Os últimos dias das irmãs Romanov

O melancólico caminho das filhas da realeza a caminho da execução

Helen Rappaport

No retrato as quatro irmãs, Olga, Tatiana, Maria e Anastásia | <i>Crédito: Domínio publico
No retrato as quatro irmãs, Olga, Tatiana, Maria e Anastásia | Crédito: Domínio publico

Nicolau II foi o último tsar da Rússia, deposto na Revolução de 1917. Conhecido pelo epíteto O Sanguinário, em seu governo ocorreu a tragédia de Khodynka, em que mais de mil súditos morreram num incidente à época de sua coroação, e o Domingo Sangrento, no qual trabalhadores em uma manifestação pacífica foram baleados e mortos pela guarda oficial.

+ A execução da família Romanov

Ao deixar o governo, Nicolau ficou em prisão domiciliar no Palácio Imperial de Alexandre, a residência escolhida pela família, distante 25 quilômetros de São Petersburgo. Logo depois teve que abandonar com a esposa, Aleksandra, e os cinco filhos o lar cujos muros protegeram-nos durante a Revolução. 

O destino para onde iriam era incerto e sombrio. A família era levada de um lugar para outro – humilhados, com uns poucos criados que lhes puderam acompanhar. Em alguns momentos foram obrigados a se separar, desolados. Em outros, o reencontro os enchia de esperanças e acalmava os corações.

O texto que você vai ler a seguir é um trecho do livro As Irmãs Romanov, da inglesa Helen Rappaport. Na obra, a autora conta com detalhes a vida de cada uma das quatro filhas do tsar, Olga, Tatiana, Maria e Anastácia, do nascimento, da vida feliz e abastada de filhas de imperador, aos derradeiros momentos que viveram, com os pais e o irmão hemofílico, Alexei, antes do cruel assassinato coletivo nos porões do palácio de Ecaterimburgo. 

As filhas do tsar

No dia 17 de maio, o bando mais intimidador até então de Guardas Vermelhos chegou à Casa do Governador, dessa vez de Ekaterinburg, liderado por um homem chamado Rodiónov. Eram “os facínoras mais assustadores, sujos, esfarrapados, bêbados” que Gleb Bótkin já vira. Rodiónov era na verdade um letão chamado Ian Svikke e ninguém gostou dele desde o início.

Kobilínski o achava cruel, “um valentão barato”. Frio e desconfiado por natureza, Rodiónov vivia à procura de conspirações: ele ordenou uma humilhante chamada diária e as meninas tinham de lhe pedir permissão para descer e sair no pátio. Tinham ordens de manter a porta do quarto aberta à noite, e, quando o padre e as freiras chegaram no dia 18 de maio para conduzir as vésperas, Rodiónov os revistou e postou uma sentinela ao lado do altar para observá-los durante a cerimônia. Kobilínski ficou chocado: “Isso oprimiu tanto todo mundo, teve tal efeito neles, que Olga Nikoláevna chorou e disse que, se soubesse que isso aconteceria, nunca teria pedido a cerimônia”. Alexei continuava extremamente frágil e mal conseguia sentar por mais do que uma hora seguida. Não obstante, três dias depois de chegar, Rodiónov decidiu que o menino estava bem o bastante para viajar. Por vários dias então a criadagem fizera os preparativos para a partida deles. “Os quartos estão vazios, pouco a pouco todas as malas foram feitas. As paredes parecem vazias sem os retratos”, escreveu Alexei para sua mãe.

Qualquer coisa que não fosse junto teria de ser “descartada” na cidade – se não tivesse sido pilhada pelos guardas antes. A maior parte da comitiva se preparou para partir com as crianças. A filha do dr. Bótkin, Tatiana, pediu que ela e o irmão recebessem permissão de ir com as irmãs, mas isso lhes foi negado. “Por que uma garota bonita como você ia querer apodrecer a vida toda na prisão, ou mesmo ser fuzilada?”, escarneceu Rodiónov. “Com toda a probabilidade serão fuzilados.” Ele foi igualmente insensível quando contou a Aleksandra Tégleva sobre o que o futuro reservava: “A vida por lá é bem diferente”. Um dia antes da partida das crianças, Gleb Bótkin foi à Casa do Governador para tentar vê-las uma última vez. Ele avistou Anastácia numa janela; ela acenou e sorriu, ao que Rodiónov veio correndo para lhe dizer que ninguém tinha permissão de olhar pelas janelas e que os guardas iriam atirar para matar se alguém tentasse fazê-lo.

O último dia

No último dia em Tobolsk, a família se reuniu para as refeições de despedida: borshch e tetraz com arroz no almoço e vitela com guarnição e macarrão para o jantar, acompanhadas pelas duas últimas garrafas de vinho que haviam conseguido esconder dos guardas. Às onze e meia da manhã seguinte, 20 de maio de 1918, as crianças foram levadas para o embarcadouro e mais uma vez subiram a bordo do Rus, onde, para sua grande alegria, foram recebidas por Iza Buxhoeveden. Olga lhe disse que tinham “sorte por ainda estarem vivos e serem capazes de ver seus pais mais uma vez, fosse qual fosse seu futuro”. Mas Iza ficou chocada com a mudança nela, e em Alexei também – não vira de perto nenhum dos dois desde o último mês de agosto: “Ele estava terrivelmente magro e não podia andar, pois seu joelho enrijecera demais de tanto ficar deitado, com ele dobrado por tanto tempo. Estava muito pálido e seus grandes olhos negros pareciam ainda maiores no pequeno rosto estreito. Olga Nikoláevna também mudara muito. O suspense e a ansiedade pela ausência de seus pais transformaram a vivaz e adorável moça de 22 anos numa mulher de meia-idade debilitada e triste”.

As crianças pareceram achar que o fato de Iza poder se juntar a eles “pressagiava pequenas concessões posteriores” de seus captores bolcheviques. Mas esse estava longe de ser o caso. As constantes intimidação e humilhação prosseguiram na viagem fluvial de dois dias para Tiumén. Os guardas eram rudes e grosseiros e punham medo em todo mundo. O comportamento de Rodiónov era insensível; trancou Alexei e Nagórni na cabine deles à noite, a despeito de Nagórni protestar que o menino doente precisava ter acesso ao banheiro. Rodiónov insistia também em que as três irmãs e suas companhias femininas mantivessem a porta de suas cabines aberta o tempo todo. Nenhuma mulher se desvestia à noite, ao longo da qual tinham de suportar o barulho dos guardas desordeiros bebendo e fazendo comentários obscenos.

Ao chegarem a Tiumén, as crianças foram transferidas para um vagão sujo de terceira classe em um trem que aguardava nas proximidades, onde, para sua grande aflição, foram separadas de Gilliard, Gibbes, Buxhoeveden e os demais, que foram instalados em um vagão de carga com bancos toscos de madeira. Em algum momento após a meia-noite de 23 de maio, o trem finalmente parou em uma estação suburbana nos arrabaldes de Ekaterinburg.

Fazia frio e geava e foram deixados todos ali, tremendo, gelados até a medula, à espera do amanhecer. No fim, Rodiónov e alguns comissários vieram buscar as crianças. Mas nem Gibbes, nem Gilliard, tampouco Iza Buxhoeveden tiveram permissão de prosseguir. Tatíschev, Nástenka e Trina também foram barrados, assim como todos os demais criados, exceto Nagórni. “Tatiana Nikoláevna tentou encarar a situação com leveza” quando Iza lhe deu um beijo de adeus. “De que adiantam todas essas despedidas?”, perguntou. “Estaremos todos gozando da companhia mútua dentro de meia hora!”, disse Tatiana, tranquilizadora. Mas, como Iza recordou mais tarde, um dos guardas se aproximou nesse exato instante e, com voz ominosa, disse: “Melhor dizer ‘Adeus’, cidadãs”, e “em seu rosto sinistro percebi que aquilo era uma verdadeira separação”.

Pierre Gilliard observou do trem quando as quatro crianças foram trazidas: “Nagórni, o marinheiro, passou por minha janela carregando o menino enfermo nos braços; atrás dele vieram as grã-duquesas, carregadas de valises e pequenos pertences pessoais”. Estavam cercados por uma escolta de comissários em jaquetas de couro e milicianos armados. Ele tentou desembarcar do trem para se despedir, mas “foi rudemente empurrado de volta ao vagão pela sentinela”. Observou, desolado, Tatiana seguindo por último na fila sob a chuva gelada, carregando com dificuldade sua pesada mala e segurando seu cão, Ortipo, com o outro braço, enquanto seus sapatos afundavam na lama. Nagórni, que nesse ínterim erguera Alexei e o pusera num dos drójki puxados por cavalo, que aguardavam, virou para oferecer ajuda, mas os guardas o rechaçaram.

A chegada

Um engenheiro local de Ekaterinburg que estava na estação nessa manhã, tendo ouvido dizer que as crianças chegariam, ficara sob o aguaceiro na esperança de vê-las. De repente ele avistou as “três jovens, vestidas em lindos conjuntos escuros com grandes botões de tecido”: “Elas caminhavam sem firmeza, ou, antes, sem equilíbrio. Concluí que isso se devia ao fato de estarem carregando uma mala muito pesada e também porque a superfície da estrada ficara enlameada. Eles sabiam que era o fim quando eu estava com eles com a chuva primaveril incessante. Ter de andar pela primeira vez em suas vidas com uma bagagem tão pesada estava além de sua força física. Elas passaram muito perto e muito devagar. Fiquei olhando para seus rostos vivos, jovens, expressivos, com certa indiscrição – e durante esses dois ou três minutos percebi algo que, até o dia da minha morte, jamais vou esquecer. Senti que meu olhar cruzou com o das três jovens desafortunadas por um momento e que, quando isso aconteceu, penetrei nas profundezas de suas almas martirizadas, por assim dizer, e fui subjugado pela pena em relação a elas – eu, um revolucionário inveterado. Sem que esperasse, percebi que nós, intelectuais russos, nós, que alegamos ser os precursores e a voz da consciência, éramos responsáveis pela ridícula falta de dignidade com a qual as grã-duquesas estavam sendo tratadas. Não temos o direito de esquecer, tampouco de nos perdoar por nossa passividade e pelo fracasso em fazer algo por elas”. Quando as três jovens passaram por ele, o engenheiro ficou admirado de “como tudo estava pintado naqueles rostos jovens, nervosos: a alegria de ver seus pais outra vez, o orgulho de jovens oprimidas forçadas a ocultar seu sofrimento espiritual de estranhos hostis e, enfim, talvez, uma premonição da morte iminente. Olga, com seus olhos de gazela, lembrou-me alguma jovem triste em um romance de Turguéniev. Tatiana deixou-me com a impressão de uma altiva aristocrata com ar de orgulho, pelo modo como fitava as pessoas.

Anastácia me pareceu uma criança assustada, aterrorizada, que podia, em diferentes circunstâncias, ser encantadora, despreocupada e afetuosa”. Esse engenheiro permaneceu, para sempre depois disso, assombrado por esses rostos. EA A le sentiu “que as três jovens perceberam que o que estava estampado em meu rosto não era apenas a fria curiosidade e indiferença em relação a elas”. Seus instintos humanos naturais fizeram com que quisesse estender a mão e expressar seu reconhecimento, mas, “para minha grande vergonha, refreei-me, por fraqueza de caráter, pensando em minha posição, em minha família”.

Da janela do trem Pierre Gilliard e Sydney Gibbes haviam esticado o pescoço para dar uma última olhada nas meninas ao entrarem nos droskies que as aguardavam. Foi a última vez que as viram aqueles que haviam amado, servido e morado com as quatro irmãs Romanov desde a infância delas.


Saiba mais

Este texto foi extraído do capítulo 21 do livro:  

As Irmãs Romanov – A Vida das Filhas do Último Tsar, Helen Rappaport, 2016 


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