A família quilombola

A vida dos escravos nos recônditos para onde fugiam

Mary del Priore

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. | Crédito: Hafaell

Enquanto durou a escravidão no Brasil, os escravos resistiram. E de várias formas: pequenos furtos, envenenamentos, feitiços, suicídios, fugas, revoltas e quilombos. Vários quilombos, além de Palmares, o mais famoso, floresceram, em todas as regiões da colônia. Para eles, corriam homens, mulheres. Neles nasciam e eram batizadas as crianças, filhas dos fugitivos. Neles também se constituíam famílias. 

Romances publicados no final do século 19, como o História de Quilombolas, do escritor Bernardo Guimarães, permitem-nos conhecer um pouco do que seria a vida das famílias de negros fugidos. Sua história se passa num quilombo localizado no interior de Minas, próximo à Serra de Itatiaia. Embora estivesse apenas a 4 léguas de Ouro Preto, o quilombo escondia-se do olhar de curiosos graças à floresta. Aí desenrola-se a paixão de Mateus Cabra, um escravo que se tornou quilombola e resolveu raptar sua amada, a escrava “mulatinha Florinda”. O rapto da heroína despertou ciúme no mulato Anselmo, que também a amava. No quilombo, Florinda desperta outra paixão: desta vez no “preto africano” Zambi Cassange, poderoso chefe. Sua mulher, “a rainha Maria Conga” fica louca de ciúme, iniciando uma trama em que se misturam amor, ódio e traição. 

Não pensemos que todos os casais vivessem como Mateus Cabra e Florinda. Mas esses personagens, tão humanizados por Bernardo Guimarães, nos permitem imaginar o que era a vida doméstica e familiar nos quilombos. Um problema era a escassez de mulheres. No quilombo de Iguaçu, por exemplo, que se formou na província do Rio de Janeiro entre 1816 e 1877, apenas 11% eram mulheres. Os homens tinham mais facilidade para fugir, uma vez que, sobretudo nas regiões urbanas, desempenhavam serviços de rua, onde o controle do senhor era menor. Várias companheiras procuravam se juntar aos seus homens. Algumas rompiam com a dominação senhorial e estabeleciam-se definitivamente no quilombo. Outras visitavam seus parceiros, voltando depois para a casa dos senhores. Às vezes, a presença dessas mulheres no quilombo provocava tensão e morte. Companheiros ciumentos eram capazes de atracar-se com outros negros do quilombo se vissem suas mulheres trocando com eles um dedinho de prosa.

Os casais que se estabeleciam em quilombos constituíam famílias com filhos. Esses tanto podiam viver segundo os costumes africanos como podiam ser batizados, ali mesmo, por um padre amigo dos quilombolas. A preocupação com o batismo das crianças negras era tão grande que, quando os quilombos eram atacados e seus membros capturados, a primeira medida tomada pelas autoridades era batizar as crianças. Observemos o que diz a carta escrita pelo governador da capitania de Minas Gerais em 1759, às autoridades metropolitanas, narrando o cruel ataque das autoridades a um quilombo: “Sou ciente de haver atacado dois quilombos, e depois de fazer neles uma grande mortandade e os que não fugiram fez prender, e reduzir a cinzas as casa em que viviam, donde encontrou mulheres pretas, e alguns filhos nascidos destas, naqueles quilombos em idade de 12 anos, a estes se administrou logo o sacramento do batismo”.

As mulheres capturadas nos quilombos eram enviadas de volta aos seus antigos senhores. Caso tivessem dado à luz, o filho chamado então “cria” também iria para o senhor, pois pelo princípio do “ventre cativo” (o filho de uma escrava seria sempre considerado escravo), ele pertencia ao proprietário da escrava. Para reavê-la, no entanto, o senhor tinha que pagar um prêmio, em dinheiro, às autoridades. 

Fugidos dos cativeiros, homens e mulheres buscavam viver nos quilombos as relações afetivas e familiares que em geral não conseguiam viver no “mundo dos brancos”. Morar junto, dividir os trabalhos da sobrevivência e criar filhos era o objetivo de muitos deles. A perseguição implacável aos “quilombolas” dissolveu famílias, separando pais e mães de seus pequenos filhos. Triste realidade da escravidão!

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