Rir para não chorar: As piadas do comunismo

Sob o totalitarismo, o humor era uma arma de resistência - e uma questão de Estado

Diogo Antônio Rodriguez

A internet também não perdoa | <i>Crédito: CC
A internet também não perdoa | Crédito: CC

Durante seus mandatos como presidente dos EUA, Ronald Reagan tinha um jeito peculiar de encerrar os discursos. Onde estivesse, a qualquer público, o ex-ator quase que sempre terminava suas falas com uma piada. Foi assim em discursos a trabalhadores de uma fábrica, na campanha e até na Casa Branca. Sua preferência era por um tipo especial de anedota, como esta, contada em 1988: "Na URSS, um homem vai a uma concessionária comprar um carro e o vendedor diz: 'Tudo bem, em 10 anos você pode vir pegar seu carro'. 'De manhã ou à tarde?', o homem responde. 'Que diferença faz?', pergunta o vendedor. 'O encanador vem de manhã'".

Fiel ao tempo histórico que viveu, o 40º presidente dos EUA gostava de colecionar piadas sobre o comunismo. Paul Goble, então funcionário do Departamento de Estado, estima ter coletado 13 mil piadas no período em que Reagan esteve no poder. Mais do que tirar sarro de um regime político-ideológico em estado terminal, o presidente norte-americano acreditava que as piadas tinham real poder, pois desafiavam as rígidas estruturas de censura da União Soviética. Elas revelavam, segundo ele, "o sentimento do povo a respeito de seu governo".

Qualquer ocasião era oportunidade para Reagan exibir seu repertório. Nem o próprio líder da URSS foi poupado. O secretário-geral Mikhail Gorbachev teve de ouvir seu colega norteamericano ironizar a educação de nível superior soviética durante a assinatura de um tratado para eliminar mísseis nucleares de médio alcance em Washington, em 1987. "Quando os universitários americanos são questionados sobre o que querem fazer depois de se formarem, eles respondem: 'Ainda não sei, não decidi'. Os russos respondem à mesma questão dizendo: 'Não sei, não me disseram'."

Os chistes eram criados dentro da própria União Soviética e mostravam que, apesar da falta de liberdade de expressão, os cidadãos que viviam sob o comunismo não haviam perdido a capacidade de rir e nem a vontade de burlar as leis do país.

Ben Lewis, cineasta e historiador britânico, resolveu investigar a abrangência e o poder das anekdoty (piada, em russo). Durante dois anos viajou a países da antiga Cortina de Ferro como Hungria, Polônia, Romênia e Rússia para tentar traçar a origem do humor sob o comunismo. Lewis queria entender se as piadas, proibidas, podem ter sido uma das armas de quem lutava contra o regime totalitário que se instalou na Europa Oriental por 72 anos.

Comédia

"O comunismo é o único sistema político que criou sua marca internacional de comédia", afirma Lewis. Todos os dias havia uma nova piada em circulação, ainda que quem fosse pego contando-as corresse o risco de ser preso ou mandado para um gulag, o campo de trabalhos forçados. Sociólogo do humor e professor da Universidade de Reading, na Inglaterra, Christie Davies afirma que "o maior 'corpus' de piadas que existem ridicularizando governantes e um sistema político vem da antiga União Soviética e dos países sob o comunismo na Europa oriental.

Entre os motivos para que o humor fosse digno de análise está o fato de que abrangia todos os aspectos da vida cotidiana. Da compra de pão às decisões dos líderes, tudo virava piada. "Na URSS, tentavam controlar tudo, a vida econômica inteira, o dia a dia, as artes, ciências, cultura", diz Davies. "Tudo virou política. Havia mais coisas sobre as quais fazer piada porque havia muitas interferências. Na maior parte das ditaduras, o cotidiano fica mais ou menos igual." Não havia como escapar do controle, então contavam-se piadas: "Milhões de cidadãos dos países comunistas consideravam as piadas um ato de rebelião", diz Ben Lewis. O poder do humor era visto de tal maneira que "muitas pessoas que viveram no bloco soviético me disseram que o humor tinha derrubado o comunismo", diz ele.

A pesquisa de Lewis se baseou em cerca de 40 compilações de piadas lançadas em países ocidentais entre 1950 e 1980. A mais antiga foi publicada em 1951, na Alemanha. No livro, o autor, Yevgeny Andreevich, argumenta que a "piada é a única arma disponível para aqueles que vivem sob um regime totalitário". "Por disseminar essas piadas, inúmeras pessoas foram presas pela polícia secreta. A sentença usual para contadores de piadas era de cinco anos."

Punições

Houve dois períodos no universo das piadas ilegais soviéticas. O primeiro coincide com os governos de Lenin (1922 a 1924) e Stalin (1924 a 1953) e corresponde a uma época de maior rigidez. Não há dados oficiais, mas estima-se que a maior parte das punições por contar piadas (consideradas 'propaganda anticomunista', portanto um crime) tenha ocorrido durante esses anos. Comparativamente, havia uma quantidade menor de piadas circulando. Talvez isso se explique pelo fato de o regime ser novo. Tão novo que a realidade ainda não havia virado motivo de piada.

O humor usado para criticar Stalin era muito parecido com o dos tempos do czar Nicolau II, o que indica que ainda não havia uma crítica direta ao comunismo. Havia também, claro, o medo da repressão stalinista, que perseguiu seus opositores no que ficou conhecido como o Grande Terror e matou e cassou milhões de pessoas.

O segundo período começa após a morte de Stalin, quando se inicia o governo de Nikita Khrushchev e vai até a ruína do socialismo, em 1989. A censura ainda estava em vigor e pessoas eram presas por fazer 'antipropaganda', mas era cada vez mais raro que alguém fosse condenado por piadas. Aqui, o humor soviético começa a se refinar e a fazer pouco das filas para comprar pão e carne, da má qualidade dos produtos e da falta da liberdade de expressão.

O órgão responsável por investigar e prender os piadistas era a NKVD, o serviço secreto. Ben Lewis afirma que em 1933 um número significativo de pessoas foi parar na cadeia por causa das piadas. Estima-se que 43 686 pessoas foram presas por violação desse tipo até 1935. Ainda não se sabe quantas dessas acusações diziam respeito especificamente a piadas, mas é possível ter a medida do perigo que se corria.

Piada oficial

Dizer que as piadas sobre os governantes, o regime e a vida sob o comunismo eram proibidas não quer dizer, porém, que os órgãos oficiais da URSS achassem o humor desimportante. Entre os anos 1920 e 1950 houve calorosos debates entre os intelectuais do partido para tentar descobrir como deveria ser o "riso soviético". Anatoli Lunacharski, ministro da Educação e Cultura entre 1917 e 1929, publicou em 1920 um texto chamado Nós riremos, onde tenta definir que tipo de comédia seria apropriada aos novos tempos: "O riso não é sinal de força, ele é a própria força. E deve ser canalizado na direção correta".

O humor serviria como instrumento de educação cívica, desde que aprovado previamente e distribuído pelo governo. Criticar não era propriamente um problema. Sergei A. Oushakin, diretor do Programa de Estudos Russos e Eurasianos da Universidade de Princeton (EUA), observa: "Se você olhar os documentos oficiais de perto, verá que eles não queriam suprimir as críticas totalmente, mas definir que tipo de crítica poderia ser feita".

A finalidade do riso ia além da diversão. Ele deveria ajudar a identificar os problemas do sistema. "Essa crítica localizada dava a possibilidade de criticar o sistema social, mas, ao mesmo tempo, havia espaço para que ele melhorasse. Ao contrário das piadas clandestinas, que diziam que não havia esperanças", diz Oushakin. A isso deu-se o nome de "humor positivo".

Oushakin, porém, mostra que o regime não conseguiu cooptar o humor. "A ideia de administrar o riso era incompatível com seu efeito irruptivo e perturbador. A arma do humor era muito refinada para ser controlada", afirma o pesquisador no artigo Red Laughter: On Refined Weapons of Soviet Jesters. Para Christie Davies, é exagero dizer que piadas tivessem papel político tão importante. Segundo ele, serviriam como "termômetro" da situação. Ben Lewis concorda: "Foram importantes para manter o espírito de oposição à URSS vivo. Era só uma maneira de articular a oposição. Quando eles começaram a derrubar os regimes, pararam de fazer piadas e entraram em ação".


Saiba mais
Hammer & Tickle, Ben Lewis, Weidenfeld & Nicolson, 2008

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