Seis Dias: A reformatação do Oriente Médio

Há 50 anos, Israel fulminava adversários árabes e redefinia a paisagem política do Oriente Médio - inclusive seus inimigos

Ramon Botifa

Tanques israelenses adentram o Sinai | <i>Crédito: Reprodução
Tanques israelenses adentram o Sinai | Crédito: Reprodução

Tudo começou em 14 de maio, aniversário da fundação de Israel. No Egito, espalhou-se o rumor de que forças israelenses concentravam-se na fronteira síria e preparavam-se para uma invasão. Até hoje não se sabe se o boato era verdadeiro – alguns historiadores sugerem que uma falsa informação foi fornecida pelo serviço secreto soviético. De qualquer maneira, o presidente egípcio, Gamal Nasser, deslocou suas tropas para o deserto do Sinai, na fronteira de Israel, e bloqueou o estreito de Tirã, no Mar Vermelho – rota de acesso israelense ao Oceano Índico. Quatro dias depois, a Síria também concentrou seus exércitos nas colinas de Golã, região grudada à fronteira com o Estado judeu.

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Embora Israel tivesse garantido que não começaria a guerra, foi o primeiro a atacar. Os israelenses apontavam os discursos inflamados de Nasser e os votos de destruição de caudilhos árabes como prova de que o Egito planejava varrer seu país do mapa. O ataque preventivo de Israel, na manhã do dia 5 de junho, foi fulminante. Na época, seu ministro da Defesa era o legendário Moshe Dayan, general brilhante, francamente expansionista e famoso pelo tapa-olho preto – ele perdera uma das vistas na Segunda Guerra. Dayan ordenou um ataque-surpresa: em poucas horas, aviões israelenses pulverizaram as bases aéreas do Egito e da Síria antes mesmo que um único jato árabe tivesse decolado. Nos cinco dias seguintes, a infantaria de Israel inundou vários territórios árabes. O Egito perdeu a Faixa de Gaza e o deserto do Sinai. A Síria ficou sem as colinas de Golã – região hoje estratégica para o abastecimento de água de Israel, já que é fonte do maior rio da região, o Jordão. A Jordânia, que só entrou na guerra timidamente e na última hora, perdeu tudo o que anexara em 1948: Israel ocupou a Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

Vitória da tecnologia

A importância da Guerra dos Seis Dias, como ficou conhecida, foi enorme e ainda define em grande parte os conflitos de hoje. Primeiro, ela provou a abissal superioridade militar de Israel. “A guerra foi travada em locais desérticos e desabitados, onde a vantagem tecnológica é tudo”, diz Paulo Vicentini, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Além disso, o Estado hebraico expandiu ainda mais seu território. Na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, onde se concentrava o grosso da população palestina, os israelenses passaram a construir assentamentos – considerados ilegais pela ONU e organismos de defesa dos direitos humanos.

Jerusalém, que desde 1948 estava dividida entre israelenses e árabes, foi unificada e virou a capital de Israel. Hoje, os palestinos exigem que a parte oriental seja devolvida e se torne a capital de seu futuro Estado – sem isso, afirmam, não haverá paz. Israel, por seu lado, responde que Jerusalém nunca será dividida outra vez. Milenar, conturbada e fascinante, a cidade é sagrada para o Islã e para o judaísmo.

Consta que, algumas horas após o fim da guerra-relâmpago, Moshe Dayan levou o já velho Ben Gurion para um passeio de helicóptero sobre os territórios anexados. Voaram sobre Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental. Quando o helicóptero aterrissou, o fundador de Israel segurou Dayan pelo braço e disse-lhe algo que, hoje, é quase consenso entre os estudiosos: se Israel quisesse um dia ter paz, devia devolver a maior parte do que conquistara em 1967. O conselho não foi seguido.

Saddat e o Dia do Perdão

Para o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, a Guerra dos Seis Dias foi uma aniquilação – política e psicológica. Ele morreu três anos depois, de um ataque do coração, e foi sucedido pelo amigo Anwar El-Saddat, seu companheiro no golpe de 1952. Rearmados pela União Soviética, o Egito e a Síria combinaram um ataque conjunto em 1973. Em 6 de outubro (Yom Kippur, ou “Dia do Perdão”, o feriado mais sagrado para o judaísmo), Israel foi pego de surpresa: os egípcios avançaram pelo Sinai e os sírios, pelas colinas de Golã, territórios ocupados em 1967. Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita, o Iraque e a Líbia cancelaram suas exportações de petróleo ao Ocidente, causando uma disparada no preço dos combustíveis. No campo de batalha, Israel venceu: seus exércitos retomaram as posições perdidas em um rápido contra-ataque. Na arena política, no entanto, quem ganhou foi Saddat. Os Estados Unidos, assustados com a greve do petróleo, impuseram um cessar-fogo. O Egito atraiu Israel para a mesa de negociações e, em 1978, os dois assinaram a paz em Camp David. Israel devolveu o Sinai e Saddat fez uma visita de cortesia a Jerusalém. No Ocidente, o líder egípcio ganhou fama de moderado e levou o Nobel da Paz de 1978. Entre os árabes, foi tachado de traidor: fizera as pazes com Israel sem obter nenhum benefício para os palestinos. Em 6 de outubro de 1981, durante as comemorações do oitavo aniversário da “vitória” do Yom Kippur, Saddat batia continência diante de suas tropas quando um grupo de soldados abriu fogo contra ele. O Dia do Perdão virou o dia da vingança.


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