Sexo, serpentes e subversão: Luz del Fuego

Batendo de frente com todos os valores, ela abriu caminho para a liberação feminina

Por Dimalice Nunes

A polêmica atriz na revista 'O Cruzeiro' | <i>Crédito: Reprodução
A polêmica atriz na revista 'O Cruzeiro' | Crédito: Reprodução

Cem anos de vida, 50 de seu assassinato. Dançarina, cortesã, adestradora de cobras, ícone e mártir da causa da liberdade sexual feminina. Quem se lembra dela?

“A memória de Luz del Fuego padece de um silenciamento por questões políticas. Os jornais da época trazem muita notícia sobre ela, mas sua presença era e continua sendo incômoda”, afirma a historiadora e especialista em história das mulheres, Nataraj Trinta. É fato. São escassos aqueles que se debruçaram até hoje sobre a história de Luz del Fuego. O que se sabe sobre ela vem principalmente da imprensa da época e da biografia Luz del Fuego, a Bailarina do Povo, de Cristina Agostinho (Best Seller, 1994). 

A autora, em parceria com Branca de Paula e Maria do Carmo Brandão, pesquisou durante quatro anos a vida de Dora Vivacqua, que nasceu na segunda-feira de Carnaval de 1917 numa tradicionalíssima família de políticos, empresários e intelectuais de Cachoeiro de Itapemirim, no interior do Espírito Santo. Décima quinta filha do casal Antônio e Etelvina Vicacqua, desafiava a normalidade desde a infância. Era uma, por falta de palavra melhor, moleca – aquilo que em inglês se chama de tomboy, uma menina com hábitos de meninos. Brincava com bichos do mato. Na adolescência, se divertia zombando do recato das irmãs e provocando os garotos. 

Nos anos 1930, ainda adolescente, Dora foi morar com sua irmã Angélica. Era sistematicamente assediada por Carlos, o cunhado. E cedeu. Quando são flagrados, a culpa recai sobre ela. Psiquiatras somam A e B, do passado incomum e sua ação “insana”, e ela é diagnosticada com esquizofrenia. São dois meses de internação no Hospital Psiquiátrico Raul Soares, em Belo Horizonte. Era declarada oficialmente insana. 

A pecha a acompanharia. “No pouco que se sabe, ela é tratada como louca da vida, sem pudores. Infelizmente o que ficou na memória é um pouco do eco do posicionamento daquela época. Luz del Fuego viveu quando as mulheres não eram ainda cidadãs”, afirma Schuma Schumaher, autora, ao lado de Érico Vital Brazil, do Dicionário Mulheres do Brasil (Zahar, 2000). 

Após a alta, um de seus irmãos, Achilles, a convence a passar uma temporada na fazenda de Archiau, outro irmão, 14 anos mais velho que ela. A moça passou a desfrutar de alguma liberdade, até o dia em que decidiu aparecer vestida de “Eva” – três folhas de parreira e duas cobras-cipós como braceletes – para o filho do administrador da fazenda. Ao ser repreendida por seu irmão, um vaso de cristal voou direto na testa. E vem outra internação, desta vez na Casa de Saúde Dr. Eiras, no Rio de Janeiro. Achilles interveio mais uma vez, e a irmã Mariquinhas levou-a para morar com ela em Cachoeiro. Não durou muito, tampouco. Aos 21 anos Dora foge para o Rio de Janeiro.

Areias cariocas

Dora era audaciosa nos namoros e no modo de se vestir, odiava sutiãs. Muito antes do biquíni, ela já frequentava a praia de Marataízes (ES) de calcinha e um top feito de lenços. No Carnaval, suas fantasias, feitas por ela mesma, eram mínimas e transparentes. Para essa “Eva”, o Rio de Janeiro era o paraíso.

Durante entrevista á uma revista capixaba / Arquivo 

Lá ela retoma um antigo romance com José Mariano, filho do famoso arquiteto de mesmo nome e um playboy dos anos 1930 com o mesmo apetite por aventura que Dora. Até certo ponto: quando Dora falou em ser paraquedista, ele a proibiu. A coisa chegou às vias da violência quando ela decidiu estudar dança e se apresentar em circos. O romance, nunca oficializado, termina. 

Como conta o livro A Bailarina do Povo, Dora não era exatamente um talento da dança. Para se destacar ela recorre às cobras, uma de suas obsessões. A inspiração veio de um livro com imagens de sacerdotisas da Macedônia envoltas em cobras. Ela então compra jiboias da Amazônia e ensaia com elas por quase um ano. 

Mas a fama só vem em 1944, quando ela se torna a atração da noite do Circo Pavilhão Azul como “a única, a exótica, a mais sexy e corajosa bailarina das Américas: Luz Divina e suas incríveis serpentes”. Fazia seu espetáculo na companhia do casal de jiboias Cornélio e Castorina. 

Como seria sua marca registrada, Dora apareceu nua. A primeira artista do Brasil a fazer isso. Presa, teve que pagar multa na delegacia. E logo passou a acumular uma longa ficha de delitos contra a moral e os bons costumes. Foi expulsa do Theatro Municipal num baile de Carnaval após se fantasiar de Noivinha Pistoleira e dar tiros de revólver no teto do teatro. Em São Paulo, parou o Viaduto do Chá porque decidiu divulgar seu show fantasiada de Iemanjá: nua, com cabelos e pelos tingidos de verde-esmeralda.

Acumulando escândalos, percebeu que Luz Divina não era um nome forte o suficiente. Em 1947, por sugestão do palhaço Cascudo, surge Luz del Fuego, nome de um batom argentino recém-lançado no mercado.

No fim dos anos 1940 Luz del Fuego já havia salvado vários circos da falência com sua dança exótica quando, enfim, é contratada pela primeira vez pelo casal Juan Daniel e Mary Daniel, donos do Follies, um pequeno teatro em Copacabana. O espetáculo Mulher de Todo Mundo fez muito sucesso e ela vai parar nos jornais. Sua família percebe, chocada, o que ela fazia e o quanto era célebre por isso.

Nudez política

O teatro de revista e suas vedetes são sensação no Brasil na metade do século 20. Revistas inteiras são dedicadas ao tema. A fama traz dinheiro e, principalmente, influência. Dona de uma educação esmerada, fruto da origem abastada, ela transita à vontade nas rodas de artistas, intelectuais e também nos corredores do poder.

Aos 30, estava em seu auge. E sentiu que era a hora de usar sua fama para abordar outras questões. Já vegetariana, sem fumar ou consumir bebidas alcoólicas, e com um óbvio interesse pela fauna e flora, tornou-se a primeira apóstola do naturismo no Brasil. A nudez, que um dia foi vista como sintoma de uma mente transtornada, depois uma profissão, tornava-se um estilo de vida – e um programa político. No fim da década de 1940 Luz del Fuego se dedica intensamente à teorização do movimento naturista brasileiro.

Em seus trajes favoritos / Kurt Klagsbrunn

Em 1949 lançou o Partido Naturalista Brasileiro (PNB), que teria a defesa do divórcio, da mulher e do nudismo como principais bandeiras. Luz pretendia se candidatar a deputada federal, tudo com o dinheiro ganho em seus shows. Promoveu-se seminua, nas escadarias do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O partido, porém, não obteve registro. Seu irmão Attilio fazia lobby contra ela. Era senador, e o fato de a irmã dançarina pregar ideias progressistas o acabrunhava politicamente. 

Ela não se deu por vencida. Em 1950 usou de sua influência para pedir ao ministro da Marinha, Renato Guilhobel, a concessão de uma ilha para criar um clube de nudismo. “De forma completamente independente, Dora funda o Clube Naturalista Brasileiro”, conta Eduardo Carrascosa, pesquisador do naturismo em sua tese O Naturismo e os Paradoxos da Identidade na Sociedade Contemporânea, defendida na Unicamp. Segundo essa tese, Luz del Fuego é figura fundamental para que as iniciativas naturistas encontrassem eco entre os interessados no país. 

A ilha Tapuama de Dentro, na Baía da Guanabara, é concedida à artista e se torna a Ilha do Sol, recanto naturista. E, agora, uma linha clara fica estabelecida entre a nudez e o sexo. “A diferença entre naturalismo e libertinagem era veementemente ressaltada: ‘Aqui não é rendez-vous nem motel. Se querem farra e sexo, fiquem nos seus apartamentos em Copacabana’. Só eram permitidas as atividades saudáveis. Nadar, jogar vôlei, tomar banho de sol etc.”, afirmou então.

A ilha, apesar de não fazer parte de qualquer roteiro turístico oficial – por razões óbvias –, receberia várias estrelas do cinema americano, como Errol Flynn, Lana Turner, Ava Gardner, Tyrone Powel, César Romero, Glenn Ford, Brigitte Bardot e Steve MacQueen. Pelo pioneirismo, 21 de fevereiro, data de nascimento de Luz del Fuego, é o Dia do Naturismo.

Fim trágico

Com o fim do governo JK, o alegre otimismo da Quarta República, do Brasil “país do futuro” onde uma figura como Luz del Fuego pôde florescer, dá lugar à raivosa paranoia anticomunista. “A partir dos anos 1960, em especial após o golpe de 64, o clube da Ilha do Sol entrou em decadência, o que levou Luz del Fuego a fechá-lo em 1967. Ela, porém, não abandona o lugar e passa a viver lá com seu vigia e caseiro, Edgar”, explica Nararaj Trinta. 

O que, no fim, pegou Luz del Fuego não foi seu lado provocadora, mas ecologista. Ela denunciou à polícia que certos pescadores estavam agindo com explosivos nos arredores da ilha. Isso resultava em grande mortandade de peixes. Com sua fama de “mulher da vida”, ninguém deu ouvidos. Exceto os pescadores: em 19 de julho de 1967, os irmãos Alfredo e Mozart Teixeira Dias descem à ilha, recebidos com alarde pelos cachorros e por uma Luz del Fuego portando um revólver. Dizem a ela que seu barco está sendo roubado e a convencem a subir no seu. A alguns metros da costa, ela recebe uma pancada na cabeça e é aberta à faca, como um peixe, amarrada numa pedra e descartada ao mar. Voltam então para fazer o mesmo com seu caseiro, Edigar. Os corpos só são achados em agosto. Com um deles confessando o crime, os pescadores terminam presos. Ainda hoje, as ruínas das instalações do camping e morada final da ativista ainda podem ser vistas na Baía de Guanabara. 

Exímia gestora da própria imagem, se vivesse hoje, Luz del Fuego estaria em casa na intenet. Teria odiadores, que a chamariam de “louca” para baixo. E seria tão relevante quanto foi em seu tempo. 

“Os saltos que a gente dá na sociedade, as conquistas, os avanços, são graças às corajosas, às loucas. A Luz del Fuego tinha, nos idos dos anos 40 e 50, uma consciência de ‘o corpo é meu e portanto sou eu quem diz o que fazer com ele’”, afirma Schuma Schumaher. 

“Ela tinha um projeto político para a sociedade”, diz Nataraj Trinta. “Mulheres não são só ‘aparição’ e performance, têm propostas, são capazes de disputar poder. Luz del Fuego foi um ícone da audácia, coragem, crítica à hipocrisia social.”  


Em breve nas bancas 

Uma das inúmeras imagens da artista com uma cobra / Reprodução 

Faceta pouco conhecida de Luz del Fuego é a de escritora. A dançarina escreveu e publicou dois romances, Trágico Black-out (1947) e A Verdade Nua (1948). O primeiro tem viés autobiográfico, com críticas ao casamento e descrições picantes de relações sexuais. O segundo é uma defesa do naturismo, onde ela prega que “o pudor é a mais ignóbil das virtudes. Para celebrar o centenário de Luz del Fuego, a historiadora Nataraj Trinta está trabalhando na reedição dos dois livros. O primeiro, em fevereiro de 2018, será A Verdade Nua, que marcará também o lançamento da editora Marginália. A obra, recheada de imagens da autora, nua, sozinha ou com suas cobras, em posições sensuais, é hoje considerada uma obra rara, item de colecionador, negociada por altos valores em leilões. “O texto, além de ser uma verdadeira ode ao naturismo, traz passagens autobiográficas, reflexões da autora sobre a vida desnuda em meio à natureza, o vegetarianismo e a possibilidade de combater perversões sociais por meio do nudismo”, afirma Nataraj. Em seguida sairá Trágico Black-out.


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