Shibam: A Manhattan no deserto

A pequena cidade no Iêmen guarda um dos mais antigos exemplos de verticalização

Texto Érica Georgino / Ilustração Daniel Rossini

A cidade de Shibam | <i>Crédito: Shutterstock
A cidade de Shibam | Crédito: Shutterstock

À distância, a vila parecia "velha e enrugada, feita da mesma terra que forma as encostas ao seu redor". Mas foi ali que, queimando de febre e com manchas incômodas na pele, a exploradora Freya Stark buscou ajuda em 1935. Os habitantes da cidadezinha no vale do Hadramaute (atual Iêmen) também estranharam a figura pálida da inglesa, sem deixar, porém, de oferecer abrigo, orações e os emplastros disponíveis para aliviar os sintomas do sarampo. Ela se lembraria de Shibam não mais como uma "cicatriz" no meio do vale, mas como um cenário cativante de torres que despontavam no deserto, habitado por gente hospitaleira. A desventura de Stark revelou ao Ocidente o que, meio século mais tarde, seria definido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

A exploradora publicou o relato de sua viagem em 1936. As Portas do Sul da Arábia foi recomendado até pela rainha Elizabeth. O objetivo da expedição de Stark era localizar Shabwa, capital do antigo reino de Hadramaute, citada em documentos do início da era cristã e jamais alcançada por um viajante europeu. O vale, de mesmo nome, era como um oásis na região, à época habitada por povos nômades. As origens da história que ela perseguia são, ainda hoje, difíceis de precisar. Alguns historiadores associam Hadramaute a "Hasarmávet", mencionado no Gênesis. O nome seria derivado das últimas palavras do profeta Hud. Segundo a tradição, o descendente de Noé foi o primeiro habitante estabelecido naquelas redondezas.

Vários centros urbanos surgiram no vale, e não se sabe exatamente quando. "As cidades se formaram como pontos de comercialização e coleta do incenso e da mirra que existiam na região", diz Ronald Lewcock, ex-consultor da Unesco do governo do Iêmen. Com o tempo, os governos de Hadramaute passaram a negociar também o incenso produzido em Dhofar (no atual Omã) e, séculos antes de Cristo, já monopolizavam o comércio dos gêneros valiosos. As cidades funcionavam como entrepostos comerciais para o incenso e a mirra produzidos no sul da Arábia e consumidos no Oriente Próximo e nos reinos do Mediterrâneo.

O comércio 

Desde o antigo Egito, ritos religiosos, medicamentos e mumificações tinham tais produtos como um elemento essencial. Exemplo nítido dessa importância está num texto do século 1, atribuído ao pensador romano Plínio: "Vamos considerar o vasto número de funerais celebrados em todo o mundo a cada ano, e os montes de odores amontoados em homenagens aos corpos dos mortos... Isto é a luxúria humana, que é exibida mesmo na parafernália da morte, à qual a Arábia tem servido assim, "feliz".

As caravanas de camelos cruzavam a península Arábica carregadas de incenso e mirra, além de especiarias, sedas, pedras preciosas e mercadorias importadas da África.

O comércio de incenso e mirra causou a expansão da antiga capital no século 5 

Na condição de capital de Hadramaute, Shabwa tinha um papel de destaque na rota comercial. No século 4, porém, ela foi arrasada por uma inundação e perdeu seu posto para Shibam. Não se sabe ao certo se, naquela época, a nova capital abrigava a mesma área ocupada hoje, delimitada por muros de mais de 3 m de altura em volta da cidade. "Os primeiros muros provavelmente surgiram no século 5, mas a conformação atual data do século 16", diz Tom Leiermann, autor de Shibam, Leben in Lehmtuermen ("Shibam, Viver em Torres de Barro").

As muralhas serviam de proteção contra ataques de tribos nômades que buscavam os dividendos sobretudo do incenso. Até o início do século 20, as maiores cidades do vale mantiveram o hábito de fechar seus portões durante a noite não por causa das riquezas advindas do comércio - que já eram glórias passadas -, mas para evitar a entrada de forasteiros. "Em Shibam, a sociedade era essencialmente tribal, quase como na Idade Média europeia, e regida por administrações fracas", afirma Leiermann. A população (de maioria muçulmana sunita) conquistou maior proteção do Estado a partir da fundação das repúblicas do Iêmen do Norte (1918) e do Sul (1967), unificadas em 1990.

Neve?

Milhares de turistas visitam Shibam atraídos por relatos exóticos - da "enrugada" cidade descrita por Freya Stark, aos de "Chicago" ou "Manhattan do deserto", apelido que o vilarejo mereceu por causa das suas casas em forma de torre.

Os edifícios, com alturas que variam entre cinco e oito andares, são feitos com terra local - tijolos artesanais cobertos de palha (que brilham com a incidência do sol), encaixados em vigas de madeira reforçadas. As técnicas de construção tem sido repassadas há séculos, sem grandes alterações. Cada andar costuma exigir um ano para que a estrutura esteja completamente seca antes de iniciar o pavimento seguinte. As obras são marcadas por rituais e festas. Era comum que, em diferentes etapas concluídas, uma cabra ou ovelha fosse abatida, e seu sangue, derramado pelos canteiros. A carne era dividida entre os pedreiros e um quinto pertencia ao proprietário da casa.

Visão geral da pequena cidade de Shibam / Latinstock

Na parte superior, um ou dois níveis de todos os edifícios são revestidos contra as chuvas de argamassa de cal branca, protetora de telhados, parapeitos e paredes externas, provocando à distância a curiosa impressão de que a cidade está coberta de neve. Na base, o mesmo recurso era utilizado para evitar o desgaste provocado pela urina de animais. Por dentro, as construções de barro tendem a ser mais frescas do que as de concreto na parte nova da vila - porém aliviam pouco o calor de quase 50 ºC no verão. Quem não tem ventilador ou ar condicionado prefere enfrentar os mosquitos e dormir no terraço. Ainda hoje as residências têm poucos móveis, mas há banheiros em todos os andares. Até algumas décadas atrás, as mulheres tinham de cruzar os muros da cidade para buscar água.

Para além do exotismo, o hábito de construir altas casas de barro faz parte da tradição dos povos do sul da península Arábica. Reflete sua capacidade de adaptação ao ambiente, a preocupação com a privacidade da família e oferece maior segurança. Após inundações catastróficas ocorridas em 1298 e 1532, Shibam teve seus terrenos redistribuídos de forma cuidadosa, o que determinou as ruas paralelas de ângulos retos. As habitações foram reerguidas nas áreas mais altas e, "a partir daí, a expansão só foi possível para cima", diz Lewcock. Hoje, Shibam possui redes de água, esgoto, telefone e internet e cresce o subúrbio da cidade. 


As casas-torre

Como se organizam as peculiares construções remanescentes em Shibam

Clique para ampliar o infográfico 


Saiba mais

Wadi Hadramawt and The Walled City of Shibam, Ronald Lewcock, Unesco, 1987


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