Em 1938, todos os seus pertences – entre eles o divã – foram despachados para o novo endereço.

Depois da morte do criador da psicanálise, em 1939, a filha de Freud, Anna, continuou morando na casa. Em 1982, ano em que ela morreu, o imóvel passou a abrigar o Museu Freud. Apesar de ter seguido a mesma profissão do pai, Anna tinha seu próprio consultório e resolveu não usar os objetos deixados por ele. “Pode ser, porém, que uma amiga da família, chamada Dorothy Birmingham, também psicanalista, tenha usado por algum tempo a sala de Freud”, diz a brasileira Rita Apsan, assessora de comunicação do museu. “Se isso ocorreu, o divã deve ter sido usado por seus pacientes.” Desde a criação do museu, o móvel não saiu de lá. E faz um sucesso danado entre os visitantes – mais de 40 mil por ano.


2. A caneta de MacArthur

Réplica da caneta usada por MacArthur /Foto: ebay.com

Em 2 de setembro de 1945, o navio de batalha americano Missouri estava ancorado na baía de Tóquio. Algum tempo antes, aquilo seria considerado uma afronta à soberania dos japoneses. Mas, naquele dia, eles não só engoliram a presença do inimigo ocidental como subiram a bordo do navio. Lá, assinaram o tratado de rendição que selaria o fim da Segunda Guerra. O representante japonês era o ministro das Relações Exteriores, Shigemitsu Mamoru, enviado pelo imperador Hiroito. Do lado americano estava o célebre general Douglas MacArthur, enviado pelo presidente Harry Truman para representar os aliados na cerimônia de rendição.

Graças à importância daquele momento, a caneta usada na ocasião ganhou status de relíquia. Segundo a versão oficial, MacArthur assinou os documentos com uma caneta da marca Orange Parker Duofold que pertencia a Jean, sua mulher. Mas o que quase ninguém sabe é que ele usou seis canetas para assinar a papelada no Missouri. Como eram vários documentos, diversos oficiais presentes na cerimônia fizeram questão de dar suas canetas para MacArthur assinar partes do tratado.

Uma das canetas ficou com o general Jonathan Wainwright, que acompanhou a cerimônia de rendição no navio. Outra, com o general britânico Arthur Percival – ele e Wainwright haviam sido libertados fazia pouco tempo de campos de prisioneiros no Japão. Uma terceira caneta foi parar com o secretário militar Courtney Whitney. Duas delas ficaram com o próprio MacArthur até sua morte, em 1964, quando foram incorporadas à coleção do Memorial MacArthur, na Virgínia, nos Estados Unidos. A última, a mais famosa, que pertencia a Jean, foi guardada por ela durante muito tempo em seu apartamento no Waldorf Astoria, em Nova York, mesmo após a morte do marido. Mas o objeto foi roubado do hotel – não se sabe quando nem como – e nunca mais foi recuperado.


3. A roca de Gandhi

Gandhi e a sua roca de fiar / Foto: Domínio publico

No início do século 20, a Índia estava sob domínio britânico. E um movimento de independência agitava o país. O nome mais importante desse processo é o de Mohandas Karamchand Gandhi – ou Mahatma (“a grande alma”) Gandhi. O líder nacionalista ficou famoso não apenas por suas posições políticas, mas também por ter mostrado ao mundo que era possível realizar um protesto de forma pacífica.

Um dos símbolos da resistência de Gandhi ao poderio britânico foi a roca de fiar que ele costumava usar e citar em vários de seus textos. Ao sugerir a utilização de instrumentos para a produção artesanal de tecidos, como a sua roca, ele propunha que os indianos deixassem de comprar os produtos industrializados que vinham da Europa. Em 1947, o país finalmente conquistou sua independência. No ano seguinte, Gandhi foi assassinado.

“Desde então, a roca permanece exposta no Museu Nacional de Gandhi, em Nova Délhi, na Índia. Ninguém a utilizou, mas as pessoas continuam usando as suas próprias rocas”, diz o pesquisador Sandhya Mehta, do centro de estudos Mani Bhavan Gandhi Sangrahalaya, em Bombaim. Ele se refere aos instrumentos de fiar, ainda usados por muitas famílias indianas, e à filosofia de vida que eles simbolizam, como escreveu Gandhi no jornal Young India, em 17 de setembro de 1925: “A mensagem da roca é muito maior do que sua circunferência. Ela mostra que podemos viver sem ferir os outros e criar uma ligação indissolúvel entre os ricos e os pobres, o capital e o trabalho, o príncipe e o mendigo. Essa mensagem mais ampla é naturalmente para todos”.


4. O revólver de Getúlio

O revolver usado pelo presidente / Foto: Museu da Republica no Rio de Janeiro

Em agosto de 1954, o Brasil vivia dias turbulentos. Pressionado pela imprensa e pelos militares, o presidente Getúlio Vargas tentava se defender das acusações de que sua guarda pessoal havia planejado e executado um atentado que matou um oficial da Aeronáutica e deixou ferido o jornalista Carlos Lacerda, no dia 4 daquele mês. No dia 22, Vargas recebeu um ultimato dos militares e, na madrugada do dia 24, após uma reunião com seus ministros, resolveu se licenciar do cargo. Mas a decisão nem chegou a ser anunciada. Por volta das 8 da manhã, o presidente se matou com um tiro no peito.

Como ele mesmo disse, Getúlio saiu da vida para entrar na história. A arma que ele usou para isso, porém, repousa sem tanta celebridade no Museu da República, antigo Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, sede do poder Executivo de 1897 a 1960. O revólver Colt calibre 32, com cabo de madrepérola, está exposto no terceiro andar do museu. Fabricado nos Estados Unidos, o revólver tem capacidade para seis tiros, pesa cerca de 500 gramas e tem 20 centímetros de comprimento. Ele só foi incorporado à coleção do museu em 1998, após ser doado pela neta de Getúlio, Celina Vargas do Amaral Peixoto, junto com outras peças que pertenceram ao presidente.

Antes disso, segundo a museóloga Regina Capela, do Museu da República, parte do acervo – inclusive o famoso revólver e o projétil que matou Getúlio – era guardada pela mãe de Celina, Alzira, em uma fazenda da família na cidade de Petrópolis. Ao lado da arma, os visitantes do museu encontram relíquias como o paletó do pijama que Getúlio usava no momento em que se matou – furado pelo tiro na altura do bolso esquerdo.


5. A espada de Napoleão

A espada usada por Napoleão na batalha de Waterloo / Foto: Apsley House

O general francês Napoleão Bonaparte (1769-1821) lutou – e venceu – várias batalhas. No auge de sua campanha militar, chegou a controlar boa parte da Europa continental. Mas a sorte do imperador começou a mudar em 1812, ano do início da malsucedida invasão da Rússia. Em 1814, Napoleão foi forçado a abdicar do trono e passou cerca de dez meses exilado na ilha de Elba, na costa italiana. Mas ele retornou ao poder em 1815 e organizou uma ampla ofensiva contra os países que se opunham ao seu regime: Inglaterra, Rússia, Prússia, Áustria, Suécia, Países Baixos e pequenos estados alemães. Em 15 de junho do mesmo ano, o general invadiu a Bélgica para combater os exércitos inimigos. Os duelos aconteceram a alguns quilômetros da vila de Waterloo, que deu nome à batalha. Mas, em vez de ser o retorno triunfal de Napoleão, a peleja acabou selando seu futuro. No fim do dia 18 de junho, encurralado pelas tropas inimigas, o grande conquistador foi retirado à força do campo de batalha por seus subordinados.

“Com o recuo das tropas, Napoleão fugiu a galope. E os prussianos capturaram sua carruagem com tudo que ela continha”, diz Douglas James Allan, presidente da Sociedade Napoleônica da América. Entre os pertences está uma espada forjada em 1809 pelo ourives Martin-Guillaume Biennais, que produzia boa parte das peças cerimoniais de Napoleão. Depois de Waterloo, o general Blücher, que comandava o Exército da Prússia, e o duque de Wellington, britânico que liderava a coalizão dos países que se opunham à França, dividiram o espólio do comandante. Hoje, a espada, com bainha de couro vermelho, empunhadura de ouro e lâmina de aproximadamente 90 centímetros – um exagero para um baixinho como Napoleão – está em exposição na Apsley House, em Londres, mansão pertencente à família de Wellington. A peça repousa ao lado da espada do duque vitorioso. Essa os franceses tiveram que engolir.


6. A guitarra de Hendrix

Jim Hendrix queimando a guitarra durante performance / Foto: Reprodução

Trinta e um de março de 1967. Durante uma apresentação na casa de shows London Astoria, na Inglaterra, o guitarrista Jimi Hendrix (1942-1970) ateou fogo à própria guitarra, uma Fender Stratocaster Sunburst. Provocou delírio da platéia, mas foi parar no hospital com queimaduras nas mãos. Restaurado, o instrumento foi novamente usado por Hendrix durante um show no Miami Pop Festival, nos Estados Unidos, em maio de 1968. Lá, ele repetiu a performance do ano anterior e queimou a guitarra mais uma vez.

A peça, praticamente destruída, foi entregue ao músico Frank Zappa, que a recuperou pela segunda vez. “Recebi a guitarra de um dos roadies de Hendrix e a deixei no porão de minha casa por vários anos antes de entregá-la ao fabricante de guitarras Rex Bogue para que ele a restaurasse”, disse o músico em entrevista concedida à revista Guitar Player em 1977. No depoimento, Zappa resumiu o estado em que o instrumento foi parar em suas mãos: “O braço da guitarra estava quebrado, o corpo estava todo queimado e os captadores, danificados”. Depois da reforma, Zappa usou a guitarra em shows nas décadas de 1970 e 1980 e na gravação do disco Zoot Allures, de 1976.

Em 1991, dois anos antes da morte de Zappa, um de seus filhos, Dweezil, encontrou o instrumento despedaçado no estúdio do pai e o recuperou mais uma vez. Em 2002, 11 anos depois de ter reformado a guitarra, Dweezil resolveu leiloá-la, mas os lances ofertados não atingiram o preço mínimo estipulado – cerca de 1,4 milhão de reais, em valores atuais. Quer dizer: a guitarra continua com ele.

Outra Fender Stratocaster foi destruída por Hendrix em junho de 1967, no Festival de Monterey, nos Estados Unidos. Mas a performance foi tão intensa que não sobrou quase nada – um pequeno fragmento pode ser visto no Experience Music Project, espécie de museu de relíquias do rock da cidade americana de Seattle. Em 1987, a imagem do guitarrista ateando fogo ao instrumento foi estampada na capa da revista Rolling Stone para celebrar os 20 anos do Festival de Monterey.


7. A mesa de Einstein

A mesa de Einstein minutos após sua morte /  Foto: Life Magazine

O físico alemão Albert Einstein é lembrado no mundo todo por suas teorias revolucionárias – em especial pela da relatividade. Mas, assim como Freud, teve que deixar sua terra natal depois que os nazistas chegaram o poder. Em 1933, quando Hitler assumiu o posto de chanceler, o pesquisador renunciou à nacionalidade alemã e saiu do país. Pouco depois, aceitou o convite para ser um dos fundadores da escola de matemática do Instituto de Estudos Avançados em Princeton, nos Estados Unidos, cidade em que viveria até sua morte, em 1955. Parte de seus bens foram enviados da Alemanha à nova residência. Um desses objetos era sua mesa de trabalho, uma peça de madeira que, acredita-se, tinha sido construída entre os séculos 17 e 18 na Alemanha ou na Suíça.

Depois da morte do antigo dono, a casa de Princeton e a mobília foram utilizadas por outros pesquisadores. “Em 2004, parte da mobília, incluindo a mesa, foi doada para a Sociedade Histórica de Princeton”, diz Christine Ferrara, relações-públicas do Instituto de Estudos Avançados. Ela está em exposição lá até hoje.

Além da mesa que ficava na casa de Einstein, outras duas foram usadas por ele durante sua estadia em território americano. A primeira amparou por pouco tempo os cotovelos do gênio: até 1939, enquanto o prédio principal do Instituto não ficava pronto, Einstein ocupou uma sala da Universidade Princeton. De acordo com o assessor de imprensa de lá, Cass Cliatt, a mesa foi usada até 1999 pelo diretor do departamento de Física e hoje está guardada em um depósito de móveis velhos. A segunda mesa foi usada por Einstein no Instituto até sua morte. Ela permanece na mesma sala até hoje.


8. O relógio de Santos Dumont

O relógio criado por Louis Cartier / Foto: www.cartier.com/

No início do século 20, aviadores de vários países corriam contra o tempo para tirar suas máquinas do chão durante o maior período possível para bater novos recordes. Um desses pioneiros foi, como todos já sabem, o brasileiro Alberto Santos Dumont. Polêmicas com os irmãos Wright à parte, Dumont sentia falta de um instrumento que registrasse com precisão o tempo de suas façanhas aéreas e que pudesse ser consultado rapidamente durante os vôos. Afinal, os relógios de bolso, muito usados na época, não eram nada práticos para os pilotos. 

Em 1901, após o voo histórico sobre Paris em que contornou a Torre Eiffel com seu dirigível, em 8 de agosto, Dumont pediu ao amigo Louis Cartier – sobrenome que deu origem à famosa grife de jóias e relógios – que desenhasse um modelo de pulso especialmente para ele. Um protótipo foi entregue ao brasileiro entre 1904 e 1908 e, três anos depois, o modelo passou a ser vendido para outros clientes. A coleção tinha o nome do homenageado – Santos – e foi relançada em 1978. (Ao contrário do que muitos pensam, a peça de Cartier não foi o primeiro relógio de pulso fabricado. Modelos semelhantes já eram comercializados no fim do século 19 pela empresa suíça Patek Philippe.)

Depois da morte do aviador, em 1932, seus objetos foram doados para vários museus. Entre eles estava outro relógio antigo, este de bolso, que foi retirado em 1970 do Museu da Aeronáutica, em São Paulo, por Alberto Villares, sobrinho-neto de Dumont. Ele levou a peça para Paris, onde foi fotografada pela Cartier para o relançamento da marca Santos, e a devolveu ao museu. Na década de 1980, o objeto foi roubado do local, segundo Marcos Villares Filho, sobrinho-bisneto de Dumont. Mas e aquele relógio encomendado a Louis Cartier? Esse está desaparecido. Ninguém – nem a família, nem pesquisadores – sabe o que aconteceu com ele.


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