Alcorão: E Deus falou sua língua

O Alcorão é, segundo os fiéis muçulmanos, aprópria palavra divina, transmitida por meio de Maomé.Nele, personagens bíblicos como Jesus e Moisés estãoao lado de relatos que se estendem até o século 7

Isabelle Somma Publicado em 01/01/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Em maio do ano passado, a notícia de que o Alcorão tinha sido profanado na prisão da base militar americana de Guantánamo, em Cuba, provocou imensa revolta em todo o mundo muçulmano. Um exemplar teria sido chutado, outro teria sido molhado com urina. Os livros pertenciam a prisioneiros, acusados de terrorismo, vindos de países islâmicos – alguns foram torturados física e psicologicamente. Em protesto, milhares de pessoas saíram às ruas no Paquistão, Indonésia, Egito, Arábia Saudita, Bangladesh, Malásia e Afeganistão (onde pelo menos 16 mortes ocorreram durante os distúrbios). A revolta contra a violação do Alcorão se justifica. Mais do que um livro sagrado, ele é considerado pelo 1,5 bilhão de fiéis do Islã em todo o mundo como a própria palavra divina. “O Alcorão é visto como a eterna e literal palavra de Deus, preservada na língua árabe, na qual foi revelada e colocada da forma como foi ordenada por Deus”, explica John Esposito, autor do livro What Everyone Needs to Know about Islam (“O que todos devem saber sobre o Islã”, inédito no Brasil). O respeito com a obra é tão grande que, antes de começar suas orações e encostar as mãos no Alcorão, os fiéis devem fazer as abluções (lavagens de partes do corpo), seguindo rituais descritos no próprio livro.

A própria história da escrita do livro tem contornos divinos. Segundo a tradição islâmica, a mensagem foi transmitida por Deus a Maomé, tendo um anjo como intermediário. A partir do Ramadã (mês sagrado dos muçulmanos) do ano de 610, Jibril (Gabriel) começou a sussurrar ao profeta as palavras de Deus. Nos 23 anos seguintes, o anjo continuou a revelar a mensagem divina. Maomé, conhecido como “mensageiro de Deus”, transmitiu as exatas palavras a seus fiéis. Eles, por sua vez, decoraram e anotaram o que seu líder dizia – o que foi feito em materiais disponíveis na península Arábica do século 7: omoplatas de camelos, peles de animais, pedras e folhas de tamareira.

Algumas narrativas do Alcorão (nome que em árabe significa “a recitação”) estão presentes na Torá e na Bíblia, os livros sagrados das outras grandes religiões monoteístas. “O Alcorão também considera essas duas obras como revelações de Deus, porém distorcidas por traduções e adulterações”, afirma Shawkat Toorawa, professor de Estudos Islâmicos e Literatura Árabe da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. Como a mensagem divina teria sido transmitida originalmente em árabe, isso levou os muçulmanos a concluírem que essa foi a língua eleita por Deus para se comunicar com a humanidade. Dessa forma, quando traduzidas, as escrituras fundadoras do islamismo perdem seu valor sagrado.

Quando se trata de fazer orações e dirigir-se a Deus, portanto, o fiel deve usar apenas o árabe. Muçulmanos indonésios, iranianos e paquistaneses, por exemplo, que não têm o idioma como língua nativa, devem aprendê-lo para entender as mensagens durante a prática religiosa. “O árabe é freqüentemente necessário para ler o Alcorão. Mas as pessoas não são forçadas a aprender, a menos que considerem conveniente e isso não enfraqueça sua formação”, diz Mohammed Sharafuddin, professor de Estudos Islâmicos da Universidade George Washington, nos Estados Unidos. Versões do Alcorão em outros idiomas são, inclusive, aceitas para fins de divulgação. Cerca de 40 delas já receberam a aprovação da Liga Islâmica Mundial e são impressas no Complexo Rei Fahd, em Medina, na Arábia Saudita. A tradução oficial para a língua portuguesa acaba de ficar pronta – não será posta à venda, mas distribuída.

No texto corânico podem ser encontrados relatos sobre Adão e Eva, Moisés, Abraão, Davi, Salomão, Jesus Cristo e sua mãe, Maria (veja quadro na página 56). Além de histórias bíblicas, o Alcorão traz também relatos do período em que Maomé era vivo, como as três batalhas em que sua comunidade se envolveu naquela época. Há também indicações de normas de conduta, desde se vestir com modéstia a dar lugar a outros fiéis durante as assembléias. Os princípios corânicos, em grande parte, coincidem com os exaltados por outras obras religiosas. “A principal mensagem do Alcorão é de amor e piedade natural”, afirma Sharafuddin. “O texto procura atingir o coração do leitor para que ele descubra sua própria verdade. Se nada for atingido, não há culpa ou punição. A palavra de Deus não é imposta por força.” Por outro lado, o livro defende que, ao ser agredido, qualquer um tem o direito de revidar – não há algo como o “oferecer a outra face” dos cristãos. “Aqueles que realizam atos de agressão erradamente e sem temer a Deus sofrerão punição, segundo as próprias palavras do Alcorão. Contudo, a autodefesa é garantida a todos, seja ou não um muçulmano”, diz Sharafuddin.

Norma culta

“Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.” Essa frase inicia 113 das 114 suratas, que é como se chamam os capítulos do Alcorão (individualmente, cada um leva o nome de “sura”). Elas contêm 6 236 ayatas, ou versículos, divididas desigualmente (cada um deles é uma “aya”). Nem as suratas nem as ayatas estão dispostas em ordem cronológica de revelação ou de assuntos. A única ordem que o Alcorão segue é a de tamanho: a partir da segunda sura até a última, elas estão dispostas da mais longa para a mais curta delas. Um erro comum é pensar que Maomé é o narrador da obra. Na verdade, quando o texto está em primeira pessoa, é a voz de Deus que aparece escrita. Quando ele usa a segunda pessoa do singular, é o próprio Deus se referindo a Maomé.

A forma final do Alcorão foi definida aproximadamente duas décadas após a morte de Maomé, ocorrida em 632. No mesmo ano, seu sucessor, Abu Bakr, começou a reunir os relatos dos fiéis que haviam guardado as palavras sagradas ditas pela boca do profeta, que, analfabeto, não deixou nada escrito (segundo a tradição, uma das mulheres de Maomé, Hafsa, havia decorado o texto inteiro). O califa Bakr, entretanto, morreu antes de completar o trabalho. Foi somente durante o califado de Uthman (644-656), o terceiro sucessor de Maomé, que o livro foi compilado do modo atual, aceito tanto por fiéis de orientação xiita como sunita (os dois principais ramos do islamismo).

No cotidiano dos muçulmanos, o Alcorão e sua mensagem são muito presentes. Canais de TV, de rádio e até o sistema de som de companhias aéreas do mundo islâmico transmitem recitações do Alcorão. Documentos oficiais de países de maioria muçulmana trazem frases do livro. “Trechos do Alcorão também integram as cinco orações diárias dos muçulmanos”, diz o professor Toorawa. Fiéis de todo o mundo se dedicam a decorar partes do texto, e alguns chegam mesmo a memorizar o livro inteiro (que equivale, em tamanho, a quatro quintos do Novo Testamento da Bíblia). Além de sagrado, o Alcorão é uma obra-prima por excelência da literatura árabe. Graças a ele, a língua ganhou uma norma escrita culta, reconhecida em todos os países que a têm como idioma oficial – já a forma falada difere consideravelmente de lugar para lugar. “Sendo o árabe a língua em que foi feita a última revelação de Deus para a humanidade, ele mantém um status elevado. O fato de que o Alcorão só é recitado em árabe reforça essa idéia”, afirma Toorawa.

Até mesmo quem não entende o árabe percebe que o estilo corânico traz uma sonoridade próxima da de um texto poético. “O Alcorão não utiliza o simbolismo, como faz a poesia”, afirma o professor Sharafuddin. “Mas, mesmo sem contar com figuras poéticas para expressar sua mensagem, ele usa alguns padrões musicais, como os da poesia árabe antiga, permitindo que o leitor chegue à profundeza da sua ressonância espiritual.” Por trás de tanta poesia, entretanto, há polêmicas – normais quando se trata da interpretação de um texto religioso. “Existem muitas distorções quando são retiradas frases do contexto. Não há dúvida de que o Alcorão é um texto polêmico e que existem, portanto, passagens que parecem fogo e enxofre”, diz Toorawa. “Mas é preciso considerar que elas foram reveladas em um contexto de tensão e, muitas vezes, de conflito.”

 

Tão longe, tão perto

A Torá, a Bíbliae o Alcorão compartilhammuitas histórias entre si

Dogmas à parte, as três grandes religiões monoteístas têm mais coincidências que discordâncias. Em muitos casos, as histórias corânicas são idênticas às contadas na Torá e na Bíblia. Mas é verdade que, em outros, elas ganham versões completamente diferentes. E isso não acontece por acaso. “Quando uma história do Alcorão é diferente de uma bíblica, ela não é considerada pelos muçulmanos como uma reinterpretação, mas como a versão correta da história”, afirma Shawkat Toorawa, professor de Estudos Islâmicos da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. Há alguns casos clássicos, como a história de Adão e Eva. “Segundo o Alcorão, Eva não deve ser culpada sozinha por comer o fruto proibido e pela expulsão do Paraíso. Foram ambos, Adão e ela, os culpados”, diz Toorawa. Outra diferença ocorre na história de Abraão. No livro sagrado do Islã, o filho que ele deve sacrificar é Ismael, fruto do relacionamento com a escrava Agar. Já na versão da tradição judaico-cristã, isso ocorre com o legítimo Isaac, filho do profeta com sua esposa Sarah. Os árabes se consideram descendentes diretos de Ismael, enquanto os judeus dizem seguir a linhagem de Isaac. Já entre os livros sagrados católico e islâmico, as diferenças mais interessantes estão nos fatos relativos a Jesus Cristo. “Segundo o Alcorão, Jesus nasceu da Virgem Maria, fez milagres e pregações, mas era um profeta mortal”, afirma Toorawa. “Enquanto a Bíblia diz que ele foi crucificado, morreu e ressuscitou, o Alcorão diz que Deus o poupou e o ergueu para os céus, ainda vivo.”

Saiba mais

Livro

O Alcorão, Tradução: Mansour Challita, Record, 2002 R$ 41,90