46º Regimento de Bombardeio da Guarda Taman: as bruxas da noite

Entre 1942 e 1945, um regimento de bombardeio noturno formado somente por mulheres infernizou as tropas alemãs de Criméia a Stalingrado

Beto Gomes Publicado em 01/09/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Noite fria na costa do Mar Negro. No acampamento russo perto de Kerch, aviadoras do 46º Regimento de Bombardeio da Guarda Taman preparam-se para uma missão. É a décima e última de uma noite que acumula 14 horas de vôo e nenhuma de sono. A investida alemã na vastidão da Rússia arrasta-se há mais de dois anos. É inverno de 1943 e aquele pedaço da Criméia abriga algumas das batalhas mais violentas da Segunda Guerra. A 30 quilômetros da linha do front, os PO-2 russos decolam de um aeroporto precário. Mergulham no céu escuro em direção às instalações inimigas. Nesta noite, a tarefa é um pouco diferente das habituais. O objetivo é apenas desviar a atenção e abrir caminho para as tropas da marinha soviética, incumbidas de desembarcar na costa e atacar por terra o exército invasor. Ao chegar à zona de combate, a tenente e comandante Nina Raspopova assiste a tudo de seu cockpit. Muitos de seus compatriotas são descobertos e eliminados. Marinheiros sucumbem nas águas gélidas do estreito de Kerch. E a noite apenas começava para ela.

Nina fazia parte de um grupo especial de bombardeio, composto exclusivamente por mulheres durante o período em que esteve em operação, de maio de 1942 a maio de 1945. Formado por voluntárias que se alistaram logo no início da guerra, o 46º Regimento de Bombardeio da Guarda Taman operava sempre à noite, atacando posições alemãs como pontes, depósitos de combustível e munição, tropas e veículos de suporte. Muitas delas jamais haviam voado até o treinamento em Engels, base ao norte de Stalingrado. Ali aprenderam em seis meses o que era ensinado em três anos. Enfrentaram ceticismo e preconceito dos homens e tiveram de provar sua competência. E foi só questão de tempo.

Durante suas 1,1 mil noites de combate, as aviadoras do 46º realizaram mais de 24 mil ataques. Somavam um contingente superior a 200 mulheres, incluindo pessoal de terra, apoio e manutenção, das quais 30 morreram ao longo dos três anos em que o regimento atuou. As ações concentraram-se na Criméia, especificamente nos conflitos de Kerch e Sebastopol, mas a atuação do esquadrão espalhou-se por boa parte do front Leste e, durante a retirada alemã, empurraram os invasores de Varsóvia e viram in loco a vitória em Berlim.

Ao longo desse tempo, provocaram estragos importantes nas forças do Reich, conquistaram respeito e foram condecoradas. Temidas do outro lado do front, seu desempenho à frente dos PO-2 e a eficiência de seus ataques lhes renderam o apelido de Bruxas da Noite (Nachthexen, em alemão), dado pelos próprios inimigos. Mas elas também pagaram um preço alto.

Rotina estafante

A rotina das aviadoras era extremamente estressante. Por causa de seu tipo de missão, instalavam-se em regiões próximas do front, um desafio constante. Abrigos antiaéreos não existiam; elas erguiam pequenos aeroportos improvisados e muitas vezes passavam a noite inteira dentro do cockpit, saindo vez por outra apenas para tomar chá. O cotidiano ficava mais estafante quando, não raro, faziam reconhecimento e abastecimento de tropas durante o dia. Às vezes, piloto e navegadora caíam no sono durante o vôo. Isso quando o medo, outro camarada inseparável, as deixava pregar os olhos. A piloto Larisa Rozanova descreve a situação no livro In The Sky Above the Front (No Céu sobre o Front), editado por Kazimiera Jean Cottam: “Você acordava no meio do vôo e não sabia onde estava, tampouco o que estava acontecendo com você”.

A veterana Maria Smirnova também tem suas lembranças transcritas em A Dance with Death (Uma Dança com a Morte), de Anne Noggle: “Nós enfrentávamos riscos todas as noites. Mas não interprete mal minhas palavras e pense que encarávamos a morte aberta e bravamente – isso não é verdade. Nós nunca nos acostumamos com o medo. Antes de cada missão e quando nos aproximávamos do alvo, eu me tornava um concentrado de nervosismo e tensão. Meu corpo inteiro era tomado pelo temor de ser morta. Nós tínhamos que atravessar o fogo das baterias antiaéreas e escapar do foco dos canhões de luz que miravam o céu. Mergulhávamos e saíamos de lado para não ser atingidas. Tudo isso afetava meu sono enormemente. Quando retornávamos de nossas missões, eu não conseguia cair no sono. Tossia na cama e tinha ataques de pânico. O medo era algo sempre inseparável de nossos vôos, mas nós sabíamos que tínhamos que fazer isso para libertar nossa Terra Mãe”.

Apesar do medo, a maioria demonstrava coragem e destreza invejáveis. Durante a segunda investida dos soviéticos para libertar a península da Criméia, no final de 1943, os combates foram intensificados e as Bruxas da Noite tiveram um papel fundamental para enfraquecer as tropas nazistas. Na noite em que Nina Raspopova assistiu do céu a seus compatriotas serem envolvidos pelos alemães, o tanque de combustível de seu PO-2 foi atingido e o motor parou de funcionar. Ela retomou o curso para o Estreito de Kerch e, quando estava perto de aterrissar, notou que todas as vias de aproximação haviam sido destruídas. Estradas viraram valas enormes, mas ela tinha que pousar. No fim da estrada, uma peça de artilharia antitanque furou o piso do cockpit e a roda esquerda do PO-2 parou na beira de uma vala. “Só Deus sabe como consegui escapar da morte e descer naquela via esburacada”, lembra Nina, em depoimento a Anne Noggle.

Meses depois, e em grande parte graças à ajuda das Bruxas da Noite, a região estava livre dos invasores. Mas eles deixaram para trás um saldo de 15 mil civis mortos, 14 mil deportados e uma lista de atrocidades apresentada anos depois no Tribunal de Nuremberg.

Máquinas obsoletas

O PO-2 usado pelas Bruxas da Noite era uma aeronave obsoleta, mas eficaz para a missão em que foi empregada. De cockpit aberto, não passava dos 120 km/h e não dispunha de armamentos de defesa. Por isso, era alvo fácil para baterias antiaéreas e canhões de luz – o que valoriza ainda mais a perícia de suas pilotos. Para driblar as deficiências, as aviadoras desligavam o motor antes de chegar ao alvo e planavam enquanto despejavam as bombas. A competência da comandante do 46º Regimento, Evdokia Davydovna Bershanskaya, também contribuiu para o sucesso do grupo. Ela introduziu uma tática que empregava dois aviões em uma mesma missão, em vez de apenas um. Com isso, enquanto uma aeronave despistava os canhões de luz, a outra executava o bombardeio. Funcionou. E ela entrou para o seleto grupo dos 12 “Comandantes Extraordinários de Regimento Aéreo”.

Exército de saias

O 46º Regimento de Bombardeio da Guarda era um dos três grupos inicialmente formados só por mulheres – porém o único exclusivamente feminino. Concebidos e criados por Marina Raskova, aviadora que antes da Segunda Guerra já recebera o título de Herói da União Soviética, os três regimentos lutaram em diversas partes do front Leste. Aviadoras como Liliia Litviak, do 586º Regimento de Caça, foram destacadas para sobrevoar Stalingrado e ajudaram o Exército Vermelho a impor a primeira derrota aos nazistas. O segundo grupo, o 587º Regimento de Bombardeio, comandando pela própria Raskova, teve um desempenho notável a bordo de seus PE-2. O 587º voou 1 134 missões e despejou 980 mil toneladas de bombas nos alemães. Os três regimentos obtiveram as mais altas honrarias do exército russo. No 46º Regimento, 24 aviadoras receberam o título de Herói da União Soviética e todos os seus membros foram condecoradas.

 

Para saber mais

Livros

Women in Air War: The Eastern Front of World War II, Kazimiera Jean Cottam (org.), New Military Publishing, 1997

Narra as memórias das aviadoras russas durante a Segunda Guerra.

Wings, Women and War: Soviet Airwomen in World War II Combat, Reina Pennington e John Erickson, University Press of Kansas, 2002

Uma das leituras mais atuais e verossímeis sobre o assunto.